Waldir guarda de Rubens Paiva um enorme sentimento
de fraternidade, de gratidão, de orgulho por
tê-lo conhecido, como ele próprio confessa.
Orgulho de ter sido amigo dele, de ter testemunhado
sua espontaneidade solidária “no gesto,
na atitude para servir a uma causa que lhe parecesse
justa e correta”. Até hoje Waldir se recorda
da reunião de companheiros, dia 3 de abril de
1964, noite alta, tudo recendendo terror e tensão,
e ele, Rubens Paiva, “oferecendo-se para organizar
e executar a logística da operação
de retirada dos que precisavam deixar a capital do País
para cumprir as tarefas da resistência possível”.
Foi o próprio Rubens Paiva quem havia escolhido
as moitas de vegetação entre as quais
Waldir e Darcy deveriam se esconder à espera
do avião que os levaria a uma fazenda próxima,
como já relatado. Escolheu e de manhã
os conduziu até elas. Rubens Paiva é,
assim, para Waldir, “a lembrança querida
de um irmão extraordinariamente valoroso e bom”.
Waldir vive até hoje a lembrança trágica
do desaparecimento de Rubens Paiva, assassinado pela
ditadura. E a lembrança lhe é particularmente
cara porque na manhã do desaparecimento dele,
20 de janeiro de 1971, Waldir estivera com ele.
Waldir relembra que Rubens Paiva morava na Avenida
Delfim Moreira. Foi lá, na manhã de sol
do Leblon, entre copos de cerveja, que ele, Rubens e
Raul Riff conversaram bastante, como bons amigos. Waldir
foi insistentemente convidado por ele e por Eunice,
mulher dele, para que ficasse para o almoço.
Waldir, com filhos crianças e adolescentes, havia
prometido a eles e a Yolanda que naquele feriado –
dia de São Sebastião – estariam
juntos. Menos de uma hora depois, a casa foi militarmente
ocupada e ele levado preso, para nunca mais voltar e
passar a integrar a lista dos desaparecidos.
A versão da ditadura sobre a morte dele é
que teria sido resgatado por seus companheiros quando
mostrava à polícia um endereço
onde poderia estar vivendo um “terrorista”
que trazia correspondência de exilados chilenos.
O ex-médico torturador, psiquiatra Amílcar
Lobo, desmontou essa versão, dizendo que atendeu
Rubens Paiva e que a tortura o tornara uma “equimose
só”. No dia seguinte ao atendimento, soube
que ele havia morrido.
As investigações acabaram chegando aos
responsáveis pelas torturas, morte e ocultação
do cadáver de Rubens Paiva, como consta do livro
de Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio
(Dos filhos deste solo – Mortos e desaparecidos
durante a ditadura militar: a responsabilidade do Estado
– Editora Fundação Perseu Abramo
e Boitempo Editorial). Os assassinos foram o coronel
Ronald José da Motta Batista Leão, que
foi chefe da II Seção do I Exército
e comandante do PIC; o capitão de Cavalaria João
Câmara Gomes Carneiro; o subtenente Ariedisse
Barbosa Torres; o major PM-RJ Riscala Corbage e o segundo-sargento
Eduardo Ribeiro Nunes.
Waldir nunca se esquecerá daquele 20 de janeiro
de 1971. À tarde, recebeu um telefonema que dava
conta do “internamento” de Rubens Paiva.
Rapidamente promoveu-se uma reunião com advogados
amigos, na casa de Bocaiúva Cunha. “E começara
o duro infortúnio que se abateu sobre toda a
família de Rubens, e a dor e a angústia
que envolveram a todos nós, seus amigos”.
Waldir esteve sempre perto de Eunice e de toda a família,
solidário. Eunice esteve na Bahia, depois da
anistia de 1979, no ato de filiação de
Waldir ao PMDB. Para abraçá-lo, como se
fora a representação simbólica
de Rubens. Uma amizade eterna.
Waldir, quando fala sobre o golpe, rememora o percurso
de Goulart. O ano de 1963 havia começado bem
para o presidente. Um plebiscito deveria decidir se
deveria ou não continuar o parlamentarismo que
lhe havia sido imposto para que ele pudesse assumir
a presidência em setembro de 1961, logo após
a renúncia de Jânio Quadros, do qual era
vice. E a vitória de Goulart, naquele início
de 1963, foi insofismável, esmagadora: 9 milhões
disseram sim ao presidencialismo, ratificando o seu
mandato e apoiando o programa de reformas de base. Apenas
1 milhão de eleitores optaram pelo parlamentarismo.
Foi a verdadeira e consagradora eleição
de Goulart à presidência, “a mais
expressiva de toda a história do País,
maior do que a de Quadros, até então recorde,
com 6 milhões de votos”, como assinala
Moniz Bandeira, no livro já citado. Líder
do Partido Trabalhista Brasileiro desde o início
dos anos 50, era, desde lá o principal alvo da
direita...
Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão
da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número
um da ditadura militar; As asas invisíveis do
padre Renzo; Galeria F – Lembranças do
Mar Cinzento, parte I e II.