Antes de Waldir assinar o contrato com
a Universidade, ele e Yolanda decidem que é chegada
a hora de buscar as crianças no Brasil. No dia
3 de março de 1966, Yolanda parte para o Brasil
com esse objetivo. Teria que passar pelo Uruguai para
arrumar e providenciar o transporte do que havia sido
deixado lá. Em Montevidéu, Yolanda viu-se
cercada do carinho das amigas e amigos.
Gerbaldo, irmão de Yolanda, fora
a Montevidéu dirigindo um fusquinha que, na volta
para Salvador, estava abarrotado com os pertences da
família que haviam ficado no Uruguai. Mal sobrava
espaço para os dois. Em meados de março,
chegaram à capital baiana. Yolanda não
via os filhos desde novembro de 1965. A emoção
do reencontro foi tamanha que Yolanda foi acometida,
por alguns dias, de uma inexplicável febre.
Em maio, Yolanda, com os cinco filhos,
chega a Paris. Waldir recebe-os emocionado, já
com um novo apartamento alugado em Sarcelles, subúrbio
norte de Paris, amparado na contratação
pela Universidade de Dijon. O ato, assinado pelo presidente
De Gaulle e pelo primeiro-ministro Pompidou, além
de subscrito pelo ministro da Educação,
assegurou a Waldir créditos instantâneos,
dando-lhe a possibilidade de fazer as compras que precisava.
Ele próprio mobiliou o apartamento
para a família, comprando tudo o que era necessário.
E mais: recebeu-os a bordo de um Simca quatro portas,
zero quilômetro, um luxo para as suas condições
de então, fruto de um longo financiamento com
juros de 3 por cento ao ano. O apartamento ficava no
14º andar, à Allée Camille Pissarro,
1. Sarcelles era um bairro de classe média baixa,
de trabalhadores urbanos e imigrantes de variadas nacionalidades.
Waldir, agora, estava envolvido numa
dura rotina de estudos. Tinha convicção
do quanto era difícil a tarefa de dar aulas numa
universidade estrangeira. Por mais que dominasse o francês,
sempre era um outsider. Teria que compensar isso com
muito conhecimento, com uma didática capaz de
envolver seus alunos.
Acordava às 4h30min, trancava-se
no gabinete e estudava de dez a doze horas por dia.
O ano letivo começaria em setembro e ele se atualizava
em Direito Constitucional Comparado e Instituições
Políticas. Em outubro, e disso ele não
se esquece, recebeu o seu primeiro salário como
professor da Universidade de Dijon.
Waldir viveu intensamente a tensão
da primeira aula na Universidade de Dijon. Era uma aula
de duas horas de duração, com cinco minutos
de intervalo entre uma hora e outra, e ocorreu em setembro.
Já estava contratado, mas ela seria uma espécie
de teste decisivo. Nela, ou se afirmava ou naufragava.
E não bastava demonstrar um profundo
conhecimento da matéria. Tratava-se de envolver
a sala, demonstrar domínio da língua e
fazer tudo isso à frente não só
de um grande número de alunos e professores como,
também, do coordenador dos cursos jurídicos
da Universidade de Dijon, M. Blondel, que queria, com
sua presença, homenagear o colega estrangeiro.
Uma homenagem que deixava tenso o estrangeiro.
Waldir deu à aula o título
de “Grandes Problemas Contemporâneos”,
um confortável e amplo guarda-chuva para revelar
o clima político, econômico e social vivido
pela América Latina, que passava por um instante
turbulento, pelo início da implantação
de ditaduras como resposta às lutas dos povos
pela redução das impressionantes desigualdades
sociais e pela superação da distância
entre os países do Continente e os do chamado
Primeiro Mundo. Waldir quis, nessa aula, discutir a
possibilidade de o mundo se organizar para superar o
abismo que separava as nações mais ricas
das mais pobres.
A Europa vivia, por seu turno, um momento
especial de afirmação do Estado de Bem-Estar,
e respirava um sentimento muito forte de solidariedade,
diferentemente dos dias atuais. Nessa aula, Waldir revelou
seu conhecimento do Direito brasileiro, mas, também,
analisou problemas de seu país, a emergência
da ditadura militar, as discrepâncias, as desigualdades
sociais. Waldir sabia, sentia que havia receptividade
a essas idéias na Europa de então e naturalmente
entre os alunos e professores. Expressou a angústia
de um Continente, antes embalado pelo sonho da Revolução
Cubana e agora atormentado pela ditadura no Brasil e,
lamentavelmente, na seqüência, por uma série
de outros golpes militares.
Waldir não só reclamou
a herança da Revolução Francesa
em sua aula, como também a tradição
de Roosevelt e Churchill para falar da essencialidade
da democracia. Esta não podia ser vista apenas
como um mundo de regras formais defensoras da liberdade
– fundamentais, em sua opinião –
mas também como espaço da liberdade de
“não passar necessidade”, como proclamara
a Carta do Atlântico, de 1941, assinada pelos
dois líderes, muito mais por insistência
de Roosevelt do que do líder inglês. Tratava-se
de pensar um Brasil autônomo, independente, e
desse Brasil e desse destino ele falou muito.
* Jornalista, escritor, autor de Lamarca,
o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o
inimigo número um da ditadura militar; As asas
invisíveis do padre Renzo; Galeria F –
Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II.