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09:58 | 5 de Fevereiro de 2010

Haiti precisa de um novo Plano Marshall

Depois de visita ao Haiti, deputado federal Emiliano José defende um programa semelhante ao de recuperação da Europa no pós-guerra

Claudio Leal

O deputado federal Emiliano José (PT-BA) integrou a comitiva de congressistas brasileiros que visitou o Haiti na última quarta-feira, 3. Em depoimento a Terra Magazine, ele relata o que testemunhou e sentiu em Porto Príncipe, nas visitas aos comandos militares, aos locais atingidos pelos terremotos, à sede da Viva Rio e numa audiência com o presidente haitiano René Préval.

A comitiva brasileira também foi integrada pelos deputados Raul Jungmann (PPS-PE), Ibsen Pinheiro (PMDB-RS), Cláudio Cajado (DEM-BA), Colbert Martins (PMDB-BA) e Janete Pietá (PT-SP). Para Emiliano, os países das Américas e da Europa, em sintonia com a ONU, precisam iniciar um programa semelhante ao "Plano Marshall" (implementado pelos Estados Unidos, a partir de 1947, para recuperar a Europa devastada pela Segunda Guerra Mundial).

- Na minha visão, as nações da América Latina, e mesmo os Estados Unidos e a Europa, têm que construir uma espécie de Plano Marshall para o Haiti. Compreender que tem que haver uma ajuda efetiva ao governo do Haiti para que se possa fazer a reconstrução daquele país no sentido amplo da palavra - opina.

Confira o relato do deputado federal Emiliano José:

"PLANO MARSHALL PARA O HAITI"


"Chegamos às 7 da manhã de ontem e ficamos até as 21h. Só dormimos em avião, se é que dá pra dormir. Da conversa com o presidente René Préval tive uma conclusão óbvia: até maio, ou antes de maio, é absolutamente essencial, sob pena de outro tipo de hecatombe, 200 mil barracas de lona para abrigar 1 milhão de pessoas que estão espalhadas pelas ruas. Foram espalhadas da forma mais precária, com barracas de pano, acampamentos de panos, separando as famílias por panos. Se vier um chuvaréu, pronto, epidemias e tudo o que se sabe numa situação dessa. Uma população que não tem água, a água é um problema sério. Esse é um problema crucial da conversa com Préval e da visão que nós tivemos naquela tragédia gigantesca.

Em segundo lugar, na minha visão, as nações da América Latina, e mesmo os Estados Unidos e a Europa, têm que construir uma espécie de Plano Marshall para o Haiti. Compreender que tem que haver uma ajuda efetiva ao governo do Haiti para que se possa fazer a reconstrução daquele país no sentido amplo da palavra. Que não se pense apenas em Porto Príncipe, mas no conjunto do País, que tem 80% de sua economia baseada na agricultura. É preciso pensar o conjunto. Há a ideia de um fundo único que receba todas as contribuições, e que seja a gestão do próprio Estado haitiano, sob supervisão do Banco Mundial.

"45 SEGUNDOS DE DEVASTAÇÃO"


Há ainda a ideia que foi proposta pelo ministro (das Relações Exteriores) Celso Amorim - e o presidente Preval gostou muito - de eliminar as taxações dos produtos haitianos. E também a ideia de perdoar as dívidas haitianas em todo o mundo, em razão da situação de impressionante miséria que o país vive. Houve uma fala muito interessante do presidente Préval: "Não basta somente culpar a natureza. Nós já tínhamos vivido quatro furacões em 2008". Ele fez outra comparação interessante. "Nós não estávamos preparados para isso. Houve os mesmos furacões e tivemos muito menos mortos. Agora, 45 segundos causaram mais de 200 mil mortes e, como se sabe, colocou por terra, literalmente, toda a estrutra física e institucional do Haiti." Palácio da Justiça, Palácio do Governo, Palácio do Legislativo, Catedral da Igreja Católica... Tudo o que você imagina como institucional os 45 segundos levaram.

