Emiliano José*
Waldir e Darcy quiseram saber onde estavam. Foram informados
que se encontravam no norte do Uruguai, próximos
de uma estação balneária chamada
Arapey, não muito distante de Salto, que era
o destino original deles. Em Arapey trataram de encontrar
um hotel. Waldir quando se refere a ele hoje o define
como pequeno, modesto e simpático. Logo que souberam
de quem se tratava, os funcionários do hotel
os trataram com impressionante atenção.
A piscina de água quente era
uma tentação. E a direção
do hotel conseguiu calções para os dois.
Começavam a relaxar da tensão que o dia
cheio de aventuras provocara, quando foram surpreendidos
por um sargento da polícia uruguaia. Ainda dentro
da piscina, Waldir e Darcy viram o sargento bater continência
e em tom solene afirmar:
- Quero informar aos senhores que sou,
aqui, o representante do governo uruguaio. Como soube
que os senhores queriam falar com o meu governo, aqui
estou.
Waldir, acompanhando o tom entre solene
e marcial do sargento, saiu incontinenti da piscina
e, de pé, disse-lhe então que solicitava,
por intermédio dele, o asilo político
ao governo uruguaio nos termos do Tratado de Havana,
que regulava à época o estatuto do asilo
político na América Latina. O sargento,
muito orgulhoso de sua missão, disse que iria
transmitir a informação aos seus superiores.
No depoimento que deu sobre Waldir em
1982, lembrando das aventuras do dia, Darcy Ribeiro
lembra-se, em tom emocionado da atitude do sargento.
“Como não recordar, por toda a vida, a
generosidade da então democracia uruguaia, encarnada
ali por um simples sargento que se transfigurou completamente,
cheio de orgulho de nos acolher quando nos identificamos
como perseguidos políticos em busca de asilo?”.
Os dois iriam iniciar uma nova e dura
etapa da vida – a do exílio. Tratava-se
agora de, em terra estrangeira, buscar os caminhos da
sobrevivência. E para Waldir, especialmente e
de modo imediato, tratava-se de reagrupar a família.
Não havia nem como pensar em retorno, com a afirmação
da ditadura. “Começa aí a dura existência
de Waldir no exílio, junto com tantos companheiros
por tantos anos. Alguns, inclusive Jango e Djalma Maranhão,
lá ficaram para sempre” explicará
Darcy no depoimento sobre Waldir.
O golpe militar certamente havia mapeado
seus principais adversários. Waldir e Darcy estavam
na primeira lista de cassação dos direitos
políticos, publicada no Diário Oficial
da União do dia 10 de abril. Era o ato número
1 da ditadura, que começava pretendendo-se solene:
“O Comando Supremo da Revolução
resolve, nos termos do art. 10 do Ato Institucional
de 9 de abril de 1964, suspender, pelo prazo de dez
anos os direitos políticos dos seguintes cidadãos...”.
E seguia-se uma lista de 100 cidadãos brasileiros.
Darcy Ribeiro era o quinto da lista.
Waldir o sétimo. Era encabeçada por Luiz
Carlos Prestes. O segundo era João Goulart. O
quarto era Miguel Arraes. Entre os 100, nomes conhecidos:
Raul Riff, Clodomir Morais, Hércules Correia,
Samuel Wainer, Lincoln Oest, Osni Duarte Pereira, Celso
Furtado, Djalma Maranhão, Roberto Morena, Almino
Afonso, Francisco Julião, Fernando Santana, Mário
Lima, Max da Costa Santos, Plínio de Arruda Sampaio
e Rubens Paiva entre tantas outras personalidades.
No Diário Oficial do mesmo dia,
o Ato de número 2 da ditadura, cassava 40 parlamentares,
vários deles também constantes da lista
de suspensão de direitos políticos. Alguns
nomes são conhecidos, entre os quais Neiva Moreira,
Almino Afonso, Arthur lima Cavalcanti, Francisco Julião,
Fernando Santana, João Dória, Mário
Lima, Bocayuva Cunha, Max da Costa Santos, Leonel Brizola,
Plínio de Arruda Sampaio e Paulo de Tarso Santos.
A ditadura iniciava a sua jornada de repressão
de 21 anos.
Waldir e Darcy viveram intensamente
os últimos momentos do governo Goulart. O golpe
já estava em andamento quando Goulart chegou
a Brasília, vindo do Rio de Janeiro, no dia 1º
de abril, no começo da tarde, segundo o relato
de Waldir. Reúne-se na Granja do Torto, entre
outros, com Tancredo Neves, Doutel de Andrade, com o
general Nicolau Fico, comandante militar de Brasília
e com o general Assis Brasil, chefe da Casa Militar.
Goulart já percebera que em Brasília não
havia condições para resistir e resolve
escrever um comunicado à Nação
denunciando as iniciativas golpistas e informando que
seguiria para o Rio Grande do Sul para se unir às
forças do III Exército, sob o comando
do general Ladário Teles, para resistir e manter
a legalidade.
Waldir encontrou-se com Darcy Ribeiro
na Granja do Torto e foi informado por ele que o presidente
João Goulart acabara de sair para o aeroporto.
Os dois resolveram ir para uma emissora de televisão
para falar à Nação, onde conclamaram
o povo a defender a legalidade. Waldir, no seu pronunciamento,
disse que naquele episódio não haveria
nem suicídio (como ocorrera com Getúlio
Vargas em 1954) e nem renúncia (como acontecera
com Jânio Quadros em 1961). Haveria resistência.
Da televisão, seguiram para o aeroporto na esperança...
Jornalista, escritor, autor de Lamarca,
o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o
inimigo número um da ditadura militar; As asas
invisíveis do padre Renzo; Galeria F –
Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II.
19/10/2005