Brizola
queria que Goulart decretasse Estado de Sítio
antes que o golpe da direita viesse...
Emiliano José*
No dia 4 de outubro de 1963, Goulart
pede a decretação do Estado de Sítio
ao Congresso Nacional. Goulart resolvera utilizar o
remédio constitucional extremo diante do avanço
da direita e, também, porque seus ministros militares
naquele momento consideravam a entrevista de Lacerda
um insulto ao País. Ao enviar a mensagem ao Congresso,
Goulart alegava a iminente ameaça de comoção
intestina. Queria reprimir os golpistas, entre os quais
Carlos Lacerda e Adhemar de Barros, governador de São
Paulo, precursor do “rouba, mas faz”.
Brizola concordou com Goulart desta
vez, depois de ter protagonizado muitas divergências
com o presidente. Havia tempo que ele, Brizola, advogava
uma atitude dura do governo diante do avanço
da direita, de sua ousadia. Acreditava que, se Goulart
não tomasse uma atitude mais clara de força,
as articulações de direita cresceriam
e dariam o golpe, como acabou ocorrendo.
O raciocínio de Brizola ia muito
além das pretensões de Goulart, na verdade.
Ele defendia que era melhor que Goulart desse o golpe
antes que a direita o fizesse. Estava preocupado com
o clima de desgaste do governo e com a falta de definições
claras, situação que beneficiava a conspiração
direitista. Goulart, diferentemente, não pretendia
dar nenhum golpe. Queria evidenciar força sem,
no entanto, ultrapassar os limites constitucionais.
Aconteceu, no entanto, que além
da óbvia oposição das forças
de direita, algumas lideranças importantes da
esquerda, como Miguel Arraes, se opõem à
idéia. Acreditavam que a medida podia se voltar
contra elas, embora seguramente não fosse essa,
nem de longe, a pretensão de Goulart, como atesta
Waldir, que lembra o fato de Goulart havia pouco tempo
ter estado com Arraes em Recife, dando-lhe evidentes
sinais de apreço, demonstrando-lhe que o governo
federal pretendia estar ao lado dele, sem qualquer dúvida.
O movimento sindical, pela palavra de
seus mais importantes líderes, representando
entidades como o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT),
também manifestou-se contrário à
medida. Havia o temor de que a suspensão das
liberdades públicas pudesse permitir a repressão
ao movimento de massas e às greves.
No Congresso Nacional, a proposta não
prosperou. O presidente não contou sequer com
a total solidariedade do PTB. A Comissão de Constituição
e Justiça da Câmara Federal rejeitou o
parecer do deputado Roland Corbusier, do PTB, favorável
à decretação do Estado de Sítio.
A informação da derrota lhe foi passada
por Doutel de Andrade, recentemente empossado líder
do PTB. Diante disso, o presidente, amargurado, retira
a mensagem.
Goulart poderia ter insistido e, fazendo-o,
conseguir maioria para aprovar a mensagem. Mas, ele
não admitia governar sem o apoio dos sindicatos
e dos movimentos populares, que também se insurgiram
contra sua proposta. Retirou a mensagem, mas sabia que
ali, ao perder uma batalha daquela magnitude, se acelerava
o processo que o levaria à deposição
e isso ele confessou ao seu amigo e companheiro Doutel
de Andrade na noite em que recebeu a notícia
da derrota na Comissão de Constituição
e Justiça.
Waldir diz que o episódio da
retirada da mensagem da decretação do
Estado de Sítio fortaleceu os golpistas, notadamente
Carlos Lacerda e Adhemar de Barros. E junto com eles,
fortaleceram-se “todas as forças empenhadas
no golpe, que não eram poucas”. Os dois
lados – explica Waldir – “o do governo,
com a proposta das reformas de base, e o da direita,
que pretendia manter as estruturas tais como eram, sem
quaisquer reformas, e ao mesmo tempo, atender as exigências
feitas pelos EUA de abrir ainda mais o País ao
capital estrangeiro, estavam à beira do confronto”.
Jornalista, escritor, autor de Lamarca,
o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o
inimigo número um da ditadura militar; As asas
invisíveis do padre Renzo; Galeria F –
Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II.