"NÃO HOUVE SAQUES"

Ainda há muita dificuldade, porque não é simples, você encontra filas gigantescas, há esforços das tropas da Minustah (Missão de Paz Brasileira no Haiti), da polícia haitiana. Perdeu-se muita gente. Além de morrerem os brasileiros, morreram centenas de policiais haitianos formados nesse processo recente. Portanto, não tem sido tão simples a distribuição de gêneros. Há gêneros, a distribuição de água está acontecendo, e diria que há uma impressionante calma do povo haitiano. Não há revoltas, não houve saques a supermercados, nos disse a missão militar lá. É incrível até que não tenha havido nada disso. Quando os supermercados caíram, foram pegar os alimentos que ninguém pegou, claro. Mas o povo não saqueou. Houve até calma, se a palavra couber. Visitei o exército de campanha da Aeronáutica. Ela chegou lá e, em quatro horas, montou o exército de campanha. Extremamente eficiente, atendendo as emergências.

"HOJE ELES ESTÃO COMENDO MAIS", DIZ COMANDANTE

É uma situação trágica, abala qualquer um que vê. O terremoto, os furacões recentes, apenas revelam a face cruel e profunda da miséria. Esses fenômenos reais da natureza revelam como o país inteiro está mergulhado na miséria. Ele veio de uma ditadura violenta, do Duvalier (Papa Doc), depois uma outra ditadura de Raul Cedras e uma turbulência política muito grande de lá pra cá. Mas há evidência de que é um país que simboliza de alguma forma a exclusão profunda que o neoliberalismo, os sistemas dominantes do mundo produzem. O Haiti é uma expressão dessa exclusão. É a miséria batendo na cara da humanidade, dizendo: olha aqui o que se produz com esse sistema injusto que nós temos no mundo. Por que o país que fez uma revolução em 1804, a primeira República negra, até contra o Iluminismo, porque o Iluminismo não pegou a escravidão pra ser abolida... Era uma coisa de vanguarda. Por que este país é condenado à exclusão? Não tem energia elétrica, água, condições de saúde...

Tem que haver um Plano Marshall que reúna todos os países: Venezuela, Cuba, Estados Unidos, Brasil... Não estou dizendo que vão aceitar ou não. Mas precisa haver alguma ocupação coletiva dos países do mundo para repetir uma espécie de Plano Marshall, uma reparação. É indignante ver tanta miséria. O comandante me disse lá em Cité Soleil: "Hoje eles estão comendo mais do que antes. Porque veio mais alimentos agora". Não se culpe só o terremoto, é aquele país, de alguma forma, condenado à exclusão pelo neoliberalismo ou pelo conjunto das forças capitalistas do mundo. É preciso se debruçar sobre isso. Não se pode achar que foi apenas um cataclisma. Não pode ser a linha Serra - estou brincando um pouco com a forma como a imprensa cobre a chuva em São Paulo: "a culpa é da chuva". A culpa é da chuva, não é do Serra, do prefeito. Claro que tem um fenômeno da natureza, mas não apenas: isso revela de maneira brutal a exclusão daquele País.

DESTINO DO HAITI

O Brasil tem cumprido um papel importante. Há uma relação excelente com a população haitiana, não há conflito nenhum. Agora, acho que o Brasil e a ONU vão ter que refletir. Neste momento, a ajuda é essencial. Foi dito pelo presidente Préval: "É essencial a presença brasileira aqui. Por tudo". Agora, vai chegar o momento em que o Brasil vai ter que se debruçar com as instituições internacionais, principalmente a ONU, para entregar o destino do Haiti aos haitianos, exclusivamente. Não pode, não deve ser feito agora. A nossa responsabilidade é grande. A missão da ONU é importante, mas essa questão tem ser posta, nesse processo, pelo Brasil e por outras nações. O Plano Marshall é apenas uma metáfora, como houve com a Europa depois da guerra: o Haiti devastado por uma história de devastação tem que ser ajudado por todos os países. Depois, deve-se entregar o destino do Haiti aos haitianos.

Publicado no site Terra Magazine (05/02/2010)

Confira também:


Entrevista na rádio Cruzeiro, programa Força do Povo

Deputado em entrevista ao vivo do Haiti (Rádio Tudo FM)

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