Igrejas, MST e movimento popular
celebram
Carlos Lamarca como mártir e herói
nacional
Dom Frei Luíz Flávio Capio, bispo
da Diocese de Barra, inicia no sertão um movimento para resgatar a memória
de Lamarca, Zequinha, Otoniel, Santa Bárbara, Manoel Dias e Jota, como mártires
da igreja e da luta de libertação do povo brasileiro. O
vereador Emiliano José (PT) participou do culto ecumênico
celebrado na caatinga.
Para resgatar a memória e passar a limpo a
história de terror vivida pelo povo da região de Brotas de Macaúbas,
onde há 30 anos Lamarca e seus companheiros foram executados pelos
militares, no auge da ditadura, a Diocese de Barra organizou um ato ecumênico
chamado "Vidas pelas Vida", convidou
pastores evangélicos, o MST e ongs dedicadas à organização do povo. A
celebração ecumênica aconteceu dia 29 de setembro (sábado), num altar
montado na carroceria de um caminhão, estacionado no meio da praça
do pequeno povoado de Pintada, município de Ipupiara.
"A causa é que faz o mártir"
(Santo Agostinho)
O texto do informativo "Vidas pela
Vida", distribuído pela Diocese de Barra, aos presentes citou Santo
Agostinho: "A causa é que faz o mártir" para explicar que
"quem foi morto defendendo a causa da justiça, da democracia e da
reforma agrária é um mártir, mesmo que sua militância não seja dentro
da igreja ou religião. Queremos celebrar a vida e a morte de nossos mártires,
como um reconhecimento de seu exemplo e como compromisso com a causa pela
qual derramaram o sangue".
Mártires da Igreja
Bem cedo pela manhã, dom Frei Luíz Flávio,
bispo da Diocese de Barra, o pastor Djalma Torres, da Igreja Batista
Nazareth, de Salvador, e o pastor João Dias Araújo, da Igreja
Presbiteriana Unida, de Feira de Santana, iniciaram o culto com o
anunciado propósito de "resgatar a memória dos mártires da
Diocese". Coube à Irmã Marina a leitura da Bíblia Sagrada:
"ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos que
ama" (João, 15). Seguida do cântico que dizia "prova de amor
maior não há".
Quem são os mártires?
Os mártires celebrados são o capitão Carlos
Lamarca, apresentado como um herói nacional, como Zumbi dos
Palmares e Tiradentes; José Campos Barreto (Zequinha), que
morreu em Pintada junto com Lamarca; seu irmão Otoniel
Campos Barreto, que morreu fuzilado pelas costas; Luíz
Antônio Santa Bárbara, que se suicidou para não cair nas mãos
dos militares. E ainda dois militantes da luta pela terra na Bahia: Manoel
Dias, assassinado em 1982 pelo grileiro Leão Diniz e 30
pistoleiros, em Boa Vista do Procópio, e Josael de Lima (Jota), assassinado
em 1986, com um tiro no peito, a mando do grileiro Leão Diniz.
Ofertório de forte simbolismo
Na celebração, homens e mulheres
ofertaram um punhado da terra colhida no local onde Lamarca, com as
forças exauridas e imobilizado, foi metralhado a sangue frio. Uns
ofertaram beiju, frutas, hortaliças, militantes do MST ofertaram a
bandeira vermelha dos sem-terra, a bandeira do Brasil, a Constituição
Brasileira e flores. Emiliano José ofertou um exemplar do livro
"Lamarca, O Capitão da Guerrilha".
Familiares e testemunhas presentes
Foram momentos de forte emoção. D.Zefa,
viúva de Jota, leu uma carta enviada na época em solidariedade à família,
por Emiliano José. João Pedro Stédile, dirigente
nacional do MST, leu uma mensagem do ator Paulo Betti, que representou o
capitão no filme "Lamarca", de Sérgio Rezende. Irmã
Marina leu um poema enviado por dom Pedro Casaldáliga. Osvaldo
Dias falou sobre o irmão assassinado, César Benjamin leu uma
mensagem enviada do Rio de Janeiro pela viúva de Lamarca, Maria Pavan, e
seus filhos César e Cláudia. Olderico Campos Barreto,
irmão de Zequinha, sobrevivente do tiroteio e das torturas, falou
das mutilações sofridas pelos irmãos mortos, de como seu velho pai foi
dependurado de cabeça para baixo. Olderico lembrou Iara Iavelberg,
companheira de amor e luta de Lamarca, morta em Salvador, pouco antes
do sangrento desfecho no sertão. Lá estavam D. Maria Santa Bárbara
e Luíz, mãe e irmão de Luíz Antônio Santa Bárbara. Lá
estava César Benjamin, ex-companheiro de luta de Lamarca
e hoje dirigente da ONG Consulta Popular.
A palavra das igrejas
Palavras do bispo dom Frei Luíz:
"Irmãos e irmãs, neste momento a
Diocese de Barra abre solenemente a celebração "Vidas pela
Vida". Quando idealizamos esta celebração tínhamos em mente três
grandes motivos.
Em primeiro lugar, pedir perdão a Deus
pela grande injustiça que cometemos tirando a vida de homens que lutavam
pela justiça. O sangue de nossos heróis deve ser lavado, nosso primeiro
grande motivo é penitencial.
O segundo grande motivo é de ação de graças.
Queremos agradecer a Deus por nos ter dado a graça de conhecermos pessoas
tão grandes, tão importantes, que nos deram um exemplo maravilhoso de
terem tido a coragem de derramar seu sangue, doarem suas vidas, para a
construção de um mundo mais humano, mais justo, mais fraterno, mais
solidário.
