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Galeria
F – Lembranças do Mar Cinzento –
Parte 3 - (Cap. XXXII)
O
enterro do presidente João Goulart, no dia 7
de dezembro de 1976, é um acontecimento do qual
Waldir não se esquece. Goulart fora seu companheiro
de exílio no Uruguai. Waldir compartilhou de
seu governo até o último instante...
Emiliano José*
O enterro do presidente João Goulart, no dia
7 de dezembro de 1976, é um acontecimento do
qual Waldir não se esquece. Goulart fora seu
companheiro de exílio no Uruguai. Waldir compartilhou
de seu governo até o último instante.
Acreditou na possibilidade de efetivação
das reformas de base. Compreendeu o quanto havia de
espírito democrático em Goulart. O golpe
sepultou momentaneamente aquelas expectativas.
Goulart foi sepultado em São Borja, no Rio Grande
do Sul. Trinta mil pessoas aproximadamente acompanhavam
o cortejo fúnebre ao longo dos dois quilômetros
que separavam a Igreja de São Borja do cemitério.
O povo perdeu o medo e gritava, a uma só voz:
“Liberdade, Liberdade”. Ou então:
“Anistia, Anistia”. Quando o caixão
baixou à sepultura, as pessoas ainda repetiam
as palavras-de-ordem, acompanhadas sempre do nome dele:
“Jango, Jango”, como era mais conhecido
do povo, ou “Presidente, Presidente”.
Tudo
isso demonstrava primeiro o carinho do povo com seu
líder e, segundo, a revolta contra a ditadura.
O enterro transformava-se numa clara manifestação
política, embora se atendo, num certo limite,
às normas do ritual fúnebre. Na frente
do cemitério, faixas revelavam mais uma vez o
carinho do povo com seu filho querido: “Jango
continuará conosco”, “São
Borja chora a perda de mais um filho ilustre”,
“O trabalhador brasileiro perde o seu grande amigo”.
Tancredo
Neves, que acompanhara de perto a tragédia de
Getúlio Vargas em 1954, que fora primeiro-ministro
de Goulart no início dos anos 60, que resistira
até o último instante no Congresso Nacional
ao golpe de 1964, estava presente. Como estavam também
Waldir Pires; senador Paulo Brossard; Pedro Simon, presidente
do MDB do Rio Grande do Sul; o ex-chefe do gabinete
de imprensa de Goulart, Raul Riff e alguns outros companheiros
do ex-presidente, como Almino Afonso e Amaury Silva,
entre tantos.
O
presidente do MDB, Pedro Simon, foi o primeiro falar
antes que o caixão baixasse à sepultura:
-
Jango foi o primeiro e, queira Deus, o único
presidente brasileiro que morre no exílio, onde,
durante 12 anos, só teve palavras de carinho
e respeito ao seu Brasil. Possamos nós dizer,
o povo brasileiro, que desejamos de uma vez por todas
a pacificação da família brasileira,
a compreensão e o respeito entre todos.
É
fácil perceber o percurso tortuoso do discurso.
São notórios os cuidados de Simon para
falar contra a ditadura. A pacificação
não era outra coisa senão o fim da ditadura.
Não havia forma de pacificar a Nação
senão com o fim do regime dos militares. Mas,
isso não podia ser dito assim naquele momento.
Ainda não podia ser dito. Waldir acompanhou tudo
isso de perto durante o enterro. Estava ao lado da família,
amigo que era de todos.
Tancredo
Neves falou em nome do Diretório Nacional do
MDB. Waldir disse que, além de falar em nome
do partido, falava também em nome dele, de Darcy
Ribeiro, que também estava presente, de todos.
E outra vez o discurso haveria de ser cuidadoso, mas
o apelo era revelador:
-
Busquemos a reconciliação nacional, sem
repressão, sem ódio, sem vinditas, sem
medo, mas feita na compreensão e na tolerância.
Tancredo
ia adiante. Lembrou o destino trágico, triste
e glorioso da cidade de São Borja. Glorioso porque
não havia outra cidade no Brasil que tivesse
dois filhos como presidentes da República. Triste,
trágico “porque teve de enterrar seus dois
filhos mais ilustres em meio à dor e à
melancolia.” Foi a última fala antes que
o caixão descesse à sepultura:
-
Os dois, a última vez que puderam encontrar seus
irmãos de São Borja, o fizeram como Presidente
da República, mas só puderam voltar à
sua terra depois de mortos. Vargas levado pelo suicídio,
e Jango, 12 anos após um desterro que o afastou
da pátria, dos amigos e irmãos.
Tancredo
devia recordar-se, naquele momento, que estivera à
beira do caixão de Vargas em 1954. Mais ainda:
que estivera com Vargas na noite anterior. Agora, novamente,
outro caixão, outro companheiro de jornada.
Jango
havia dito, pouco antes de morrer, do seu desejo de
voltar ao Brasil. Mas, apesar disso, da vontade imensa
de viver novamente em sua terra, costumava afirmar que
“com chapéu embaixo do braço não
se volta”, usando expressão gaúcha
que identifica como pessoa humilhada a que coloca o
chapéu sob o braço. Dizia que pretendia
voltar como um cidadão comum, mas respeitado.
Voltou morto. Coisas da ditadura.
Waldir
viajou do Rio de Janeiro para São Borja num táxi
aéreo, acompanhando João Vicente e Denise,
filhos de Goulart, com os quais estivera em julho daquele
ano, em Londres, junto com Yolanda. Tinha por eles um
carinho imenso, desde os tempos do exílio no
Uruguai. Antes de partir de Londres para o enterro,
comunicaram a Waldir, que fez questão de acompanhá-los
e de estar presente ao enterro. Em setembro, também
de 1976, visitara Goulart em Montevidéu, e pôde
ouvir dele o quanto desejava voltar ao Brasil.
Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão
da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número
um da ditadura militar; As asas invisíveis do
padre Renzo; Galeria F – Lembranças do
Mar Cinzento, parte I e II.
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