Waldir, no decorrer do processo
eleitoral de 1962, já estigmatizado em decorrência
do apoio que os comunistas lhe emprestavam, foi chamado
pelo Cardeal Dom Augusto da Silva...
Emiliano José
Waldir, no decorrer do processo eleitoral
de 1962, já estigmatizado em decorrência
do apoio que os comunistas lhe emprestavam, foi chamado
pelo Cardeal Dom Augusto da Silva. O diálogo
entre os dois não foi ameno. Depois dos rapapés,
dos cumprimentos formais, o cardeal foi direto ao ponto:
- O senhor está recebendo apoio
dos comunistas?
- Estou – respondeu Waldir sem qualquer vacilação,
respeitosamente, mas sem nenhuma atitude reverencial.
- O senhor não pode receber esse apoio –
disse o sisudo cardeal.
- Como não posso? – reagiu Waldir.
- O senhor é católico? – perguntou
o cardeal.
- Claro que sou – garantiu Waldir.
- Então não pode receber esse apoio.
Waldir, então, resolveu explicar
filosófica e politicamente sua posição.
Afinal, argumentou com o cardeal, vivemos sob um Estado
laico, e tenho o direito de receber o apoio de quem
quer que seja. Sabe-se, é de domínio público,
explicou “que não sou comunista”.
Mais: era católico convicto. Explicou que, do
ponto de vista político e pelos valores que defendia,
tinha a firme convicção de que só
há um caminho para se chegar à igualdade
– o da liberdade. E, explicava Waldir, entre os
comunistas há uma outra visão, e nesta
visão a liberdade é suprimida na tentativa
de se chegar à igualdade. Apesar disso, no entanto,
“não posso e não vou recusar o apoio
dos comunistas”. Corajosamente acrescentou: “fiz
minha vida política toda em aliança com
os comunistas”.
O diálogo prosseguiu, tenso.
- Se o senhor não recusar esse
apoio, vou baixar uma instrução recomendando
que os católicos não votem no senhor.
- Lamento, mas eu não recusarei.
Waldir, naquele diálogo, revisitava
mentalmente o que fora sua formação. Quando
foi cursar o ginásio em Nazaré, começou,
ainda muito jovem, a sua militância política.
Sua consciência foi alertada pelos ataques dos
submarinos alemães ao Atlântico Sul. As
primeiras movimentações políticas
giraram em torno da defesa da entrada do Brasil na guerra
contra o fascismo. Ali, então, desenvolvia-se
uma esperança profunda na democracia, a convicção
de que o processo democrático é que poderia
levar a humanidade à sua libertação
de tantas estruturas injustas.
O pai de Waldir, José Pires,
no decorrer da campanha, com a autoridade de homem profundamente
religioso, intimamente ligado à Igreja Católica,
não se conformava com a posição
de alguns setores da Igreja Católica e que depois
vai se tornar uma posição oficial da hierarquia.
No pronunciamento que fez em Amargosa, lembrava que
“sem fundamento honesto e sincero, arma-se, nesta
campanha política, o velho processo, já
surrado, porque repetido e, por isso mesmo, já
desmoralizado nas campanhas anteriores”.
Um candidato, se apoiado pelos comunistas,
passa a ser apresentado pelos adversários também
como comunista. Pires desenvolve o raciocínio
com elementos históricos. Lembra o apoio dos
comunistas ao candidato a governador da Bahia, Otávio
Mangabeira. Ou aos candidatos a presidente Juscelino
Kubitschek e Lott. E tal apoio não transformou
Juscelino ou Lott em comunistas. Por que Waldir se transformaria?
Vai atrás de outros exemplos,
agora da ligação de Waldir com a Igreja
Católica. Em junho de 1955, realizou-se o Congresso
Eucarístico em Amargosa, com a presença
do cardeal Dom Augusto da Silva e de mais seis bispos.
Ali preparava-se o Congresso Eucarístico Internacional.
No encerramento do Congresso, que contou
com a presença do governador Antonio Balbino,
Waldir Pires, já deputado e líder do governo
na Assembléia Legislativa, foi o orador a fazer
a saudação ao Papa Pio XII, representado
naquele momento pelo cardeal Dom Augusto da Silva.
Na saudação, Waldir demonstrou,
como diz seu pai, “largo e profundo conhecimento
da doutrina cristã”. Citou trechos, mensagens
e conceitos inspirados em São Paulo, São
Tomás de Aquino, Santo Agostinho e Santo Ambrósio,
entre outros. E naquela ocasião recebeu um profundo
reconhecimento por parte de todas as autoridades religiosas
presentes, inclusive do cardeal.
José Pires que, ao falar nessa
ocasião em Amargosa, ainda acreditava que a Igreja
da qual participava não iria recomendar o voto
apenas em Lomanto Júnior e propor que a população
votasse contra Waldir, revoltou-se ainda mais quando
soube da decisão final. E teve a ousadia, a coragem
de divulgar uma carta aberta ao povo da Bahia, insurgindo-se
contra aquela atitude da Igreja Católica.
Aquele embate político, travestido
de problema religioso, evidenciava, como diz o professor
Paulo Fábio Dantas Neto, que “não
se tolerariam idéias comunistas, por periféricas
e coadjuvantes que fossem, nem participação
democrática de grupos sociais estranhos à
tradição da cordialidade bahiana”.
Isso está à página 176 de Tradição,
Autocracia e Carisma – A política de Antonio
Carlos Magalhães na modernização
da Bahia (1954-1974), livro de que já nos valemos.
Jornalista, escritor, autor de Lamarca,
o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o
inimigo número um da ditadura militar; As asas
invisíveis do padre Renzo; Galeria F –
Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II.