O terceiro motivo que nos une é aprender
com eles uma grande lição de vida. Os mártires são pedras vivas da
construção da Igreja, da construção do mundo, são eles as pedras
angulares do novo tempo. E somente no resgate do passado, no passar a
limpo o passado, teremos condições de construir o futuro com mais consciência
e espírito cidadão.
Palavras do pastor Djalma Torres
"A mim coube comentar a leitura da Bíblia,
mas antes quero agradecer a honra e privilégio de estar presente a esta
celebração, parabenizar a Diocese de Barra, na pessoa de seu bispo dom
Frei Luíz, pela coragem e pelo desafio que nos apresenta, a todos nós,
católicos e protestantes, para que nos juntemos em ato de clamor, numa
convocação a todo o povo de Deus, para que neste país se estabeleça o
império da justiça".
Palavras do pastor João Dias
"Estamos alegres, porque nos reunimos
para celebrar hoje a vitória de Nosso Senhor Jesus Cristo, expressa na
vida dos mártires desta terra, aqueles que morreram, que tombaram na luta
em favor de dias melhores para o povo. O sangue dos mártires é a
sementeira da História. Estes nossos irmãos que tombaram nesta terra
seguiram o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo, que deu sua vida em
favor de todos nós. Vamos todos seguir os exemplos de Jesus e dos mártires
para prosseguirmos na luta pela libertação de todo o povo".
"Lamarca não morreu, Lamarca
vive"
Terminada a celebração, em romaria, a
multidão seguiu um camponês que, em penitência, carregou nos ombros a
pedra em que Lamarca repousou a cabeça antes da morte. Com orações, cânticos,
palmas e velas acesas, todos caminharam até o pé da ressequida baraúna,
em cuja sombra Lamarca e Zequinha descansaram seus últimos momentos,
depois seguiram em direção a uma enorme cruz, erguida no meio da
caatinga, poucos metros adiante, no exato local onde Zequinha caiu varado
de balas. E os militantes do MST repetiam: "Lamarca não morreu,
Lamarca vive".
As palavras de Emiliano José
(À
sombra da baraúna no lugar onde Lamarca tombou)
Esta celebração “Vidas pela
Vida” teve para mim, pessoalmente, uma importância muito grande.
Há quase 30 anos eu acompanho a história de Lamarca. Na época da
ditadura militar, eu e Olderico Campos Barreto, estivemos presos juntos na
Penitenciária Lemos de Brito, em Salvador.
Na prisão, eu ouvia fascinado os relatos de Olderico sobre a luta
que se travou nesta região. Ao
sair da prisão, continuei pesquisando e, em parceria com o jornalista
Oldack Miranda, lancei há 21 anos o livro “Lamarca, O Capitão da
Guerrilha”, que já inspirou os filmes “Portas de Fogo”, do cineasta
Edgard Navarro, e “Lamarca”, de Sérgio Rezende.
É com muita emoção
que vejo o resgate da pessoa de Lamarca, Zequinha e seus companheiros.
Lamarca aqui era nome maldito, fruto do trabalho de terror das
forças militares e das elites locais. Aqui houve tempo que só se falava
de Lamarca com medo, as pessoas tremiam. Agora é diferente, graças à
coragem de dom Frei Luíz, ao denodo de Adriano Martins, do Centro de
Assessoria de Assuruã, às presenças dos pastores Djalma Torres e João
Dias. Graças também ao trabalho dos agentes pastorais, dos religiosos,
dos líderes comunitários locais, não vamos nos lembrar dos assassinos,
dos terroristas militares, dos que aqui plantaram sementes de ódio e
medo, mas vamos nos lembrar, sim, dos mártires, dos que plantaram
sementes de esperança. É bom lembrar que tudo aquilo que Lamarca dizia
da região continua existindo. A fome, a dureza da seca, a migração, a
inexistência da reforma agrária, a terra que não é repartida, então,
quando lembrarmos de nossos mártires, devemos dizer que a luta
continua".
20 DE NOVEMBRO
DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA
NEGRA
DIA DE ZUMBI DOS PALMARES
Dias 19/20/21 Seminário
Nacional "Negritude e Cidadania"
Dia 20 Caminhada da
Liberdade "Reparação Já" - Do Curuzu ao Pelourinho
Sessão Solene na
Câmara Municipal de Salvador para celebrar o Dia 20 de Novembro, com
presença da relatora da III Conferência Mundial Contra o Racismo, socióloga
Edna Roland, coordenadora da ONG Fala Preta.
DIA 25 DE NOVEMBRO
SESSÃO ESPECIAL NA CÂMARA
MUNICIPAL DE SALVADOR
Proposta pelo vereador Emiliano
José (PT)
PARA COMEMORAR O DIA DO
FUNCIONALISMO PÚBLICO
Dia de luta, dia
de protesto, dia de reivindicação. Agende-se
Dia 18 de outubro - Livraria
Sabor dos Prazeres -
Rua das Laranjeiras, 5 - Pelourinho
Lançamento do livro "Em cantar a mulher" - Editora
Uneb
Poesias pelo fim da violência contra a mulher, escritas a
quatro mãos pelos poetas Geraldo Maia e Márcia Santos. Apresentação
de Ivete Alves do Sacramento, Reitora da Uneb.
Produção Grupo Tocapoesia.
DICA -
Todas as segundas-feiras, das 20h às 22h, na Praça Mário Lago, do
Centro Cultural do Sindicato dos Comerciários, os poetas Geraldo Maia, Márcia
Santos e Paulo Pilha apresentam o espetáculo
"Concerto Para Voz e Poema".