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Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento – Parte III (Cap. XXII)

Waldir tornava-se um professor respeitado com tão pouco tempo de presença em terras francesas. Sentia-se, assim...

Emiliano José*

Waldir tornava-se um professor respeitado com tão pouco tempo de presença em terras francesas. Sentia-se, assim, “o conquistador do mundo”. Uma conquista limitada, mas para ele parecia algo extraordinário e naquelas condições de fato era. A família demorou para se adaptar em terra estrangeira. Os filhos sofriam com os hábitos, com a cultura francesa, tão distinta da brasileira. O rigor com as crianças na escola assustava Waldir e Yolanda. Chico, o mais novo, encontrou muitas dificuldades, mas acabou integrando-se.

O Natal de 1966 foi mais alegre para todos. Waldir e Yolanda foram com as crianças para o centro de Paris. Tanta luz, tanta festa, tanta beleza que era quase impossível não ser feliz, apesar do exílio.

Waldir fez amizades em Dijon, entre as quais o diretor da Faculdade de Direito, M. Dehaussy, um ex-integrante da resistência à ocupação nazista. O estrangeiro afirmava-se em terra francesa. Era respeitado na Academia, ouvido com atenção e respeito pelos alunos e por seus colegas professores. Os rendimentos de Dijon e do Institut de Hautes Études de l’Amérique Latine davam tranqüilidade à família.

Waldir organizou sua rotina acadêmica. Às segundas-feiras, partia muito cedo de casa, tomava o trem na estação de Sarcelles, pequeno município do subúrbio de Paris onde morava, em direção à Gare du Nord. Na Gare du Nord, embarcava no metrô para a Gare de Lyon, onde, então, tomava o trem Mistral, direto para Dijon, que partia rigorosamente às 21h20min. Eram duas horas e vinte minutos de viagem, à média de 140 quilômetros por hora. No trem, Waldir revisava suas aulas.

Às 10h30min Waldir começava suas atividades na universidade. Entre segunda e terça, dava aulas, orientava estudantes e participava das reuniões do Departamento de Direito Público. Na terça, às 21h20min tomava o mesmo Mistral, que vinha da Suíça. Já mais relaxado, tarefas cumpridas, Waldir quase invariavelmente saboreava um canelone, acompanhado de um bom vinho tinto da Borgonha. Chegava em casa, em Sarcelles, por volta de 1 hora da manhã da quarta-feira, com dona Yolanda esperando-o acordada, sempre.

Waldir insistiu muito para que dona Yolanda fosse conhecer Dijon e sua universidade. Ela relutou muito por conta de suas obrigações de mãe, mas um dia cedeu. Ficou impressionada, em primeiro lugar, com a natureza modesta do quarto de pensão onde Waldir se hospedava. Quase dá uma bronca em Waldir. E ele, sorrindo, disse:

O que importa? Durmo aqui apenas uma noite. Sinto-me bem e gosto da proximidade da estação.

Dijon é capital da Borgonha, uma bela cidade. Dona Yolanda se impressionou com a gastronomia, com sua bela Catedral de São Benigno, com o histórico Palácio Ducal, construído no século XVII.

A partir de 1968, como já se disse, passa a dar aulas, às quintas-feiras, no Institut de Hautes Études de l’Amérique Latine, situado à Rue St. Gillaume. Ensinava no pós-doutorado, orientando estudantes sobre Instituições Políticas da América Latina. Tal instituto foi criado graças aos esforços do professor Pierre Monbeig. Waldir dava uma aula de 1 hora, das 15hs às 16hs, e das 16hs às 18hs orientava estudantes.

Às quintas, sua rotina era mais agradável, pois dona Yolanda, que nunca gostou de dirigir no Brasil, vinha de carro, esperava Waldir no Bizouth, um pequeno bistrô da esquina da Rue St. Germain com St. Gillaume, onde encontravam-se também com Celso Furtado, que dava aulas na Universidade e Paris. Dali partiam os três para um jantar, normalmente para um bistrô escolhido por Celso, que conhecia Paris como a palma da mão. Eventualmente, iam a um teatro ou a um cinema. Depois desse programa, Waldir e Yolanda voltavam de carro para Sarcelles. Entre sexta, sábado e domingo Waldir preparava suas aulas. Cada aula, devido às dificuldades com a língua, custava umas 10 horas de trabalho.

Sentia-se bem na França. Fora acolhido, percorrera os caminhos que lhe garantiam a sobrevivência. A Universidade, em Dijon e em Paris, era um território que estimulava sua inteligência, que animava sua capacidade de pesquisa, que o mantinha ocupado com as grandes questões da humanidade e particularmente da América Latina. Aquela terra, berço das lutas libertárias do Ocidente, da Revolução de 1789, marco essencial da luta contra o obscurantismo medieval, tornava o exílio mais suportável. Rigorosamente, nos limites sempre estreitos de um exilado, era um homem feliz, compartilhando a vida francesa e européia. Pôde acompanhar de perto a impressionante agitação de 1968, que sacudiu Paris, a Europa e que influenciou todo o mundo.

Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar; As asas invisíveis do padre Renzo; Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II.

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
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Capítulo 37
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Capítulo 36
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Capítulo 35
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Capítulo 34
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Capítulo 33
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Capítulo 6
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Capítulo 5
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Capítulo 4
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Capítulo 3
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Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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