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Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento – Parte 3 - (Cap. XXIX)

Waldir, no entanto, não perdera sua veia política. Voltara ao Brasil com a firme disposição de não deixar que seus filhos perdessem as raízes. Mas, não ficaria indiferente às lutas políticas embora...

Emiliano José*

Waldir, no entanto, não perdera sua veia política. Voltara ao Brasil com a firme disposição de não deixar que seus filhos perdessem as raízes. Mas, não ficaria indiferente às lutas políticas embora, nos anos de presidência do general Garrastazu Médici, era difícil falar em atividade política em sentido amplo.

No início de 1970, um pouco antes de Waldir chegar ao Brasil, dia 13 de janeiro, Médici estabelece a censura prévia de livros e periódicos. A ditadura não estava para brincadeira. Assim, toda e qualquer movimentação era feita com muito cuidado, sem alarde. Era tempo de assassinatos, desaparecimentos, tortura, prisões sem fim. No primeiro momento, conversas ao pé do ouvido, com pouca gente, e pedreira, trabalho na pedreira. Waldir tornou-se de fato um especialista no setor.

No dia 1º de agosto de 1970, Waldir encontra-se com Francisco Pinto. Ex-vereador e ex-prefeito de Feira de Santana, Pinto estava no Rio de Janeiro, onde havia sido julgado no Superior Tribunal Militar e absolvido por unanimidade das acusações que pesavam contra ele, todas elas relativas ao seu período como prefeito. Feliz com o resultado do julgamento, disse a Pinto:

- Sua nova missão é ser candidato a deputado federal nas eleições de novembro.

Pinto não se seduzia com a idéia. Ouviu um insistente Waldir dizer-lhe o quanto poderia ser importante a eleição dele – e a vida viria a provar o acerto da posição de Waldir. Pinto vai se transformar num dos principais deputados da resistência à ditadura militar. Ainda há pouco, conversando com Pinto ele me relatou essa conversa, a insistência de Waldir durante a longa conversa que tiveram, e a sua relutância em aceitar.

O Congresso Nacional depois do AI-5 não valia nada. Os que haviam sido eleitos em 1966, ao menos aqueles que eram de fato contra a ditadura, combatiam-na em uma época em que o AI-2 se extinguira e acabaram cassados pelo AI-5, em 13 de dezembro de 1968. Os remanescentes no Congresso Nacional, inclusive os integrantes do MDB, ou eram colaboracionistas ou contemporizavam com o governo.

Esse foi o cenário que Pinto desenhou para um atento Waldir naquele já distante agosto. Isso está relatado, também, no livro de Ana Beatriz Nader: Autênticos do MDB – Semeadores da democracia, da Editora Paz e Terra, edição de 1998. Waldir e Pinto falam baixo, vieram da velha escola do PSD – do melhor que tinha o PSD.

Os dois acostumaram-se a ouvir o argumento do seu interlocutor com muita atenção, sem interrompê-lo. São, no entanto, os dois, muito firmes no ponto de vista que defendem, embora dispostos a mudar de posição. Waldir ouviu atentamente a avaliação de Pinto. E precisava porque, afinal, era recém-chegado ao País e a palavra experimentada do feirense tinha de ser levada em conta, em alta conta.

No entanto, me contou Pinto, Waldir insistiu quase à exaustão para que aceitasse a tarefa. O cenário era difícil, muitos haviam caído pelo caminho, mas em cada eleição surgem novos combatentes, como em qualquer luta contra ditaduras. Pinto não se convencia.

E contra-argumentava. A opinião pública estava descrente da luta institucional. Uma parte, dos que se opunham à ditadura, havia optado pela luta armada. Uma outra, não buscou o recurso das armas, mas na avaliação de Pinto, não acreditava na saída eleitoral – essa parte era passiva politicamente, e preferia anular o voto, e nesse ponto concordavam com as organizações revolucionárias como AP, PC do B, MR-8, VPR e tantas outras. E tentava convencer Waldir de que poderia cumprir outras tarefas, e mais importantes do que ser parlamentar.

E aí detalhou o que poderia ser a outra tarefa: intensificar os seus contatos com oficiais do Exército. Havia constatado a existência, nas Forças Armadas, de muitos oficiais nacionalistas, com uma visão ampla da realidade brasileira e com posições críticas em relação à política entreguista da ditadura. Segundo Pinto, defendiam a soberania nacional e condenavam a tortura. Citou o grupo Centelha como exemplo.

Pinto sempre cultivou, durante a ditadura, a idéia de uma reação militar ao golpe. Acalentava uma improvável união entre militares rebeldes e o povo para derrotar a ditadura. Dessa maneira, não se convencia com os argumentos de Waldir. Prometeu, no entanto, que pensaria seriamente no que ouvira e conversaria com seus companheiros na Bahia.

Conversou com Pedral Sampaio, ex-prefeito de Vitória da Conquista, cassado como ele. Com Murilo Cavalcante, ex-prefeito de Alagoinhas. Com dirigentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), única força de esquerda que defendia a participação eleitoral naquele momento. E tais dirigentes disseram a Pinto, na mesma linha de Waldir, que ele era o melhor nome para representar as forças progressistas. Pinto terminou candidato e terminou eleito. Waldir estava certo. E o povo ganhou um extraordinário parlamentar.

Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar; As asas invisíveis do padre Renzo; Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II.

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
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Capítulo 35
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Capítulo 34
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Capítulo 33
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Capítulo 32
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Capítulo 31
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Capítulo 8
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Capítulo 7
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Capítulo 6
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Capítulo 5
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Capítulo 4
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Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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