Apesar
de todas as restrições, no entanto, apesar
da Lei Falcão, que restringia severamente a propaganda
eleitoral gratuita nas emissoras de rádio e na
televisão, a Arena obteve 15,2 milhões
de votos contra 12,7 milhões do MDB, uma vantagem
bem menor do que esperavam os militares...
Emiliano José*
Apesar de todas as restrições,
no entanto, apesar da Lei Falcão, que restringia
severamente a propaganda eleitoral gratuita nas emissoras
de rádio e na televisão, a Arena obteve
15,2 milhões de votos contra 12,7 milhões
do MDB, uma vantagem bem menor do que esperavam os militares.
Além disso, o MDB venceu as eleições
para prefeito e conquistou o controle das câmaras
municipais em 59 das 100 maiores cidades do país.
Os sinais de erosão eram evidentes
para a ditadura. Voto e ditadura não combinam.
Era olhando para essas mudanças, lentas, mas
seguras, que Waldir e seu grupo informal iam se movimentando,
ajudando a quem podiam enquanto não era possível
colocar-se na vanguarda dos acontecimentos.
Em abril de 1977, o general Ernesto
Geisel reduz novamente o ritmo da distensão,
a deixar claro que a chamada abertura era muito lenta
e gradual. A ditadura a queria sob absoluto controle.
Geisel fecha o Congresso Nacional, torna permanente
a eleição indireta de governadores, institui
a figura do senador biônico e impõe as
restrições da Lei Falcão a quaisquer
eleições. Medidas destinadas a conter
o célere avanço da oposição
e a assegurar o controle do processo pelo Executivo,
e que ficaram conhecidas como Pacote de Abril.
Nada disso, no entanto, vai impedir
o MDB de obter, nas eleições de 1978,
4,3 milhões de votos a mais do que a Arena na
disputa para o Senado e praticamente empate na disputa
de votos para a Câmara dos Deputados. Isso, no
entanto, não implicou em maioria parlamentar.
A Arena ficaria com maioria nas duas casas em razão
das regras estabelecidas pelo Pacote de Abril. O MDB,
criado com objetivo de ser uma oposição
consentida, vai criando uma dinâmica própria,
deixando de ser um corpo político amorfo, manipulável
pela ditadura.
A sociedade civil também começava
a se rearticular, apesar das duras condições
daquela conjuntura. O assassinato do jornalista Vladimir
Herzog, em 24 de outubro de 1975, nas dependências
do DOI-CODI, em São Paulo, marcará o início
de uma nova fase de mobilização dos estudantes
e das camadas médias intelectualizadas, algo
que não se via desde 1968.
A missa em intenção de
Vladimir Herzog, realizada na Catedral da Sé,
em São Paulo, apesar do impressionante aparato
repressivo montado na cidade, nas imediações
e na própria Praça da Sé, reuniu
em torno de oito mil pessoas no interior da igreja e
mais de 30 mil na praça. Ali começava
uma reação da sociedade civil, que não
seria mais interrompida, apesar da continuidade do aparelho
militar-repressivo da ditadura.
As forças da repressão
iriam, em janeiro de 1976, cometer outro assassinato,
o do operário Manoel Fiel Filho, também
morto nas dependências do DOI-CODI, em São
Paulo. A morte de Fiel Filho, somada à de Herzog,
servirá aos propósitos do Geisel de desbaratar
o poder paralelo existente em São Paulo, representado
pelos órgãos de segurança já
fora de controle, liderado, àquele momento, pelo
então comandante do II Exército, Ednardo
D’Ávila Mello, que é demitido. Só
assim, Geisel poderia dar seqüência à
sua política de distensão lenta e gradual,
o que não eliminará, como já se
disse, a prática dos assassinatos por parte da
ditadura.
Waldir e os companheiros mais próximos
iam aprofundando sua inserção na vida
política. Em 1978, já em articulação
mais próxima com os chamados autênticos
do MDB, e procurando manter-se mais próximo da
luta política na Bahia, embora à distância,
joga tudo o que pôde para dar uma substancial
votação a Francisco Pinto, o mais destacado
parlamentar do grupo autêntico, grupo do qual
ele havia sido um dos principais, senão o principal
articulador. Waldir, novamente, pede a todos os seus
amigos o voto para Pinto. E, como resultado do esforço
de tantos setores progressistas, inclusive de Waldir,
Pinto acaba tendo uma votação consagradora.
Waldir ia ousando mais, ampliando os
contatos, chegando a reunir-se com dirigentes do Partido
Comunista Brasileiro (PCB), entre eles Luiz Inácio
Maranhão Filho, com quem se encontrou algumas
vezes no Rio de Janeiro antes de ele ser morto, depois
de ter sido preso no dia 3 de abril de 1974, em São
Paulo. Torturado até morrer pelo delegado Sérgio
Paranhos Fleury, foi dado como desaparecido como tantos
outros adversários do regime.
Giocondo Dias, principal dirigente do
PCB, foi outro de seus interlocutores. Dias, numa das
primeiras articulações, telefonou para
Waldir pedindo uma conversa. Waldir concordou, mas pediu
um tempo para marcar o local do encontro. Conversou
com Bocaiúva Cunha, seu sócio, homem da
elite do Rio de Janeiro, bisneto de Quintino Bocaiúva
e que, por isso mesmo, teve uma idéia brilhante
e surpreendente:
- Não há problema, Waldir.
Marcamos a conversa com Giocondo Dias no Country Club.
Você acha que alguém conhece Giocondo no
Country Club?
A conversa se realizou sem quaisquer
sobressaltos, à luz do dia, e numa clandestinidade
perfeita.
Jornalista, escritor, autor de Lamarca,
o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o
inimigo número um da ditadura militar; As asas
invisíveis do padre Renzo; Galeria F –
Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II.