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Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento – Parte III (Cap. XXIII)

Waldir considerava-se um privilegiado. Vivia um momento histórico especial. Sobretudo aquele mágico ano, 1968...

Emiliano José*

Waldir considerava-se um privilegiado. Vivia um momento histórico especial. Sobretudo aquele mágico ano, 1968. Não sei se Waldir chegou a pensar em Walter Benjamin, esse marxista iconoclasta que viveu a tragédia do nazismo de modo intenso e que refletiu sobre o capitalismo de forma original. E mais ainda o fez quanto à história. Ele, Benjamin, criticava duramente os que acreditavam num tempo homogêneo na história. As movimentações revolucionárias, intensas, explodem essa noção, fazem “saltar pelos ares o continuum da História”. Pode não ter pensado, mas Waldir certamente estava extasiado com aquela explosão revolucionária, de alegria, de insubmissão da juventude e dos operários parisienses.

Ele acompanhou com interesse toda aquela movimentação. Viu a repressão, o refluir do movimento. Manteve a esperança. Sabia que a população européia tinha energias utópicas poderosas, nascidas de muitas lutas históricas, vindas da Revolução Francesa e depois das muitas insurreições operárias do século XIX, além das lutas que fizeram com que se construísse o Estado de Bem-Estar Social – o Welfare State – que está muito longe de ter sido uma dádiva das classes dominantes.

Essa esperança tinha razão de ser e assistir hoje à construção de um Estado europeu unificado dá razões a Waldir, embora não se creia que essa construção esteja acabada e nem que os problemas europeus estejam resolvidos. A guerra nas trincheiras continua – outra guerra, outras trincheiras, no campo da luta democrática.

Waldir, no entanto, apesar do relativo conforto da vida européia, das alegres viagens que fazia com a família nas férias, do respeito que desfrutava no ambiente acadêmico, do convívio com alguns amigos tão queridos, como Celso Furtado, começou a ficar inquieto, angustiado. O exílio é uma gaiola dourada que nos tira de nossas raízes, que nos rouba de nossa cultura, que nos afasta de nossas origens. Por que roubar dos seus filhos – pensava Waldir – a possibilidade de viver no País em que nasceram, o verdadeiro País deles? Como permitir que se tornassem de alguma forma “franceses”?

Não, não é que Waldir tivesse qualquer atitude negativa em relação à França, país que o acolheu, a Yolanda e seus filhos com tanto carinho, berço das lutas libertárias do Ocidente, da Revolução Francesa, marco da luta contra o obscurantismo medieval. Ele tinha – e tem – admiração pela França. Tratava-se da reflexão essencial sobre os filhos. Queria-os brasileiros, não franceses. E para isso, pensava, era necessário voltar.

Waldir pesava prós e contras, e sempre concluía que não havia outro jeito senão afrontar os riscos e voltar à sua terra para garantir que seus filhos se fizessem verdadeiramente brasileiros. Os amigos franceses não entendiam a decisão de Waldir. Como regressar numa situação daquela? O diretor da Faculdade de Direito de Dijon, M. Dehaussy, por exemplo, durante um almoço, perguntou a Waldir:

- M. Pirréz, o senhor pretende voltar para exercer o magistério?

- Não – disse Waldir. - Tenho os meus direitos políticos cassados por dez anos.

- O senhor poderá exercer algum cargo público? – perguntou Dehaussy.

- Não – respondeu-lhe Waldir.

- Então, o que o senhor vai fazer no Brasil? É difícil compreender essa decisão.

Nada, no entanto, demovia Waldir. Ele sabia dos riscos, mas sabia também que os dois processos que haviam sido abertos contra ele, acusando-o de ter organizado a resistência nos dias do golpe, haviam sido arquivados. A decisão da volta começou a amadurecer no segundo semestre de 1968. Waldir, de longe, vira a impressionante movimentação estudantil e isso o animava. O espírito animava-se. A possibilidade da democracia.

A verdade, no entanto, é que a história ainda reservava surpresas, e elas não eram agradáveis. Da França, era impossível a Waldir perceber o que realmente estava ocorrendo no Brasil. Melhor, nem mesmo os que viviam a luta no Brasil percebiam o que estava por vir. A linha dura das Forças Armadas não se conformava com o crescimento da luta de massas, particularmente do avanço do movimento estudantil naquele ano.

Tudo explodira com a morte do estudante Edson Luís de Lima Souto, no Restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, no final de março de 1968. Desde então, os estudantes ocuparam as ruas do Brasil, em gigantescas manifestações, particularmente durante todo o primeiro semestre, sempre entrando em confronto com a repressão. O Brasil antecipava Paris. O palco da luta eram as ruas, especialmente as das grandes cidades. No meio do ano, explodiram lutas operárias em Osasco, São Paulo, e em Contagem, Minas Gerais. Estávamos todos nós maravilhados, os que lutávamos, esperançosos de que a derrota da ditadura era iminente.

Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar; As asas invisíveis do padre Renzo; Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II.

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
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Capítulo 37
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Capítulo 36
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Capítulo 35
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Capítulo 5
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Capítulo 4
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Capítulo 3
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Capítulo 2
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Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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