Waldir,
no entanto, não perdera sua veia política.
Voltara ao Brasil com a firme disposição
de não deixar que seus filhos perdessem as raízes.
Mas, não ficaria indiferente às lutas
políticas embora...
Emiliano José*
Waldir, no entanto, não perdera sua veia política.
Voltara ao Brasil com a firme disposição
de não deixar que seus filhos perdessem as raízes.
Mas, não ficaria indiferente às lutas
políticas embora, nos anos de presidência
do general Garrastazu Médici, era difícil
falar em atividade política em sentido amplo.
No início de 1970, um pouco antes de Waldir
chegar ao Brasil, dia 13 de janeiro, Médici estabelece
a censura prévia de livros e periódicos.
A ditadura não estava para brincadeira. Assim,
toda e qualquer movimentação era feita
com muito cuidado, sem alarde. Era tempo de assassinatos,
desaparecimentos, tortura, prisões sem fim. No
primeiro momento, conversas ao pé do ouvido,
com pouca gente, e pedreira, trabalho na pedreira. Waldir
tornou-se de fato um especialista no setor.
No dia 1º de agosto de 1970, Waldir encontra-se
com Francisco Pinto. Ex-vereador e ex-prefeito de Feira
de Santana, Pinto estava no Rio de Janeiro, onde havia
sido julgado no Superior Tribunal Militar e absolvido
por unanimidade das acusações que pesavam
contra ele, todas elas relativas ao seu período
como prefeito. Feliz com o resultado do julgamento,
disse a Pinto:
- Sua nova missão é ser candidato a deputado
federal nas eleições de novembro.
Pinto não se seduzia com a idéia. Ouviu
um insistente Waldir dizer-lhe o quanto poderia ser
importante a eleição dele – e a
vida viria a provar o acerto da posição
de Waldir. Pinto vai se transformar num dos principais
deputados da resistência à ditadura militar.
Ainda há pouco, conversando com Pinto ele me
relatou essa conversa, a insistência de Waldir
durante a longa conversa que tiveram, e a sua relutância
em aceitar.
O Congresso Nacional depois do AI-5 não valia
nada. Os que haviam sido eleitos em 1966, ao menos aqueles
que eram de fato contra a ditadura, combatiam-na em
uma época em que o AI-2 se extinguira e acabaram
cassados pelo AI-5, em 13 de dezembro de 1968. Os remanescentes
no Congresso Nacional, inclusive os integrantes do MDB,
ou eram colaboracionistas ou contemporizavam com o governo.
Esse foi o cenário que Pinto desenhou para
um atento Waldir naquele já distante agosto.
Isso está relatado, também, no livro de
Ana Beatriz Nader: Autênticos do MDB – Semeadores
da democracia, da Editora Paz e Terra, edição
de 1998. Waldir e Pinto falam baixo, vieram da velha
escola do PSD – do melhor que tinha o PSD.
Os dois acostumaram-se a ouvir o argumento do seu interlocutor
com muita atenção, sem interrompê-lo.
São, no entanto, os dois, muito firmes no ponto
de vista que defendem, embora dispostos a mudar de posição.
Waldir ouviu atentamente a avaliação de
Pinto. E precisava porque, afinal, era recém-chegado
ao País e a palavra experimentada do feirense
tinha de ser levada em conta, em alta conta.
No entanto, me contou Pinto, Waldir insistiu quase
à exaustão para que aceitasse a tarefa.
O cenário era difícil, muitos haviam caído
pelo caminho, mas em cada eleição surgem
novos combatentes, como em qualquer luta contra ditaduras.
Pinto não se convencia.
E contra-argumentava. A opinião pública
estava descrente da luta institucional. Uma parte, dos
que se opunham à ditadura, havia optado pela
luta armada. Uma outra, não buscou o recurso
das armas, mas na avaliação de Pinto,
não acreditava na saída eleitoral –
essa parte era passiva politicamente, e preferia anular
o voto, e nesse ponto concordavam com as organizações
revolucionárias como AP, PC do B, MR-8, VPR e
tantas outras. E tentava convencer Waldir de que poderia
cumprir outras tarefas, e mais importantes do que ser
parlamentar.
E aí detalhou o que poderia ser a outra tarefa:
intensificar os seus contatos com oficiais do Exército.
Havia constatado a existência, nas Forças
Armadas, de muitos oficiais nacionalistas, com uma visão
ampla da realidade brasileira e com posições
críticas em relação à política
entreguista da ditadura. Segundo Pinto, defendiam a
soberania nacional e condenavam a tortura. Citou o grupo
Centelha como exemplo.
Pinto sempre cultivou, durante a ditadura, a idéia
de uma reação militar ao golpe. Acalentava
uma improvável união entre militares rebeldes
e o povo para derrotar a ditadura. Dessa maneira, não
se convencia com os argumentos de Waldir. Prometeu,
no entanto, que pensaria seriamente no que ouvira e
conversaria com seus companheiros na Bahia.
Conversou com Pedral Sampaio, ex-prefeito de Vitória
da Conquista, cassado como ele. Com Murilo Cavalcante,
ex-prefeito de Alagoinhas. Com dirigentes do Partido
Comunista Brasileiro (PCB), única força
de esquerda que defendia a participação
eleitoral naquele momento. E tais dirigentes disseram
a Pinto, na mesma linha de Waldir, que ele era o melhor
nome para representar as forças progressistas.
Pinto terminou candidato e terminou eleito. Waldir estava
certo. E o povo ganhou um extraordinário parlamentar.
Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão
da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número
um da ditadura militar; As asas invisíveis do
padre Renzo; Galeria F – Lembranças do
Mar Cinzento, parte I e II.