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POPULARIDADE
''O governo do PT precisa correr risco''
Deputado estadual pelo
PT da Bahia, professor, jornalista e escritor, Emiliano
José da Silva, classifica o senador Antonio Carlos
Magalhães (PFL-BA) de ''ditadorzinho'', que cresceu
à sombra da ditadura militar
Plínio Bortolotti e Valdemar Menezes
da Redação
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Para
o deputado estadual Emiliano José, do PT baiano,
o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA),
é um ''serial fraudulent'',
um fraudador em série (Foto: Alcebíades Silva)
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[24
00h17min]
Professor da Faculdade de Comunicação da
Universidade Federal da Bahia (UFBA) Emiliano José
da Silva Filho é também deputado estadual do Partido
dos Trabalhadores baiano. Militante político desde
a juventude, integrou a Ação Popular, organização
guerrilheira que enfrentou a ditadura militar, instalada
em no Brasil em 1964. Preso em 1970, depois de viver
um período na clandestinidade, foi libertado quatro
anos depois.
Como jornalista, atuou na Tribuna da Bahia,
Jornal da Bahia, O Estado de
S. Paulo, O Globo, e nas revistas
Afinal e Visão. No período
da ditadura colaborou com os jornais alternativos
Opinião e Movimento -
e foi um dos fundadores do Em Tempo.
Atualmente, escreve artigos para a revista Caros
Amigos.
Autor de seis livros, entre os quais Lamarca,
o Capitão da Guerrilha (em parceria com
o jornalista Oldack Miranda, que terá sua 16ª edição
lançada brevemente) - no qual foi baseado o filme
Lamarca -, Emiliano também é um teórico
na área da comunicação, habilidade que demonstrou
no livro Imprensa e Poder: Ligações Perigosas.
Recentemente, quando esteve em Fortaleza para o
lançamento de seu mais recente livro As Asas
Invisíveis do Padre Renzo - no qual conta
a história do sacerdote italiano que confortava
os presos políticos no período da ditadura militar
brasileira -, Emiliano deu ao O POVO a
entrevista que se segue.
O POVO - O senador Antonio Carlos
Magalhães (PFL) envolveu-se em mais caso de repercussão
nacional, que foi a escuta clandestina de telefones
de centenas de pessoas na Bahia, supostamente a
mando dele. É verdade ou exagero quando se diz que
nada que acontece na Bahia sem que haja o dedo de
ACM?
Emiliano José - Exagero haveria na
subestimação dessa afirmação, porque tudo o que
se disser com relação à tentativa de controle da
vida baiana pelo (senador) Antonio Carlos, será
pouco. Eu fiz um longo discurso nesses dias na Assembléia
Legislativa (da Bahia), em que eu digo que o Antonio
Carlos é um personagem típico da América Latina,
dos pequenos ditadores latino-americanos. Ele tem
aspectos assemelhados muitos fortes com o personagem
Rafael Trujillo (que foi ditador da República Dominicana),
do livro A Festa do Bode, do (escritor
peruano) Mario Vargas Llosa. O livro traça um retrato
da República Dominicana, que é um retrato da Bahia:
aeroportos, estradas, ruas - tudo tem o nome de
Antonio Carlos. Ele é um ditadorzinho, um sujeito
que fez a sua vida política à sombra, apoiando e
participando da estruturação do golpe militar. O
prestígio político dele foi construído, basicamente,
no período da ditadura militar. É importante lembrar
isso: ele foi prefeito biônico em Salvador, em 1967,
nomeado pelos militares; depois foi governador nomeado,
de 1971 a 1975; e reassumiu o governo na mesma situação
entre 1979 e 1983. Só foi eleito uma única vez (a
cargo executivo), em 1990, com uma diferença para
a oposição de 0,3% dos votos. No caso do Brasil,
ele é parte dessas oligarquias regionais coronelísticas,
que estão no fim. Essa era, mesmo dos coronéis urbanos,
está no fim. Daqueles antigos coronéis rurais, Antonio
Carlos mantém a prepotência, a arrogância, a utilização
do aparato público para enriquecimento pessoal,
a distribuição das benesses da retirada de dinheiro
público para a sua parentela. O Antonio Carlos tem
diversos dutos que irrigam o patrimônio familiar
constantemente. Eu sou vítima de quatros processos
(judiciais) por parte do carlismo, por conta dessas
denúncias que eu tenho feito, sobretudo por conta
do 'duto publicitário', que sai do Estado e das
prefeituras ligados ao carlismo e vai para o bolso
da família Magalhães na Rede Globo de lá (da Bahia).
