A
perda do filho mais velho, Antonio Waldemir, na noite
de 25 de setembro de 1975, foi um dos momentos mais
dolorosos da vida de Waldir e Yolanda...
Emiliano José*
A perda do filho mais velho, Antonio
Waldemir, na noite de 25 de setembro de 1975, foi um
dos momentos mais dolorosos da vida de Waldir e Yolanda.
Waldir, logo que chegou ao Brasil, perdera o pai, em
julho de 1970. Fora-se seu Zeca. Duro, mais duro ainda,
se é possível comparar perdas, era ver
partir um filho no vigor da juventude.
Waldemir – ou Dimi, como o chamavam
os pais e irmãos – não resistiu
a uma dilacerante depressão e despediu-se da
vida aos 21 anos. Waldir fala desse momento com muita
emoção. E quando fala ressurge o menino
na França, ressurge o enorme amor que o unia
à família, ao irmão, Chico, às
irmãs, a capacidade enorme que ele tinha de conviver
com todos que o cercavam.
Não havia nele, no exterior,
qualquer sinal depressivo, qualquer sintoma de mergulho
em solidões sombrias, ensimesmamentos, encasulamentos
que levam a desequilíbrios profundos.
Waldir recorda que na França,
Dimi levava uma vida absolutamente comum para um jovem
de sua idade. Participava de tudo na escola, tirava
notas brilhantes, fazia longos passeios de bicicleta
com seus colegas, freqüentava as colônias
de férias. Sempre com muita alegria de viver.
Logo que chega ao Brasil, perto dos
16 anos, Dimi começa a dar os primeiros sinais
depressivos. Eram evidentes sintomas de inadaptação
ao novo país, que ele talvez não reconhecesse
mais como seu. Que não conseguiu reconhecer como
seu.
Yolanda, no belo livro Exílio,
testemunho de vida, diz que logo que ela e Waldir chegaram
ao Brasil começaram a perceber as mudanças
em Dimi. O silêncio passou a ser a marca de sua
presença, junto com persistente atitude de isolamento.
Os naturais, sedutores apelos da juventude não
o animavam.
Ela particularmente, com a sensibilidade
de mãe, sentia, sem que ele o dissesse, que Dimi
andava com o coração distante. Que as
lembranças migravam para terras francesas. Quem
sabe o coração se voltasse para o namoro
que havia iniciado com uma colega de escola, para as
muitas jornadas alegres com seus companheiros de sala.
Dimi não conseguia se adaptar
aos métodos de ensino do Brasil. Não se
concentrava nos estudos, como era seu costume na França,
como lembra Yolanda em seu livro. Tinha muita dificuldade
em fazer amizades, em fazer nascer novas relações.
Manifestava vontade de se integrar às manifestações
políticas. Mas vivia-se sob uma ditadura, o pai
era um cassado, perseguido, obrigado a viver longe da
disputa política aberta.
Dimi passou por tratamentos psicológicos,
psicanalíticos, foi medicado criteriosamente.
Os pais, os irmãos lutaram ao seu lado por anos
a fio, tentando trazê-lo de volta à vida,
criar as condições para que ele recuperasse
a alegria, o ardor da juventude. Ele, no entanto, resolveu
partir. Optou por deixar a vida. E deixou, sem que o
quisesse, uma dor profunda em todos que o cercavam,
que o amavam muito.
Waldir nunca teve dúvidas de
que acertara ao voltar ao Brasil. A dor imensa daquela
perda não o fizera mudar de opinião. Tentou
compensar isso com muito trabalho. Passou anos, no entanto,
sem abrir-se em sorrisos, como é de sua característica.
Yolanda, no entanto, diferentemente
de Waldir, naquele momento de extrema dor, teve dúvidas.
Confessa isso em seu livro. Durante vários anos,
ela era tomada pela sensação de que não
deveriam, elas, os filhos e Waldir, terem deixado a
França. Lá, os filhos viviam seguiam o
curso normal da vida, sem grandes traumas – era
sua reflexão. Mas, ela mesma voltava a si e reafirmava
a convicção de que a luta pela liberdade
sempre valia a pena.
Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão
da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número
um da ditadura militar; As asas invisíveis do
padre Renzo; Galeria F – Lembranças do
Mar Cinzento, parte I e II.