Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento (VI)
Publicado em A TARDE em 23/08/2001
Emiliano José
No capítulo anterior, contávamos da tentativa frustrada de resistência ao golpe
militar de 1964 a partir de Feira de Santana, cujo prefeito era Francisco Pinto.
Frustrada porque o próprio Chico Pinto avisou que podia ser preso a qualquer
momento. E porque o Batalhão da PM do município já estava sob o controle do
Exército, que não confiava em Lomanto Júnior. A idéia de tomá-lo de assalto,
portanto, morreu no nascedouro. Péricles de Souza, que é sobre quem estamos
falando nesse momento, resolve, juntamente com seus companheiros, entre os quais
Sérgio Gaudenzi, seguir viagem.
Passariam por Cruz das Almas, pegariam Amílcar Baiardi, que era o presidente
do Diretório de Agronomia, e veriam o que fazer. Péricles ainda imaginava a
possibilidade de dar seqüência à segunda parte do plano: mobilizar os sindicatos
de trabalhadores rurais espalhados pelo interior para resistirem ao golpe. Ao
cruzarem a Rio-Bahia, já notaram a movimentação de tropas. Em Cruz das Almas
não encontraram Baiard.
No dia 2 de abril, dormiram em Cachoeira – Péricles, Sérgio Gaudenzi e Raimundo
Mendes. Chegaram na boca da noite do mesmo dia em Amargosa. Procuraram o bispo,
D. Florêncio Vieira.
Este, cheio de medo, não os hospedou, o que fazia em outra ocasiões. Informou-os
de que havia sinais de repressão na cidade. Sentiram que a barra estava pesada
de fato. Resolveram não ir a São Miguel das Matas, onde havia um sindicato forte
de trabalhadores rurais.
A partir daí, decidiu-se de modo mais claro que todo o esforço devia concentrar-se
num plano de fuga. A resistência ficaria para uma ocasião mais propícia. Foram
para uma fazenda do pai de Raimundo Mendes, em Itaberaba, e disso já falamos
no primeiro capítulo da nova série dessa história sobre a repressão política
na Bahia. Ficaram entre essa fazenda e uma outra, também da família de Raimundo
Mendes, em Rui Barbosa, durante uns quatro ou cinco dias, quando resolveram
voltar para Salvador.
Péricles, logo que chegou, soube que um grupo armado havia invadido a casa de
seus pais, na Ladeira de Independência, à sua procura. O pai, Agenor de Souza,
disse aos policiais que não sabia onde o filho se encontrava. Depois, disso,
a polícia, por um bom tempo, não se interessou mais por Péricles.
A sede do Movimento de Educação de Base – MEB –, situada na Rua Inácio Tosta,
em Nazaré, foi invadida. Péricles sempre foi muito ligado ao MEB. E quem comandou
a invasão foi o coronel Durval Carneiro, da Polícia Militar, informação que
não teria maior importância não fosse ele o pai de Carmilce Miriam Carneiro
de Souza, com quem Péricles já era casado e com quem teve os filhos Saulo, Mariana
e Jorge. Mais tarde, quando confrontado com esse fato, o coronel argumentava
que fizera isso para proteger Péricles e a filha.
Péricles resolveu fazer vestibular de história na Universidade Católica, em
1965. Passou. Em 1996, eleito presidente do Centro Acadêmico São Tomás de Aquino,
de sua escola, foi um dos dirigentes da campanha do voto nulo na Bahia, da qual
a AP foi uma das organizações dirigentes.
Já então a AP na Bahia pensava no caminho da luta armada para enfrentar a ditadura.
Alguns pequenos grupos da organização foram tentando se especializar em ações
armadas. Melhor: a AP definiu que teria duas estruturas: uma voltada para ações
legais e uma outra, muito mais clandestina, cujos militantes se preparariam
técnica, militar e politicamente para iniciativas armadas.
Algumas ações foram pensadas. Uma delas, em 1966: queimar as urnas que estariam
no subsolo do Fórum Ruy Barbosa antes que fossem apuradas. Não chegou a ser
efetivada. A inexperiência não deixou que a imaginação, bastante rica, se desdobrasse
em ações concretas, apesar de contatos com alguns quadros políticos mais experientes
treinados em Cuba, inclusive com Paulo Wright, que havia voltado da ilha em
1967. Quando a AP nacional pensou no caminho da luta armada, na Bahia, já existia
a convicção de que não havia outra saída para combater a ditadura.
Péricles saiu da universidade em 1968, por determinação da AP. A organização
considerava que, sendo dirigente, ele não devia continuar a se envolver tão
abertamente nas lutas de massa legais. Deveria ser preservado para as atividades
de natureza clandestina, que se tornaram a marca central do trabalho dele durante
a maior parte de sua vida. Isso é que talvez o tenha acostumado a ser tão discreto,
mesmo trabalhando sob a legalidade, como hoje. Fátima Gaudenzi assumiu a direção
do centro acadêmico e então...
Emiliano José
é jornalista, ex-preso político entre 1970-1974 e autor, entre outros livros
de Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento e de Marighella, o inimigo número
um da ditadura militar (ambos da Editora Casa Amarela).emiljose@uol.com.br (www.emilianojose.com.br)
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