Com o golpe em marcha, consciente disso, o governo,
ainda mantendo Brasília sob controle, havia ocupado
as emissoras de rádio, as televisões,
os correios, toda a área de comunicações.
Waldir e Darcy Ribeiro resolvem, então, ir a
uma emissora de televisão falar à Nação,
como dizíamos no capítulo anterior. No
pronunciamento, conclamaram o povo a defender a legalidade
e denunciaram a ação dos golpistas. Waldir,
no seu pronunciamento, disse que naquele episódio
não haveria repetições da história.
Não aconteceria suicídio (como ocorrera
com Getúlio Vargas em 1954). Não haveria
renúncia (como acontecera com Jânio Quadros
em 1961). Haveria resistência.
Da televisão, seguiram para o aeroporto na
esperança de ainda despedirem-se do presidente.
Lá encontraram, entre outros, Tancredo Neves,
um liberal profundamente comprometido com a democracia,
ao contrário do que às vezes análises
apressadas podem fazer supor. Estivera com Getúlio
Vargas até os últimos instantes da vida
dele, em 1954, pronto para a resistência e contra
o golpismo de então. Trabalhou politicamente,
e com sucesso, para garantir a posse de João
Goulart em 1961. Protestou no Congresso contra o golpe
de 1964, no dia mesmo em que se declarava vago o cargo
do presidente. Não votou no general Castello
Branco, para não dar legitimidade ao ditador
que pretendia o simulacro da legitimidade do Congresso
Nacional. Estava ali, agora, vendo o presidente partir
para, em princípio, organizar a resistência
no Rio Grande do Sul. Tinha lado, sempre: o da democracia.
Além dele, no aeroporto, estavam, entre alguns
poucos amigos fiéis, o deputado Almino Afonso
e os comandantes militares oficialmente ainda afinados
com o presidente da República. Quando chegaram
ao aeroporto, Waldir e Darcy encontram o presidente
já a bordo de um avião a jato –
o Coronado, da Varig. Explique-se a razão de
ser um jato da Varig. A presidência da República
não possuía nenhum avião a jato
e circulara a notícia de que o Comando da Aeronáutica,
já sob orientação golpista, havia
dado ordens para interceptar o avião presidencial.
Impunha-se, assim, que Goulart viajasse num avião
que voasse mais alto que os caças da FAB, nenhum
deles a jato.
O presidente João Goulart ficou quase uma hora
aguardando dentro do avião, sem que ele conseguisse
decolar. Waldir e Darcy, como os demais, estranhavam
tanta demora. Ao final, a conclusão: fora sabotado.
Observaram, Waldir e Darcy, a palidez do general Nicolau
Fico, comandante militar de Brasília. Sentiram
que podiam estar diante de um traidor, e não
se equivocaram. A conspiração já
alcançara Brasília. Goulart teve de partir
em outro avião, de dois motores, da presidência
da República, arriscando-se a ser abatido ou
interceptado por caças da FAB.
Com o presidente, seguiram, entre outros, os ministros
Wilson Fadul, da Saúde, Amaury Silva, do Trabalho
e o chefe da Casa Militar, general Assis Brasil. No
Rio Grande do Sul, como já se disse, o presidente
encontrou Leonel Brizola e o comandante do III Exército,
general Ladário Teles. Lá pretendia, e
já o dissemos, organizar a resistência,
o que não foi possível. Logo que o presidente
decolou, Waldir e Darcy voltaram ao Palácio do
Planalto. Estavam conscientes dos riscos, e dispostos
a corrê-los. Eram os últimos resistentes
do governo Goulart no Planalto.
Um era Chefe da Casa Civil, homem da mais absoluta
confiança do presidente da República –
Darcy Ribeiro. Outro, Waldir, Consultor Geral da República,
e que se tornou também íntimo de Goulart.
Como testemunhou Darcy Ribeiro, em seu depoimento sobre
Waldir, já citado, os dois passaram, desde então,
a trabalhar “irmanados, mão a mão,
no esforço mais profundo e lúcido que
jamais se fez em nosso país, para ampliar as
bases da vida social”. Darcy, nesse depoimento,
fala das façanhas, grandes façanhas de
Waldir nesse governo.
Foram da lavra de Waldir os decretos de nacionalização
das minas de ferro; de monopólio da importação
de petróleo; de encampação das
refinarias; de defesa da soberania nacional contra interferências
norte-americanas. “E, sobretudo, os dois grandes
projetos maiores do governo Jango: a Reforma Agrária
de democratização do acesso à propriedade
e ao uso da terra; e a implantação da
Lei de Remessa de Lucros que disciplinaria as multinacionais,
proibindo que investimentos em cruzeiros gerassem dólares
exportados”. Não por acaso, a revogação
desses decretos, como lembra Darcy, foi a principal
exigência norte-americana aos golpistas de 1964.
Na leitura de Darcy, os norte-americanos se dispuseram
a trabalhar para desestabilizar o governo de João
Goulart (Darcy o chama sempre de Jango, como ele era
conhecido pelo povo) especialmente por conta dos dois
últimos decretos, e especialmente pelo que disciplinava
a remessa de lucros. Goulart não aceitara as
pressões norte-americanas para que este não
fosse implementado e foi isso que...
Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão
da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número
um da ditadura militar; As asas invisíveis do
padre Renzo; Galeria F – Lembranças do
Mar Cinzento, parte I e II.