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F - Lembranças do Mar Cinzento (V)
Publicado em A TARDE em 02/08/2001
Emiliano José
Três armas. Era tudo o que tinham. Uma espingarda de caça, um Rossi 22
e um outro revólver, calibre 32. Com este arsenal, concluíram: não dava
para fazer o enfrentamento armado do golpe de 64. A resistência, assim,
não seria imediata. Era melhor procurar esconder-se e ver então o que
fazer. A essa conclusão chegaram vários militantes políticos que tinham
ido a Feira de Santana, cujo prefeito, Francisco Pinto, era o dono da
espingarda de caça, e que também tinha a disposição de resistir.
Ele próprio, Chico Pinto – como era mais conhecido –, disse que a qualquer
hora podia ser preso e que as condições de resistência eram precárias.
A casa de Chico estava repleta de gente, um burburinho intenso naquela
tarde quente.
O plano dos que saíram de Salvador e que naquele 1º de abril de 1964 conversavam
com Chico era ousado. Alguns tinham feito o CPOR – Centro de Preparação
de Oficiais da Reserva, do Exército – e levavam fardas de oficiais com
a pretensão de, fardados, tomarem o Quartel da Polícia Militar naquela
cidade.
Em carros diferentes, seguiram para Feira de Santana, saindo de Salvador
na manhã do dia 1º, Péricles de Souza, Sérgio Gaudenzi, Haroldo Lima,
Raimundo Mendes, entre muitos outros. Na noite anterior, haviam recebido
a informação das primeiras e decisivas movimentações golpistas e concluíram
que Feira de Santana podia ser o centro da resistência na Bahia.
Imaginavam que podiam organizar a luta contra o golpe no Estado de modo
a fortalecer principalmente os governadores Miguel Arraes, de Pernambuco,
e Leonel Brizola, do Rio Grande do Sul, que deveriam liderar o movimento
contra os golpistas. Chico Pinto era conhecido por suas posições progressistas,
por sua coragem e podia contribuir para a consolidação da idéia. Quando
chegaram a Feira, souberam, pelo próprio Chico Pinto, que o Exército,
confiando pouco em Lomanto Júnior, governador do Estado, havia assumido
o controle do Quartel da PM em Feira de Santana. Não havia mais a possibilidade
de tomá-lo.
E, ao contar as armas, perceberam que o arsenal não era suficiente. Chico
Pinto ficaria em seu posto de prefeito, sabendo que mais hora menos hora
viriam prendê-lo, e o restante buscaria refúgio em outros municípios.
Esse relato é de Péricles de Souza, hoje um raro tipo de militante, muito
mais afeito à sombra do que às luzes – sempre dirigente, “capa preta”,
como se diz no jargão de esquerda.
Atualmente dirigente do Partido Comunista do Brasil – PCdoB, Péricles
lembra-se do dia 31 de março de 1964 com nitidez. Recorda-se de que estava
na Bahia o vice-presidente da UNE, Duarte Lago Brasil Pacheco Pereira
– registre-se que o presidente era o atual ministro da Saúde, José Serra.
Como existiam muitos rumores sobre a possibilidade de golpe, Duarte, quando
saiu do Sul, combinou com seus companheiros que o avisassem por código
acaso houvesse algo mais concreto. E, no dia 31, recebeu a comunicação:
o golpe estava em marcha. Não era mais apenas um rumor.
Péricles, Duarte, Jorge Leal e Haroldo Lima, entre outros – todos os três
da Ação Popular, organização política saída do ventre da Igreja Católica,
da Juventude Universitária Católica mais precisamente – seguiram, num
jipe de propriedade de Haroldo para uma assembléia que se realizava na
Federação dos Trabalhadores na Indústria (FTI), cuja sede ficava na Rua
Guedes Brito, no Centro de Salvador. Lá encontraram dezenas de trabalhadores,
muitos sindicalistas reunidos num encontro de rotina. Muita gente do PCB
– Partido Comunista Brasileiro, a força hegemônica da esquerda naquele
momento.
Duarte pediu a palavra e informou sobre o golpe. Os dirigentes do PCB
presentes à reunião contestaram. “Nós não temos essa informação”, disse
um deles. E como o PCB tinha força, a assembléia, longe de assumir a gravidade
do novo quadro, continuou a desenvolver-se como se nada estivesse ocorrendo
de anormal. Péricles e os demais companheiros vinculados à AP resolveram
então sair e adotar providências políticas diante do fato novo.
Reuniram-se na casa de Jorge Leal. Muitos militantes presentes, entre
os quais, Jaci Célia Franca, Solange Lima (mulher de Haroldo Lima), Ricardo
Angelim, Sérgio Gaudenzi, Rubem Ivo, Fernando Schmidt, entre tantos outros,
além, claro, de Haroldo, Duarte, do próprio Jorge e de Haroldo. No plano
de resistência, além da tomada do Quartel de Feira de Santana, figurava
também a idéia de uma ampla mobilização dos sindicatos de trabalhadores
rurais espalhados pelo interior para enfrentar os golpistas. Realizar
assembléias, convencer os camponeses da gravidade da situação e organizar
a luta. Péricles ficou como o principal responsável por essa tarefa. No
dia seguinte...
Emiliano José
é jornalista, ex-preso político entre 1970-1974.
emiljose@uol.com.br (site: www.emilianojose.com.br)
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