No
segundo semestre, o ímpeto das lutas diminuiu,
sem que diminuísse a ferocidade da ditadura.
A esquerda não percebia isso com a devida nitidez.
Lembro-me que os nossos argumentos...
Emiliano José*
No segundo semestre, o ímpeto
das lutas diminuiu, sem que diminuísse a ferocidade
da ditadura. A esquerda não percebia isso com
a devida nitidez. Lembro-me que os nossos argumentos
sempre giravam em torno do “crescimento da luta
de massas”. Todos nós, das organizações
da esquerda armada, tínhamos uma noção
idealista, providencial, mágica da história.
É como se ela caminhasse inevitavelmente a nosso
favor. Aqui lembro-me de Rosa Luxemburgo, notável
Rosa, profética Rosa, que fez a crítica
dura do autoritarismo da Revolução Russa,
ainda em 1918. Rosa, em 1916, 1917 desenvolve concepções
profundamente idealistas da história.
“Tanto no plano da natureza quanto
no da história, basta ter paciência e deixar
que as leis realizem seu trabalho”, diria ela
em carta a Marta Rosembaum, de março de 1917.
Ou quando em outra carta, esta a Luise Kautsky, diz
que “a história sabe sempre melhor o que
fazer, quando parece ter-se perdido num beco sem a menor
esperança de saída”. Quem quiser
conhecer melhor Rosa, leia Rosa Luxemburgo – os
dilemas da ação revolucionária,
de Isabel Maria Loureiro, Editora UNESP : Editora Fundação
Perseu Abramo.
Os homens, nessa concepção
da história, seriam apenas instrumentos de um
mágico “objetivo final”, transcendente,
para o qual contribuem de modo inconsciente. A ação
humana operaria como mediadora de fins universais. Esta
visão, dogmática e idealista, estava presente
em Rosa, curiosamente uma instigante marxista que se
viu prisioneira de concepções idealistas
quanto à marcha da história. Mas não
esteve presente apenas em Rosa, claro. O século
XX, com o predomínio do stalinismo, cultivou
essa noção mágica da história.
Nós, no Brasil de 1968, inebriados
pelas mobilizações de 1968, pelas movimentações
estudantis do primeiro semestre, mesmo quando as dificuldades
começavam a aparecer, quando começavam
a rarear as mobilizações, quando as ruas
começavam a se esvaziar, quando caiu o Congresso
da UNE, em Ibiúna, São Paulo, no segundo
semestre de 1968, quando o movimento operário
encontrava-se em evidente estado de recuo, mesmo quando
tudo isso ocorria, nossas análises davam um jeito
de adequar a realidade aos nossos desejos. Ou pretendiam
dar.
A história daria um jeito em
tudo já que caminhava inevitavelmente a nosso
favor. Isso até que tudo desabasse e evidenciasse
que a velha luta de classes estava ali à nossa
frente e que a correlação de forças
não indicava nossa supremacia, muito ao contrário.
Essa visão da história
nos custou muito caro, sempre, e volta e meia ressurge.
A impaciência, quando se organiza e quando analisa
a correlação de forças, ajuda a
história a caminhar. Quando acredita que apenas
o desejo basta, contribui para que os conservadores
retomem as rédeas do poder.
A história não caminha
a favor dessa ou daquela tese. Ela é resultado
da ação de homens e mulheres. Há
sempre vários caminhos, e é a espécie
humana, são as classes sociais que, em face de
várias alternativas e de específicas correlações
de força, decidem os acontecimentos. Não
há magias, não há predestinação.
Um discurso do deputado Márcio
Moreira Alves, no Congresso Nacional, e a recusa do
Parlamento brasileiro em cassá-lo, foram o mote
para o Ato Institucional número 5, que acabou
com qualquer veleidade legalista que a ditadura ainda
pudesse ter. E aquele discurso e seus desdobramentos
nos demonstraram, tragicamente, que a correlação
de forças ainda pendia favoravelmente àquela
ditadura que a partir daí se tornará mais
e mais assassina. Nós, os da esquerda armada,
ainda levaríamos um bom tempo até nos
apercebermos o quanto estávamos enganados.
O AI-5 é o marco da virada da
ditadura. Até ali, embora inegavelmente ditadura,
o regime ainda convivia com uma Constituição,
o habeas-corpus vigorava, persistiam alguns resquícios
de legalidade. Diria que a crise de identidade da ditadura
terminou naquele 13 de dezembro de 1968. A partir dali,
os generais tornaram-se senhores da vida e da morte,
mais da morte que da vida. A repressão tornou-se
norma; a tortura, rotina; o arbítrio, costume.
Entre os governos Médici e Geisel, de 1968 a
1978, muito sangue correrá, muitos revolucionários
serão assassinados cruelmente nos porões
da ditadura.
Além de tudo, a ditadura teve
a ventura de ver o País entrar numa fase de expansão
econômica, que vai de 1968 a 1973, anos que ficaram
conhecidos como integrando o período do “milagre
brasileiro”, com um crescimento anual que girava
em torno dos 10%. Com isso, os militares puderam prender,
torturar, matar, fazer desaparecer pessoas com mais
tranqüilidade. Um manto de silêncio abateu-se
sobre a sociedade brasileira, seja pela repressão,
pela censura à imprensa, seja pelo fato de que
as classes médias estavam relativamente satisfeitas
com os resultados do “milagre” e o proletariado
não enfrentava um grande desemprego. Foram anos
muito difíceis para a esquerda brasileira. Para
toda ela, sem exceção.
Jornalista, escritor, autor de Lamarca,
o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o
inimigo número um da ditadura militar; As asas
invisíveis do padre Renzo; Galeria F –
Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II.