Quando
candidato em 1962, Waldir, integrando o PSD, um partido
de corte conservador, mas que contava com vários
políticos progressistas, entre os quais o próprio
Waldir, conseguira unir os setores democráticos
da vida baiana, a esquerda, a juventude. Perdeu a eleição
para Lomanto Júnior...
Emiliano José*
Quando candidato em 1962, Waldir, integrando
o PSD, um partido de corte conservador, mas que contava
com vários políticos progressistas, entre
os quais o próprio Waldir, conseguira unir os
setores democráticos da vida baiana, a esquerda,
a juventude. Perdeu a eleição para Lomanto
Júnior, que teve 396.051 votos contra 352.428
dados a ele. O fato é que, apesar da derrota,
Waldir fixou um nome. Tornou-se, muito jovem, com 36
anos, uma referência para a Bahia. Não
se fará, nos limites desse livro, análise
abrangente sobre as eleições de 1962,
mas há um episódio que pretendo contar
para mostrar o quanto a Igreja Católica, então,
intervinha diretamente na vida política.
Waldir perdeu a eleição,
entre outros fatores, por conta da intervenção
aberta da Igreja Católica, do cardeal D. Augusto
da Silva, que não aceitava que Waldir tivesse
o apoio dos comunistas. Pressionado para condenar aquele
apoio, Waldir não se rendeu. Sua formação
democrática não permitia. Explicou que
não era comunista. Que, no entanto, tinha ótimas
relações com o PCB e que não havia
qualquer razão para aceitar aquela posição
da Igreja Católica. E essa recusa provocou uma
atitude militante do clero baiano que, em seus sermões,
durante as missas, seguindo orientação
do cardeal, caracterizavam Waldir como “candidato
dos comunistas”.
O jornal A Tarde, de 6 de setembro de
1962, estampava manchete revelando que a Igreja Católica
dividiria os candidatos em duas classes: bons e maus.
Assim mesmo: maniqueísmo puro. Nada de meios
tons. A matéria abordava uma reunião de
padres e bispos da Igreja Católica, convocada
e dirigida pelo Cardeal D. Augusto da Silva, para organizar
a Aliança Eleitoral pela Família (ALEF)
na Bahia. A ALEF teria sido nacionalmente parte de uma
elite orgânica que teria fomentado e organizado
o golpe militar de 1964.Todas essas informações
estão no livro de autoria de Paulo Fábio
Dantas Neto denominado Tradição, Autocracia
e Carisma – A Política de Antonio Carlos
Magalhães na modernização da Bahia
(1954-1974).
A matéria de A Tarde esclarece
que “ficou patenteada a preferência do clero
pela candidatura do sr. Lomanto Jr”. Diz que “o
perigo comunista mereceu a atenção dos
sacerdotes, sendo ponto pacífico que a Igreja
não transigirá com os candidatos vinculados
ao credo de Moscou, ou com ele comprometidos, pelo perigo
que representam para a segurança do regime democrático
e para os princípios fundamentais defendidos
pela Igreja Católica”. Nada mais claro.
Waldir receberia um ataque concentrado da hierarquia
e dos padres da Igreja Católica.
Foi uma guerra. Matérias pagas
em jornais, anúncios apócrifos com listas
de candidatos supostamente comunistas, tudo isso seqüenciado
por mensagens como “Alerta Democratas; Eleitores,
cuidado. Não votem neles; o voto é livre,
mas você não terá o direito de dizer
que não sabia...”, como está expresso
no Jornal da Bahia, de 30 de setembro de 1962 ou em
A Tarde, de 5 de outubro. Waldir, como diz Paulo Fábio,
era réu freqüente nesses panfletos, ao lado
de outros políticos de esquerda ou ligados ao
movimento operário.
A cruzada católica, além
de Waldir, incluía constantemente os nomes de
Fernando Santana, Henrique Lima Santos, Mário
Lima e Hélio Ramos, que eram candidatos a deputado
federal, no rol dos comunistas ou simpatizantes das
idéias comunistas. Entre os candidatos a deputado
estadual, eram listados Aristeu Nogueira, Jarbas Santana
e Wilton Valença. João Cardoso, candidato
a vereador em Salvador com apoio do PCB, era outro que
merecia a atenção das listas inquisitoriais.
O Brasil, então, e a Bahia de modo particular,
estava ainda distante de um Estado republicano. A Igreja
Católica, embora legalmente não estivesse
habilitada a isso, conseguia interferir decisivamente
na vida política, e o fazia sem rodeios.
O pai de Waldir, José Pires de
Souza, um cristão devotado, indignou-se com a
atitude da hierarquia católica. E quando Waldir
foi a Amargosa, a terra onde ele viveu desde a mais
tenra infância – nascera em Acajutiba, mas
fora para Amargosa nos primeiros anos de vida –,
seu Zeca não se omitiu. Era o dia 30 de setembro
de 1962. Fez um discurso, e não o fez de improviso.
Até hoje é possível ler o manuscrito,
em letra bem cuidada, guardada num arquivo pessoal de
Waldir. É um texto que evidencia a formação
sólida de um cristão e de um homem capaz
de tomar posição política.
Ela expressa a visão de um homem
cheio de valores morais, capaz de, com sua simplicidade,
fazer uma impressionante caracterização
da época e do papel político de Waldir
Pires. Ele defende Waldir da insinuação
feita pelos adversários de que estaria usando
do argumento de que era filho de Amargosa, quando se
sabia que ele havia nascido em Acajutiba. Mostra a formação
cristã que o filho recebeu, os valores da família
que ele dirigia, o brilhantismo do filho desde o ginásio,
a trajetória política cheia de êxitos
e marcada por compromissos com o povo. Combate a seu
modo o anticomunismo e afirma que a Igreja apoiaria
os dois candidatos, o que efetivamente não ocorreu
porque o Cardeal D. Augusto da Silva não permitiu,
como já se viu.
Jornalista, escritor, autor de Lamarca,
o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o
inimigo número um da ditadura militar; As asas
invisíveis do padre Renzo; Galeria F –
Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II.