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Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento – Parte III (Cap. XXIV)

No segundo semestre, o ímpeto das lutas diminuiu, sem que diminuísse a ferocidade da ditadura. A esquerda não percebia isso com a devida nitidez. Lembro-me que os nossos argumentos...

Emiliano José*

No segundo semestre, o ímpeto das lutas diminuiu, sem que diminuísse a ferocidade da ditadura. A esquerda não percebia isso com a devida nitidez. Lembro-me que os nossos argumentos sempre giravam em torno do “crescimento da luta de massas”. Todos nós, das organizações da esquerda armada, tínhamos uma noção idealista, providencial, mágica da história. É como se ela caminhasse inevitavelmente a nosso favor. Aqui lembro-me de Rosa Luxemburgo, notável Rosa, profética Rosa, que fez a crítica dura do autoritarismo da Revolução Russa, ainda em 1918. Rosa, em 1916, 1917 desenvolve concepções profundamente idealistas da história.

“Tanto no plano da natureza quanto no da história, basta ter paciência e deixar que as leis realizem seu trabalho”, diria ela em carta a Marta Rosembaum, de março de 1917. Ou quando em outra carta, esta a Luise Kautsky, diz que “a história sabe sempre melhor o que fazer, quando parece ter-se perdido num beco sem a menor esperança de saída”. Quem quiser conhecer melhor Rosa, leia Rosa Luxemburgo – os dilemas da ação revolucionária, de Isabel Maria Loureiro, Editora UNESP : Editora Fundação Perseu Abramo.

Os homens, nessa concepção da história, seriam apenas instrumentos de um mágico “objetivo final”, transcendente, para o qual contribuem de modo inconsciente. A ação humana operaria como mediadora de fins universais. Esta visão, dogmática e idealista, estava presente em Rosa, curiosamente uma instigante marxista que se viu prisioneira de concepções idealistas quanto à marcha da história. Mas não esteve presente apenas em Rosa, claro. O século XX, com o predomínio do stalinismo, cultivou essa noção mágica da história.

Nós, no Brasil de 1968, inebriados pelas mobilizações de 1968, pelas movimentações estudantis do primeiro semestre, mesmo quando as dificuldades começavam a aparecer, quando começavam a rarear as mobilizações, quando as ruas começavam a se esvaziar, quando caiu o Congresso da UNE, em Ibiúna, São Paulo, no segundo semestre de 1968, quando o movimento operário encontrava-se em evidente estado de recuo, mesmo quando tudo isso ocorria, nossas análises davam um jeito de adequar a realidade aos nossos desejos. Ou pretendiam dar.

A história daria um jeito em tudo já que caminhava inevitavelmente a nosso favor. Isso até que tudo desabasse e evidenciasse que a velha luta de classes estava ali à nossa frente e que a correlação de forças não indicava nossa supremacia, muito ao contrário.

Essa visão da história nos custou muito caro, sempre, e volta e meia ressurge. A impaciência, quando se organiza e quando analisa a correlação de forças, ajuda a história a caminhar. Quando acredita que apenas o desejo basta, contribui para que os conservadores retomem as rédeas do poder.

A história não caminha a favor dessa ou daquela tese. Ela é resultado da ação de homens e mulheres. Há sempre vários caminhos, e é a espécie humana, são as classes sociais que, em face de várias alternativas e de específicas correlações de força, decidem os acontecimentos. Não há magias, não há predestinação.

Um discurso do deputado Márcio Moreira Alves, no Congresso Nacional, e a recusa do Parlamento brasileiro em cassá-lo, foram o mote para o Ato Institucional número 5, que acabou com qualquer veleidade legalista que a ditadura ainda pudesse ter. E aquele discurso e seus desdobramentos nos demonstraram, tragicamente, que a correlação de forças ainda pendia favoravelmente àquela ditadura que a partir daí se tornará mais e mais assassina. Nós, os da esquerda armada, ainda levaríamos um bom tempo até nos apercebermos o quanto estávamos enganados.

O AI-5 é o marco da virada da ditadura. Até ali, embora inegavelmente ditadura, o regime ainda convivia com uma Constituição, o habeas-corpus vigorava, persistiam alguns resquícios de legalidade. Diria que a crise de identidade da ditadura terminou naquele 13 de dezembro de 1968. A partir dali, os generais tornaram-se senhores da vida e da morte, mais da morte que da vida. A repressão tornou-se norma; a tortura, rotina; o arbítrio, costume. Entre os governos Médici e Geisel, de 1968 a 1978, muito sangue correrá, muitos revolucionários serão assassinados cruelmente nos porões da ditadura.

Além de tudo, a ditadura teve a ventura de ver o País entrar numa fase de expansão econômica, que vai de 1968 a 1973, anos que ficaram conhecidos como integrando o período do “milagre brasileiro”, com um crescimento anual que girava em torno dos 10%. Com isso, os militares puderam prender, torturar, matar, fazer desaparecer pessoas com mais tranqüilidade. Um manto de silêncio abateu-se sobre a sociedade brasileira, seja pela repressão, pela censura à imprensa, seja pelo fato de que as classes médias estavam relativamente satisfeitas com os resultados do “milagre” e o proletariado não enfrentava um grande desemprego. Foram anos muito difíceis para a esquerda brasileira. Para toda ela, sem exceção.

Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar; As asas invisíveis do padre Renzo; Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II.

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
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Capítulo 37
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Capítulo 36
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Capítulo 35
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Capítulo 5
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Capítulo 4
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Capítulo 3
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Capítulo 2
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Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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