OP - Mas e quanto ao grampo?
Emiliano - O grampo é parte dessa
visão totalitária do Antonio Carlos. Ele não se
contenta em ter o governador do Estado, que é sempre
um títere dele, e ele então passa a ouvir as pessoas,
botar gente para ouvir adversários políticos, e
grampeia também a ex-amante - que num momento de
maior humanidade dela se apaixona por um rapaz -,
e o Antonio Carlos não admite isso. Passou a cometer
toda a sorte de violência contra o rapaz e a perseguir
o casal. Ele constituiu uma espécie de ''Big Brother''
baiano, a violentar a cidadania do povo da Bahia.
O Antonio Carlos é um serial fraudulent,
um fraudador em série. Ele fraudou a eleição de
senador em 1994 (na Bahia). O Waldir Pires (deputado
federal pelo PT-BA), obviamente foi eleito, mas
o Antonio Carlos colocou lá um cidadão desconhecido
como senador, o Waldeck Ornéllas, que na Bahia é
conhecido como ''Fraudeck Ornéllas''; fraudou depois
o painel do Senado e, agora, fraudou sentença de
juiz para fazer os grampos na Bahia.
OP - O senhor acha que a atuação do
PT tem sido correta neste caso?
Emiliano - O PT está fazendo exatamente
o procedimento que foi adotado no caso do painel
do Senado. É o partido que tem de fazer isso; o
governo não pode ficar dizendo ''casse fulano, casse
sicrano''. Não há nenhuma vacilação no PT quanto
à necessidade de cassar esse cidadão. Agora, é verdade
que está havendo um certo cuidado, é preciso ter
indícios absolutamente sólidos para garantir que
ele não fique impune. Nós não podemos chegar ao
Conselho (de Ética do Senado) fracos, e, de repente,
o Conselho avaliar que não há nada contra ele.
OP - Como o senhor avalia essa queda,
observada em pesquisa, na popularidade do governo?
Emiliano - Eu avalio como absolutamente
natural. Primeiro, quando você pega aquilo que os
institutos (de pesquisa) costumam chamar de margem
de erro, está quase dentro dessa margem. É difícil
manter os níveis altos de popularidade com o volume
de desafios que há pela frente, com a expectativa
que se cria com o governo Lula. O importante para
o governo é ter rumo, é saber o que quer, é definir
as sua prioridades. E isso definido, (é preciso)
correr o risco até de perder popularidade, se a
linha de atuação corresponder às necessidades mais
estruturais do país, e que tenha como objetivo melhorar
a vida do povo brasileiro.
OP - O Lula foi eleito para realizar
mudanças no modelo econômico. No entanto, está havendo
um certo receio pela forma como a área econômica
do governo está realizando o que seria o processo
de transição. O sr. acha que há um prazo para essa
mudança?
Emiliano - Eu não estou no comando
do governo. Sou deputado do governo, sou defensor
do governo, militante do PT, portanto defendo o
governo. Mas eu também observo as coisas e tenho
obrigação de analisá-las e discuti-las. Eu considero
que essas preocupações são justas. Eu também tenho
as mesmas expectativas e ansiedade para que se faça
a virada de rota. Eu faço parte do bloco hegemônico
do PT, ligado à corrente majoritária (Articulação,
a mesma tendência do presidente da República), mas
entendo que é absolutamente essencial compreendermos
que nós não podemos fundar a nossa rota em uma linha
de continuidade (do governo anterior). Mas entendendo
que é preciso muita sensibilidade e capacidade na
condução da economia neste momento, para que não
ocorresse o desastre anunciado. Então, era fundamental,
se ter a capacidade para, ao menos, compreender
o ''monstro'' e ir caminhando para enfrentá-lo.
