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Boletim
nº 91 - Maio/2005 – (71) 3115 7139/3115
7073 Fax 3115 4093
Clodomir de Morais lança em Salvador seu Dicionário de Reforma Agrária e faz palestra na Faculdade de Filosofia da UFBA Dia 25, 15h, Sala 8, Faculdade de Filosofia
Clodomir Santos de Morais, legendário organizador das Ligas Camponesas nas décadas de 50 e 60, advogado, doutor em Sociologia da Organização pela Universidade de Rostock, Alemanha, estará em Salvador no próximo dia 25 de maio (quarta-feira). Às 15h, faz palestra na Sala 8 da Faculdade de Filosofia da UFBA, em São Lázaro, a convite da Associação dos Professores Universitários da Bahia (APUB). E também apresenta um de seus dez livros: "Dicionário de Reforma Agrária América Latina", cujo prefácio é assinado por outro intelectual de peso, Josué de Castro.
Clodomir de Morais é um baiano que correu mundo. Nasceu em Santa Maria da Vitória, estudou em São Paulo, formou-se em Direito no Recife e foi deputado estadual por Pernambuco. Com o golpe militar, teve seus direitos cassados por 10 anos e amargou, além de dois anos de cadeia, um exílio de 15 anos. Na cadeia, entre 1964 e 1965, escreveu lindos contos, entre eles "O Ladrão da Calça de Casimira", "Mestre Ambrósio", "Pedro Bunda" e "Causos de Sentinela", editados pela Casa da Cultura Antônio Lisboa de Morais, de Santa Maria da Vitória (Ba).
EXILADO, FEZ CARREIRA NA ONU
Como muitos outros refugiados da ditadura militar brasileira, fez carreira global. Foi Conselheiro Regional da ONU para a América Latina em Assuntos da Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural; depois conselheiro para as agências OIT, PNUD e FAO das Nações Unidas. Dirigiu projetos de Capacitação em Organização em Honduras, México, Nicarágua e Portugal. Foi professor residente na Universidade de Rostock (Alemanha) e Universidade de Brasília, onde fundou o Instituto de Apoio Técnico aos Países do Terceiro Mundo- IATTERMUND, uma instituição que tem como objetivo gerar emprego e renda. Percorreu como professor conferencista universidades em Berlim (Alemanha), Wisconsin (EUA) e México.
"Dicionário de Reforma Agrária" foi editado pela Editora da Universidade Federal de Rondônia e, naturalmente, se dirige para profissionais e beneficiários de mudanças no campo. Não se trata de um simples exercício de sinonímia, mas do resultado de uma exaustiva investigação de definições conceituais. Originalmente, foi um projeto para o Instituto de Capacitação e Pesquisa em Reforma Agrária, do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas - FAO/Governo do Chile. Trata-se de um profundo estudo cultural da reforma agrária na América Latina.
LINGUAGEM DA REFORMA AGRÁRIA
Descrever um dicionário é tarefa ingrata. Um jeito simples de conhecer é abrir o livro aleatoriamente. Página 286, por exemplo. Lá está a palavra greve, que no Brasil significa uma forma de luta dos trabalhadores. Mas, na Hispano-América, além de huelga, a paralisação do trabalho, tem ainda huelga de brazos caídos, que é a paralisação de corpo presente na empresa; huelga de paso de tortuga, o trabalho em ritmo lento; huelga econômica, para obter ganhos salariais; huelga general, que abrange todas as categorias; huelga ilegal, à margem da legislação trabalhista; huelga política, para alcançar resultados políticos; huelga total, que abrange os setores primário, secundário e terciário da produção; e, claro, tem o verbo huelguear, tomar parte da paralisação.
Abra novamente ao léu. Na página 235, por exemplo. Você fica sabendo que abajeño é gente que vem do litoral em muitos países da América Latina; que abasto (México) é o lugar onde se abatem os animais; acobal (Brasil) é plantio de bananas; que agüita (Peru) é dinheiro; que água Dios (São Domingos) é a chuva ao amanhecer; que albarda (Cuba, Costa Rica, Guatemala e Honduras) é sela de montaria; que alégron é colheita de cacau no México; que amarco é preguiçoso; e que angu é massa de banana verde na Costa Rica e Panamá. Mas não se engane. O "Dicionário de Reforma Agrária" traz seções inteiras de termos técnicos, jurídicos, agrícolas, florestais e regionais. Uma bela colheita ou, segundo o Dicionário, uma boa apanhadura.
CONTOS DO BRASIL PROFUNDO
O universo dos contos de Clodomir de Morais poderia ser chamado de surreal se a gente não soubesse da realidade da Bacia do Rio Corrente do Oeste Baiano. Particulares mundos de personagens muito comuns. Tem a história de Pedro Bunda, de Zeca Apocalipse, do delegado Rolandão Flores, da finada Sabina Parto-Bom, do velho João-Cego-do-Outro-Lado-Vizim-de-Agnelo. Mas ninguém supera Seo João Muito-Embora. Um dia, João Salustiano foi à Lapa pagar promessa e voltou falando difícil, à moda dos viajantes que vêm da Bahia e de Belo Horizonte. Seu João, tem chovido lá por suas bandas? Tem nada, meu filho, este ano não caiu um pingüim de chuva, muito embora o riacho quase estourou lá em riba. Seo João, Dona Inocência já pariu? Pariu nada, muito embora o velho aqui já esteja com a casa cheia de netos. Mode essa civilidade de falar difícil ficou com o Muito-Embora até hoje. Muitos de seus contos são dedicados ao "ilustre amigo e companheiro de cadeia, professor Paulo Freire, por ter ele aberto os olhos dos analfabetos e esbugalhado os olhos dos ignorantes que já sabiam ler e escrever".
UMA REVOLUÇÃO NO CAMPO
Será também uma ótima oportunidade para se debater os rumos do Programa Nacional de Geração de Emprego e Renda (PRONAGER), resultado do acordo de cooperação técnica firmado entre o Governo Lula e a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO/ONU), com apoio técnico do IATTERMUND - Instituto de Apoio Técnico aos Países do Terceiro Mundo. O programa equivale a uma silenciosa revolução no campo e a mídia quase desconhece.
O eixo central de atuação do PRONAGER é o Método de Capacitação Massiva do professor Clodomir Santos de Morais, que parte das condições reais e das potencialidades dos indivíduos, grupos e da comunidade, para buscar a sua inserção social, principalmente via capacitação organizacional, com geração de ocupações produtivas e rentáveis. A metodologia está estruturada para alcançar populações com baixos níveis de escolaridade, sem qualificação profissional, sendo capaz de, em curto prazo e a baixo custo, trabalhar com um grande número de pessoas. Tem como público-alvo os desempregados, subempregados, pequenos produtores, trabalhadores informais de baixa renda, de pouca qualificação profissional, grupos vulneráveis. Um instrumento para o MST.
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