Emiliano José*
O
golpe estava praticamente consolidado. O presidente
dos EUA, Lyndon Johnson, reconheceu o novo governo brasileiro
poucas horas depois de consumado o golpe militar, ainda
na madrugada de 2 de abril. O presidente João
Goulart tomou conhecimento da posição
dos EUA em Porto Alegre, onde já se encontrava,
na expectativa da organização da resistência,
juntamente com o general Ladário Teles, comandante
do III Exército, e de Leonel Brizola. As coisas
não andavam bem no Rio Grande do Sul, como se
imaginara.Goulart não pôde ser levado do
aeroporto para o Quartel-General do III Exército
porque eram escassas as forças militares que
permaneciam fiéis a ele.
O
general Ladário levou o presidente para a residência
dele. Foi nesse instante que Goulart compreendeu a gravidade
militar da situação local e da fragilidade
das forças que o apoiavam. Todo esse relato Waldir
terá já no exílio, feito pelo próprio
Goulart. O presidente deposto pelo golpe militar, na
casa do general, conversou demoradamente com Brizola
e alguns outros companheiros. Brizola defendia a resistência,
a qualquer custo, a partir da capital gaúcha.
Goulart olhava o entorno, avaliava todas as informações,
pesava os prós e os contras, media as forças
militares, as condições de organização
da sociedade civil, e percebia a gravidade do quadro.
Deveria conduzir o país a uma guerra entre irmãos?
Resolveu seguir para o Uruguai.
Waldir
e Darcy concluem que não havia mais razão
ou possibilidade de seguirem para Porto Alegre para
juntar-se à resistência, instalar o governo
constitucional da legalidade. Não havia mais
chance. A direita vencera momentaneamente – e
duraria 21 anos no poder, com toda sua violência
e terror. Tratava-se agora de tomar o rumo do Uruguai.
Começaram a pensar. Teriam que voar até
Salto, cidade situada no norte do Uruguai e, de lá,
seguir até Montevidéu, onde encontrariam
Goulart. Um novo destino, o do exílio. O avião
Cessna retornou no dia 5 de abril pela manhã,
como combinado. E voltaram a conversar com o piloto
sobre o plano B.
Almir
era o nome dele, foi sincero, avaliando o que lhes propunham.
Já havia pilotado avião com gasolina de
caminhão. Era um combustível mais fraco,
mas em outras empreitadas obtivera sucesso. Precavido,
completou o tanque e ainda trouxe a bordo mais duas
latas de 20 litros, cheias, que deveriam ser levadas
no colo por Waldir Pires e Darcy Ribeiro. Os dois ouviram
o piloto atentamente. Era voar ou voar. Não havia
alternativa. Ficar era ser preso pela ditadura. Partiram.
Quando estavam sobrevoando o Paraguai, o piloto começou
a olhar para o chão, a gasolina acabando, e os
dois perceberam que ele pretendia usar o combustível
que carregavam.
Almir
descobriu um campo precário de pouso, provavelmente
usado por contrabandistas, e desceu. Com os 40 litros
de combustível, era levantar vôo, e seguir
viagem.
Não
sem antes passar por um belo susto. A pista não
somava mais de 300 metros e era cercada de árvores.
A decolagem não era fácil, quanto mais
com um combustível fraco. Waldir e Darcy não
dominavam isso. Apenas ficaram intrigados com o tempo
que o piloto gastou, na improvisada cabeceira da pista,
acelerando. Sentiam a tensão dele. Até
que o avião arrancou, na máxima velocidade
que a gasolina permitia.
Os
dois, Waldir e Darcy, agora tensos e já conscientes
do risco que corriam. E mais ainda, quando, no final
da pista, as árvores foram se aproximando, e
o avião recusando-se a levantar vôo. São
frações de segundo, que valem uma existência.
Viram o piloto levantar-se levemente da cadeira como
se quisesse ajudar o Cessna a ultrapassar o obstáculo.
Quando subiu, quase raspando a copa das árvores,
Waldir e Darcy respiraram aliviados. Estavam nas mãos
de um grande piloto. “Naquele dia, por um triz,
não ficamos enterrados permanentemente no Paraguai”,
dirá Darcy Ribeiro num belo depoimento sobre
Waldir, dado em 1982.
O
dia de aventuras não terminara. Pouco depois
das 15 horas, já em território uruguaio,
diante de uma forte tempestade, o piloto começa
a procurar local para pousar. Qualquer coisa –
um pasto, uma clareira, um pequeno aeroporto. Divisou
um pasto cheio de ovelhas e começou a operação
para aterrissar. Fez dois ou três vôos rasantes
para afastar as ovelhas, e aterrissou. Outra vez, Waldir
e Darcy deviam a vida ao piloto, à maestria daquele
companheiro de viagem.
Os
três, exaustos e alegres, vivos, felizes pela
ventura de estarem em terra depois de um dia de aventuras,
desceram do avião e passaram a caminhar pela
primeira e estreita estrada de terra que encontraram.
De repente, apareceram algumas pessoas caminhando na
direção deles, todas elas apreensivas
com o avião que haviam visto e que desaparecera.
Waldir e Darcy quiseram saber onde estavam. Foram informados
que se encontravam no norte do Uruguai, muito próximos
de uma estação balneária chamada
Arapey, não muito distante de Salto...
Jornalista,
escritor, autor de Lamarca, o Capitão da Guerrilha;
Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura
militar; As asas invisíveis do padre Renzo; Galeria
F – Lembranças do Mar Cinzento, parte I
e II
28/09/2005