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Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento - Parte 3 - (Cap. XXVIII)

Alberto e Gerbaldo, solidários, propuseram a Waldir que ele investisse na área de pedras no Rio de Janeiro. Eles o ajudariam com o conhecimento profundo que tinham do assunto...

Emiliano José*

Alberto e Gerbaldo, solidários, propuseram a Waldir que ele investisse na área de pedras no Rio de Janeiro. Eles o ajudariam com o conhecimento profundo que tinham do assunto. Recomendaram-lhe encontrar um ou dois sócios, em decorrência do volume de investimentos, que não seriam pequenos, e para suportar o tempo de maturação, que seria longo. Waldir procurou dois amigos: Rubens Paiva e Max da Costa Santos. Ambos admitiram a hipótese. Os três chegaram a visitar pedreiras na região de Bangu, Madureira, Nova Iguaçu, tradicionais produtoras de brita para o mercado do Rio.

Max, no relato de Waldir, não conseguiu superar dificuldades familiares para dar conseqüência à sociedade. E Rubens Paiva, depois de algum tempo, também informou a Waldir que não poderia participar em virtude de compromissos que tinha assumido ao comprar uma empresa de construção civil. Rubens, no entanto, indicou um amigo, Bocaiúva Cunha, para constituir a sociedade com Waldir. Logo, almoçaram os três e a empresa se constituiu ali pelo último trimestre de 1970.

Waldir, como em tudo que faz, já estava se dedicando à leitura sobre o tema. Já era capaz de discorrer sobre mineração, pesquisa, lavra, perfuração, britagem. Não se perdia se a discussão girasse em torno das possibilidades do mercado para o setor no Rio de Janeiro. Havia, também, visitado diversas pedreiras e comparecido a diversos seminários que tratavam do tema. Num desses seminários – exatamente sobre Geotecnia – conhece o engenheiro Enio Miranda, que o aconselha a visitar a região de Jacarepaguá.

Tratava-se de uma região limítrofe com a Barra da Tijuca, cujo plano de desenvolvimento urbano Lúcio Costa havia concluído. Ele e Enio Miranda, mapa geológico do Rio de Janeiro à mão, situam as escolhas prioritárias de jazidas viáveis à exploração industrial naquela área. Assim surge a Ibrata. Assim nasce o empresário Waldir Pires. O mesmo que fracassara na idéia de criar frangos no Uruguai junto com outros exilados. Bendito fracasso que o levou à França e a tornar-se um respeitado professor em terras européias.

Waldir começa, então, o esforço paciente, meticuloso, tenaz de adquirir ou arrendar as áreas propícias à exploração, e estas tinham de ser necessariamente juntas, para obter, então, o licenciamento do núcleo industrial da pedreira. Para detalhar, somente em 12 de julho de 1971 foi possível adquirir uma área pertencente a José Augusto de Castro, vendida a Dalal Achcar, mulher de Bocaiúva Cunha, seu sócio.

Depois, foram adquiridas mais duas áreas, de propriedade de Vicente Tavares de Medeiros, vendidas, respectivamente, à Pedreira São Gonçalo Ltda e à Socipt Engenharia Ltda, as duas de propriedade de Alberto Avena, Gerbaldo Avena e de Yolanda. Anteriormente, conforme contrato assinado no dia 9 de junho de 1971, Waldir e Bocaiúva haviam arrendado quatro outras áreas, pertencentes a Anísio Furtado Fontes, Armindo Furtado Fontes, Alcides Furtado Fontes e Alice Trindade Fontes. Assim, estava composta a área indispensável à exploração industrial, com mais de 50 hectares.

Em 17 de agosto de 1971, o Departamento de Recursos Naturais da Secretaria de Agricultura do Rio de Janeiro autorizou a empresa a efetuar o corte e roçada da vegetação, numa área de 3 mil metros quadrados, para instalação da pedreira e abertura da primeira frente de exploração da jazida. No entanto, somente em 1º de março de 1973 foi autorizado o núcleo industrial da pedreira. E o primeiro faturamento de pedra britada e derivados só foi realizado no dia 4 de fevereiro de 1974. E a Ibrata tornou-se um empreendimento bem-sucedido.

Waldir respirava aliviado. Valera a pena o esforço. Lembrou-se, quando desse primeiro faturamento, de suas iniciativas para advogar logo que chegou. Os obstáculos para quem, como ele, era um proscrito em seu próprio País, eram enormes. Os advogados amigos que se dispunham a ajudá-lo explicavam, entre solidários e preocupados consigo mesmos, que ele poderia, quem sabe, elaborar pareceres, mas não poderia assinar as petições iniciais, que dão o rumo e conformam a natureza de qualquer ação. Ele nunca poderia estar na vanguarda da petição.

Mesmo que aceitasse, os rendimentos decorrentes desse tipo de exercício profissional não lhe permitiriam sustentar uma família com cinco filhos. E, além de tudo, o que lhe propunham era inaceitável: pretendiam, de alguma forma, que ele desenvolvesse atividades clandestinas, subterrâneas. Voltara ao Brasil com a firme disposição de desenvolver trabalhos profissionais à luz do dia, na mais transparente legalidade. Com a pedreira, encontrara um caminho. Pela frente, trabalho, muito trabalho. Uma família grande para sustentar.

Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar; As asas invisíveis do padre Renzo; Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II.

Todos os capítulos - Série 3
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Capítulo 3
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Capítulo 2
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Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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