Na carta em que se despede do Ministério
do Trabalho, enviada a Vargas, em 1953, Goulart, conforme
Moniz Bandeira, afirma ter convicção de
que agira com dignidade “preferindo ficar ao lado
dos trabalhadores a pactuar com os inúmeros advogados
de interesses espúrios que muitas vezes bateram
às portas do meu gabinete, pretendendo especular
com o sofrimento e a desgraça do povo. (...)
Continuo ao lado dos trabalhadores. Apenas mudo de trincheira”.
A vingança Goulart, se a palavra
for própria aqui, veio com sua eleição
para vice-presidente da República em 1955, quando
teve 3.591.409 votos, meio milhão a mais que
Juscelino Kubitschek, seu parceiro de chapa. À
época, os votos para presidente e vice eram separados.
Sua trajetória continuava ascendente.
Como vice-presidente de Kubitschek,
manteve sua coerência. Cobrava as reformas de
base, entre as quais a reforma agrária e a redistribuição
das rendas públicas para os Estados mais pobres.
Defendia já então “uma reforma de
base total da propriedade”, criando-se, com isso,
condições para que ocorresse uma verdadeira
distribuição da riqueza “para que
os ricos sejam menos ricos e os pobres menos miseráveis”.
Moniz Bandeira defende que Goulart,
vice de Kubitschek, aproximou-se, assim, de fato, de
uma concepção social-democrata, “ou
seja, socialista das chamadas reformas de base”.
Mais próprio afirmar, penso, que ele desenvolvera
uma visão social-democrata radical, reformista,
e menos socialista. As reformas que propugnava, mesmo
que radicais, inscreviam-se na tradição
da modernização do capitalismo, à
européia, o que não era aceito pela burguesia
nacional e menos ainda pelas corporações
internacionais, particularmente as norte-americanas.
Tratava-se de um pensamento modernizador,
de forte conteúdo social, próximo de um
ideário social-democrata, distante, no entanto,
do que se entende como social-democracia no Brasil atual,
mais próxima do pensamento de direita. Não
por acaso, PSDB e PFL andam juntos, como irmãos
siameses. A social-democracia brasileira atual é
o pensamento de direita mais atualizado, mais afinado
com a modernidade de Wall Street ou com o que ficou
conhecido como Consenso de Washington.
Goulart será novamente eleito vice-presidente
em 1960, diferentemente do seu companheiro de chapa,
Marechal Lott, que perde a presidência da República
para Jânio Quadros. O destino de Goulart só
se modifica com o golpe de 1964, quando ele é
derrubado. Importante reiterar, portanto, para que compreendamos
o golpe no contexto histórico, que Goulart já
representava, desde o início dos anos 50, uma
ameaça à direita brasileira pelas forças
sociais que representava, encarnada principalmente no
Partido Trabalhista Brasileiro, mas que ia além
dele.
Waldir, quando define Goulart, acompanha
a visão de Bandeira, que o considera um homem
simples, afável e discreto, sem qualquer afetação.
Aparentemente tímido, transformava-se diante
da multidão, quando se superava, especialmente
quando, nos comícios, abandonava o texto escrito.
Aí se agigantava. Desaparecia a timidez, aparecia
o tribuno entusiasmado com a presença das massas.
Atrás dizíamos que, na
opinião de Waldir, o ano de 1963, havia começado
bem para o presidente Goulart. Fora largamente vitorioso
no plebiscito, consagrado presidente com uma votação
esmagadora. A direita, no entanto, recorda Waldir, não
se conformava. Não aceitava, sob nenhuma hipótese,
que aquela articulação de forças
que se formara em torno de Goulart continuasse, não
aceitava que a política de reformas prosseguisse.
Nossa tradição contra as reformas básicas
que favoreçam o povo vem de longe...
Jornalista, escritor, autor de Lamarca,
o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o
inimigo número um da ditadura militar; As asas
invisíveis do padre Renzo; Galeria F –
Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II.