08/07/2002 Outras
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Literatura “Cristão das catacumbas”
DITADURA A partir da história
do padre Renzo Rossi, Emiliano José descortina a
dura realidade dos presos políticos no Brasil em
novo livro.
Iza
Calbo O s subterrâneos da
ditadura militar e o papel conciliador de um padre
italiano radicado em Salvador e que chegou a
visitar 14 presídios brasileiros em tempos de
cárcere e tortura são descritos no livro As Asas
Invisíveis do Padre Renzo Rossi. A obra, do
jornalista, escritor, professor universitário e
vereador Emiliano José (PT) será autografada
amanhã, a partir das 18 horas, no Mosteiro de São
Bento. Na última quarta-feira, de São Paulo, onde
autografou o livro, ele falou por telefone sobre a
obra, a amizade com o padre italiano – que esteve
em São Paulo e já se encontra em Salvador – e como
surgiu a idéia de escrever a respeito. A história
do religioso é contada justamente por um ex-preso
político, com prefácio de frei Betto, outro que
teve a liberdade cassada. Com mais este título,
Emiliano passa a figurar entre os jornalistas
brasileiros que mais escreveram sobre o período
ditatorial iniciado pelo golpe militar de 1964. As
obras anteriores são: Lamarca, O Capitão da
Guerrilha (em parceria com o jornalista Oldack
Miranda), Marighella, O Inimigo Número Um da
Ditadura Militar, Galeria F - Lembranças do Mar
Cinzento e Narciso no Fundos das Galés. Confira os
principais trechos da
entrevista. P – Fale um
pouco do padre Renzo. R – É uma figura
extraordinária. Diferente de Lamarca e Marighella,
que eram figuras de proa. Marighella era conhecido
no mundo da esquerda, assim como Lamarca. Renzo
era o cristão das catacumbas. Entre 1975 e 1981,
ele visitou 14 presídios brasileiros, começando
pela Bahia. Ele era o pároco da Capelinha de São
Caetano, em Salvador. Solidarizou-se, ajudou com
solidariedade, nunca quis converter ninguém,
ajudou financeiramente. Conheceu e viveu de perto
a dor das famílias, as torturas. Ele chegou ao
Brasil em 1965 e costuma dizer que é baiano
nascido em Florença, na Itália. P –
Quando você o conheceu? R – Estive preso entre
1970 e 74 e, logo que saí da prisão, eu fui
conhecendo o trabalho dele. Há quatro anos, fui
fazer uma palestra na Itália e ele me falou de um
diário que escrevia desde os 17 anos. São 539
cadernos, um armário de cadernos. E, aí, me surgiu
a idéia de fazer o livro. Peguei os cadernos que
tinham a história dos presídios e fiz a biografia
dele, que é padre desde 1949 e começou a
convivência com os operários italianos, capelão de
fábrica, deparando-se com grande hostilidade por
parte destes, a maioria comunistas. Mas ele foi
conquistando as lideranças de Florença e
desenvolveu uma amizade com elas. Numa igreja
anticomunista, ele começa a entender o comunismo.
Esta foi a primeira conversão dele, não no sentido
religioso. P – E a segunda? R – A
segunda foi em Salvador, quando prenderam Benjamim
Ferreira de Souza, até hoje dirigente sindical do
PT. Acompanhando a vida nos cárceres, ele percebeu
que os presos eram materialistas e ateus. No
entanto, aqueles rapazes e moças presos
acreditavam na humanidade. Esperança, segundo as
palavras do padre Renzo, é maior que a fé,
definida por ele como um dom de Deus. Este é um
livro de mais de 400 páginas. Trata da histórias
dele e das que ele viveu e vivenciou. Em 1978, ele
fez turnê para discutir com exilados, dirigentes
políticos etc. Tudo no sentido de fundir a luta
pela anistia, que ocorreu no ano seguinte, e quase
que ele não consegue voltar ao
Brasil. QUANDO: AMANHÃ, A
PARTIR DAS 18 HORAS ONDE: MOSTEIRO DE SÃO BENTO
(CENTRO) EDITORA: CASA AMARELA
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