Waldir
vinha acalentando a idéia de voltar à
Bahia. Sabia que só podia fazê-lo no momento
em que se apresentasse um cenário minimamente
favorável à luta política aberta.
Tinha consciência de que...
Emiliano José*
Waldir vinha acalentando a idéia
de voltar à Bahia. Sabia que só podia
fazê-lo no momento em que se apresentasse um cenário
minimamente favorável à luta política
aberta. Tinha consciência de que, face à
disputa que fizera para o governo do Estado em 1962,
reunia as condições para unir as forças
da esquerda, da centro-esquerda e, no limite, até
de algumas parcelas do centro que se opunham ao domínio
da oligarquia que dominava a Bahia. Lembrava-se da luta
que uniu o PTB e o PSD e mais o próprio PCB,
mesmo clandestino, para desenvolver as reformas no Brasil.
Estavam frescas na sua memória
as lembranças dos governos Vargas, Juscelino
e Goulart, entre os anos 50 e início dos 60,
prósperos, esperançosos anos onde houve
a união daquelas forças políticas
para tentar fazer valer as reformas de que o Brasil
necessitava, sob a ótica daquele projeto de Nação.
Ele pensava, ao refletir sobre o retorno à Bahia,
na retomada daqueles ideais, evidentemente sob outra
conjuntura, muito mais difícil. Disposto a unir
forças políticas variadas para mudar a
vida política baiana.
A luta política no Brasil, o
crescimento da reivindicação pela anistia,
a retomada das lutas operárias, da mobilização
das camadas médias indicavam que esse momento
se aproximava.
E Waldir já começava a
falar mais abertamente sobre política. Em entrevista
dada ao Jornal da Bahia, de 15 de fevereiro de 1978,
defendia que “a nação inteira aguarda
e deseja que a reconciliação nacional
tenha como ponto de partida a anistia ampla e irrestrita,
que reponha todos os brasileiros no exercício
de suas cidadanias”.
Explicava, ainda nessa entrevista, a
anistia só aconteceria como decorrência
de uma generalizada, ampla e constante reivindicação
e constante reivindicação de todos os
setores da sociedade brasileira. Anistia, lembrava Waldir,
“é sempre uma conquista”. A anistia,
considerava Waldir, deveria vir sintonizada com os objetivos
da restauração da legitimidade democrática,
do pleno exercício dos direitos humanos e das
liberdades públicas, “requisitos da organização
básica do Estado de Direito”.
Fazia uma análise otimista da
conjuntura política. Primeiro porque, no plano
interno, havia uma evidente, ampla, generalizada aspiração
pela volta ao Estado de Direito. E externamente, as
expectativas mundiais eram as de que o Brasil se organizasse
no Ocidente como uma grande nação democrática.
A continuidade da ditadura, a não concessão
da anistia, o não-retorno a uma situação
de legalidade, contrariava as expectativas nacionais
e internacionais.
Estava disposto a voltar para sua terra.
A liderar, ao lado de outros companheiros e companheiras,
a luta contra as oligarquias locais. Essa disposição
cresce com o fim do AI-5. No dia 13 de outubro de 1978,
foi promulgada a emenda constitucional número
11, que revogava o AI-5 a partir de 1º de janeiro
de 1979. Tratava-se, então, de arrumar as malas
e desembarcar na Bahia, retomar a caminhada iniciada
nos anos 50. Sabia que tinha uma dura luta pela frente.
Mas, nada o desanimava. Outra vez, sua determinação
contou decisivamente. Era outra virada na vida, necessária
para a retomada da luta política.
Outra vez ele causava estupefação
em seus amigos. Havia reconstruído a vida no
Rio de Janeiro. Tornara-se um empresário bem-sucedido.
Dera a volta por cima depois das grandes dificuldades
iniciais. Colaborava com a luta política, embora
nos bastidores. E, agora, subitamente, estava disposto
a embarcar numa verdadeira aventura, para avaliação
de muitos dos que o cercavam. Numa noite, lá
pelo fim de 1978, ao sair da exibição
de uma companhia européia no Teatro Municipal,
no Rio de Janeiro, vê o historiador José
Honório Rodrigues caminhar em sua direção,
quase beirando a indignação:
- Waldir, eu acabei que ter uma notícia,
e não acreditei: que você vai nos deixar
e voltar para a Bahia.
Waldir, sorrindo afavelmente respondeu-lhe
que a notícia era verdadeira.
- Mas, Waldir, isso não é
possível. Você enlouqueceu. Você
deve saber o que é a Bahia. Sabe que se trata
de uma sociedade cuja estrutura é das mais reacionárias,
que tem uma elite de um arcaísmo brutal. Não
tem sentido.
Waldir, que sabia do carinho de José
Honório por ele, responde com toda calma, e sempre
querendo demonstrar do acerto de sua decisão:
- Mas é exatamente por conta
disso tudo, por conta da natureza perversa da elite
de minha terra, que eu volto. Para combatê-la,
para mudar aquela realidade. Eu volto para contribuir
para a derrota dos reacionários que infelicitam
minha terra.
Entre triste e resignado, José
Honório apelou, já sem tanto vigor:
- Waldir, Waldir, não faça
uma coisa dessas.
Waldir sorria diante do apelo do amigo.
E sorria amistosamente, cheio de carinho e compreensão.
Sabia que José Honório falava tudo aquilo
em nome da profunda amizade que os unia. Waldir reafirmava
sua disposição de seguir adiante. Lutar,
lutar sempre. Lutar para mudar o mundo. E o mundo agora
era a Bahia.
Jornalista, escritor, autor de Lamarca,
o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o
inimigo número um da ditadura militar; As asas
invisíveis do padre Renzo; Galeria F –
Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II.