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Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento – Parte 3 - (Cap. XXXIV)

Waldir vinha acalentando a idéia de voltar à Bahia. Sabia que só podia fazê-lo no momento em que se apresentasse um cenário minimamente favorável à luta política aberta. Tinha consciência de que...

Emiliano José*

Waldir vinha acalentando a idéia de voltar à Bahia. Sabia que só podia fazê-lo no momento em que se apresentasse um cenário minimamente favorável à luta política aberta. Tinha consciência de que, face à disputa que fizera para o governo do Estado em 1962, reunia as condições para unir as forças da esquerda, da centro-esquerda e, no limite, até de algumas parcelas do centro que se opunham ao domínio da oligarquia que dominava a Bahia. Lembrava-se da luta que uniu o PTB e o PSD e mais o próprio PCB, mesmo clandestino, para desenvolver as reformas no Brasil.

Estavam frescas na sua memória as lembranças dos governos Vargas, Juscelino e Goulart, entre os anos 50 e início dos 60, prósperos, esperançosos anos onde houve a união daquelas forças políticas para tentar fazer valer as reformas de que o Brasil necessitava, sob a ótica daquele projeto de Nação. Ele pensava, ao refletir sobre o retorno à Bahia, na retomada daqueles ideais, evidentemente sob outra conjuntura, muito mais difícil. Disposto a unir forças políticas variadas para mudar a vida política baiana.

A luta política no Brasil, o crescimento da reivindicação pela anistia, a retomada das lutas operárias, da mobilização das camadas médias indicavam que esse momento se aproximava.

E Waldir já começava a falar mais abertamente sobre política. Em entrevista dada ao Jornal da Bahia, de 15 de fevereiro de 1978, defendia que “a nação inteira aguarda e deseja que a reconciliação nacional tenha como ponto de partida a anistia ampla e irrestrita, que reponha todos os brasileiros no exercício de suas cidadanias”.

Explicava, ainda nessa entrevista, a anistia só aconteceria como decorrência de uma generalizada, ampla e constante reivindicação e constante reivindicação de todos os setores da sociedade brasileira. Anistia, lembrava Waldir, “é sempre uma conquista”. A anistia, considerava Waldir, deveria vir sintonizada com os objetivos da restauração da legitimidade democrática, do pleno exercício dos direitos humanos e das liberdades públicas, “requisitos da organização básica do Estado de Direito”.

Fazia uma análise otimista da conjuntura política. Primeiro porque, no plano interno, havia uma evidente, ampla, generalizada aspiração pela volta ao Estado de Direito. E externamente, as expectativas mundiais eram as de que o Brasil se organizasse no Ocidente como uma grande nação democrática. A continuidade da ditadura, a não concessão da anistia, o não-retorno a uma situação de legalidade, contrariava as expectativas nacionais e internacionais.

Estava disposto a voltar para sua terra. A liderar, ao lado de outros companheiros e companheiras, a luta contra as oligarquias locais. Essa disposição cresce com o fim do AI-5. No dia 13 de outubro de 1978, foi promulgada a emenda constitucional número 11, que revogava o AI-5 a partir de 1º de janeiro de 1979. Tratava-se, então, de arrumar as malas e desembarcar na Bahia, retomar a caminhada iniciada nos anos 50. Sabia que tinha uma dura luta pela frente. Mas, nada o desanimava. Outra vez, sua determinação contou decisivamente. Era outra virada na vida, necessária para a retomada da luta política.

Outra vez ele causava estupefação em seus amigos. Havia reconstruído a vida no Rio de Janeiro. Tornara-se um empresário bem-sucedido. Dera a volta por cima depois das grandes dificuldades iniciais. Colaborava com a luta política, embora nos bastidores. E, agora, subitamente, estava disposto a embarcar numa verdadeira aventura, para avaliação de muitos dos que o cercavam. Numa noite, lá pelo fim de 1978, ao sair da exibição de uma companhia européia no Teatro Municipal, no Rio de Janeiro, vê o historiador José Honório Rodrigues caminhar em sua direção, quase beirando a indignação:

- Waldir, eu acabei que ter uma notícia, e não acreditei: que você vai nos deixar e voltar para a Bahia.

Waldir, sorrindo afavelmente respondeu-lhe que a notícia era verdadeira.

- Mas, Waldir, isso não é possível. Você enlouqueceu. Você deve saber o que é a Bahia. Sabe que se trata de uma sociedade cuja estrutura é das mais reacionárias, que tem uma elite de um arcaísmo brutal. Não tem sentido.

Waldir, que sabia do carinho de José Honório por ele, responde com toda calma, e sempre querendo demonstrar do acerto de sua decisão:

- Mas é exatamente por conta disso tudo, por conta da natureza perversa da elite de minha terra, que eu volto. Para combatê-la, para mudar aquela realidade. Eu volto para contribuir para a derrota dos reacionários que infelicitam minha terra.

Entre triste e resignado, José Honório apelou, já sem tanto vigor:

- Waldir, Waldir, não faça uma coisa dessas.

Waldir sorria diante do apelo do amigo. E sorria amistosamente, cheio de carinho e compreensão. Sabia que José Honório falava tudo aquilo em nome da profunda amizade que os unia. Waldir reafirmava sua disposição de seguir adiante. Lutar, lutar sempre. Lutar para mudar o mundo. E o mundo agora era a Bahia.

Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar; As asas invisíveis do padre Renzo; Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II.

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
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Capítulo 35
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Capítulo 34
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Capítulo 6
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Capítulo 5
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Capítulo 4
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Capítulo 3
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Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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