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Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento (XXXVII)

Waldir, no decorrer do processo eleitoral de 1962, já estigmatizado em decorrência do apoio que os comunistas lhe emprestavam, foi chamado pelo Cardeal Dom Augusto da Silva...

Emiliano José

Waldir, no decorrer do processo eleitoral de 1962, já estigmatizado em decorrência do apoio que os comunistas lhe emprestavam, foi chamado pelo Cardeal Dom Augusto da Silva. O diálogo entre os dois não foi ameno. Depois dos rapapés, dos cumprimentos formais, o cardeal foi direto ao ponto:

- O senhor está recebendo apoio dos comunistas?
- Estou – respondeu Waldir sem qualquer vacilação, respeitosamente, mas sem nenhuma atitude reverencial.
- O senhor não pode receber esse apoio – disse o sisudo cardeal.
- Como não posso? – reagiu Waldir.
- O senhor é católico? – perguntou o cardeal.
- Claro que sou – garantiu Waldir.
- Então não pode receber esse apoio.

Waldir, então, resolveu explicar filosófica e politicamente sua posição. Afinal, argumentou com o cardeal, vivemos sob um Estado laico, e tenho o direito de receber o apoio de quem quer que seja. Sabe-se, é de domínio público, explicou “que não sou comunista”. Mais: era católico convicto. Explicou que, do ponto de vista político e pelos valores que defendia, tinha a firme convicção de que só há um caminho para se chegar à igualdade – o da liberdade. E, explicava Waldir, entre os comunistas há uma outra visão, e nesta visão a liberdade é suprimida na tentativa de se chegar à igualdade. Apesar disso, no entanto, “não posso e não vou recusar o apoio dos comunistas”. Corajosamente acrescentou: “fiz minha vida política toda em aliança com os comunistas”.

O diálogo prosseguiu, tenso.

- Se o senhor não recusar esse apoio, vou baixar uma instrução recomendando que os católicos não votem no senhor.
- Lamento, mas eu não recusarei.

Waldir, naquele diálogo, revisitava mentalmente o que fora sua formação. Quando foi cursar o ginásio em Nazaré, começou, ainda muito jovem, a sua militância política. Sua consciência foi alertada pelos ataques dos submarinos alemães ao Atlântico Sul. As primeiras movimentações políticas giraram em torno da defesa da entrada do Brasil na guerra contra o fascismo. Ali, então, desenvolvia-se uma esperança profunda na democracia, a convicção de que o processo democrático é que poderia levar a humanidade à sua libertação de tantas estruturas injustas.

O pai de Waldir, José Pires, no decorrer da campanha, com a autoridade de homem profundamente religioso, intimamente ligado à Igreja Católica, não se conformava com a posição de alguns setores da Igreja Católica e que depois vai se tornar uma posição oficial da hierarquia. No pronunciamento que fez em Amargosa, lembrava que “sem fundamento honesto e sincero, arma-se, nesta campanha política, o velho processo, já surrado, porque repetido e, por isso mesmo, já desmoralizado nas campanhas anteriores”.

Um candidato, se apoiado pelos comunistas, passa a ser apresentado pelos adversários também como comunista. Pires desenvolve o raciocínio com elementos históricos. Lembra o apoio dos comunistas ao candidato a governador da Bahia, Otávio Mangabeira. Ou aos candidatos a presidente Juscelino Kubitschek e Lott. E tal apoio não transformou Juscelino ou Lott em comunistas. Por que Waldir se transformaria?

Vai atrás de outros exemplos, agora da ligação de Waldir com a Igreja Católica. Em junho de 1955, realizou-se o Congresso Eucarístico em Amargosa, com a presença do cardeal Dom Augusto da Silva e de mais seis bispos. Ali preparava-se o Congresso Eucarístico Internacional.

No encerramento do Congresso, que contou com a presença do governador Antonio Balbino, Waldir Pires, já deputado e líder do governo na Assembléia Legislativa, foi o orador a fazer a saudação ao Papa Pio XII, representado naquele momento pelo cardeal Dom Augusto da Silva.

Na saudação, Waldir demonstrou, como diz seu pai, “largo e profundo conhecimento da doutrina cristã”. Citou trechos, mensagens e conceitos inspirados em São Paulo, São Tomás de Aquino, Santo Agostinho e Santo Ambrósio, entre outros. E naquela ocasião recebeu um profundo reconhecimento por parte de todas as autoridades religiosas presentes, inclusive do cardeal.

José Pires que, ao falar nessa ocasião em Amargosa, ainda acreditava que a Igreja da qual participava não iria recomendar o voto apenas em Lomanto Júnior e propor que a população votasse contra Waldir, revoltou-se ainda mais quando soube da decisão final. E teve a ousadia, a coragem de divulgar uma carta aberta ao povo da Bahia, insurgindo-se contra aquela atitude da Igreja Católica.

Aquele embate político, travestido de problema religioso, evidenciava, como diz o professor Paulo Fábio Dantas Neto, que “não se tolerariam idéias comunistas, por periféricas e coadjuvantes que fossem, nem participação democrática de grupos sociais estranhos à tradição da cordialidade bahiana”. Isso está à página 176 de Tradição, Autocracia e Carisma – A política de Antonio Carlos Magalhães na modernização da Bahia (1954-1974), livro de que já nos valemos.

Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar; As asas invisíveis do padre Renzo; Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II.

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
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Capítulo 35
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Capítulo 34
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Capítulo 33
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Capítulo 32
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Capítulo 31
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Capítulo 30
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Capítulo 8
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Capítulo 7
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Capítulo 6
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Capítulo 5
Waldir Pires
Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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