Eu chamo de ''monstro'' o mercado.
OP - O sr. acha que esse é o melhor
caminho?
Emiliano - Eu acho. Porque, veja,
se nós enveredássemos pelo caminho da ruptura imediata.
Digamos, se tivéssemos baixado (a taxa básica) dos
juros para 15%, o que teria acontecido neste país?
Onde é que nós estaríamos com a situação marcoeconômica?
O que teria acontecido com o dólar? O que teria
acontecido com as bolsas? Se uma fuga incessante
de capitais ocorresse? Nós lidamos com um mundo
financeirizado, hoje, e esse é o nosso drama, dilema
e problema. Nós lidamos com o capitalismo da bolha
financeira e nós temos de conviver com isso e trabalhar
com essa realidade para fazer mudança de rota. Qual
é o momento de se fazer a mudança? Vai haver um
''momento x''? Vai se fazer a curva de maneira lenta?
Eu não sei.
OP - É realmente é certo se começar
pela reforma da Previdência e não pela tributária,
como querem alguns setores sociais, e mesmo dentro
do próprio PT? E essas reformas, são as mesmas que
eram discutidas no governo Fernando Henrique Cardoso?
Emiliano - Eu não creio que as reformas
propostas pelo governo Lula sejam simples continuidade
das que existiam sob o governo Fernando Henrique.
Tanto não o são que há uma atitude verdadeira do
governo de discutir de maneira ampla com a sociedade.
''Mas o governo não tem um proposta'', criticam
alguns. Mas é bom que não tenha uma proposta fechada,
porque tem que discuti-las. A reforma da Previdência
e a tributária vão caminhar simultaneamente. A da
Previdência mexe mais com a população e com as camadas
médias. A Previdência precisa de um sistema único,
mas não é possível agredir os direitos adquiridos,
e o próprio ministro da Previdência (Ricardo Berzoini)
já disse isso. Mesmo porque essa é uma questão legal,
que, se houvesse alteração, provavelmente o governo
perderia na Justiça.
OP - Recentemente o presidente Lula
reclamou das agências reguladores e o próprio PT
avalia que o governo perdeu instrumentos de gestão
com as privatizações. Mas ao mesmo tempo há um projeto
do governo de dar autonomia ao Banco Central. Isso
não revela uma contradição, já que o BC é um instrumento
importante de gestão?
Emiliano - Nós tivemos um conversa
em Salvador com Nelson Pellegrino (líder da bancada
do PT na Câmara) e ele nos disse que essa não é
uma questão tão simples, inclusive (de ser aprovada)
na bancada do PT. O Pellegrino disse que não se
trata de uma autonomia como está sendo divulgada,
mas ele mostrou ao comando do governo que não era
uma questão que a bancada do PT engoliria, assim
''mandou, está resolvido''. Por isso trancou um
pouco (a discussão). O debate que está sendo feito
são os termos (o grau de autonomia) com que se pretende
trabalhar.
OP - Algumas pessoas estão se perguntando
se vai acontecer com o Lula o que ocorreu com Fernando
de la Rua (ex-presidente da Argentina), que foi
eleito para mudar alguma coisa e terminou prisioneiro
de um sistema que não permitiu as mudanças que a
população queria.
Emiliano - Essa é uma ótima provocação
e deve existir permanentemente. Porque, ao sermos
provocados, temos de reagir. E temos a felicidade,
que não tinha a Argentina, de termos um partido
muito amplo. O grande partido é o PT, que tem nervos,
tem base, tem reações, todo mundo no partido tem
de se explicar - e isso é positivo. O José Dirceu
(ministro-chefe da Casa Civil), vai lá (nas reuniões
do partido) e toma porrada, as críticas são duras.
Então, a diferença com a Argentina é que lá não
havia partido, aqui há partido, muito vivo, muito
''chato'' até, muito dinâmico, que pressionaria
caso essa hipótese existisse. Eu acho que a sociedade
brasileira tem uma dinâmica que não permitirá, e
temos um partido que não permitirá isso, se essa
hipótese existisse. Além do que eu acho que o Lula
- a política também tem o lado do indivíduo - tem
um compromisso visceral com o povo brasileiro.
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