| 06/03/2002
Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento (XIV)
Publicado em A TARDE em 06/03/2002
Emiliano José
No capítulo anterior, falávamos da ação repressiva do golpe militar de
1964. Mas é importante dizer que a quartelada era também uma oportunidade
para a vindita. Os Gusmão, derrotados pela coligação liderada por Pedral
Sampaio, começaram desde cedo a luta. Na Câmara Municipal, no trabalho
pró-ditadura e anti-Pedral, destacavam-se principalmente os vereadores
Gil Moreira e Orlando de Oliveira Flores – os dois da direita do PTB.
Como diria Ruy Medeiros, para os derrotados de 1962, chegara a hora da
desforra. Juntavam-se a fome com a vontade de comer. A disposição dos
militares em reprimir. A vontade dos derrotados de recuperar o poder e
esmagar os que haviam ganhado as eleições em 1962, depois de décadas de
domínio da família Gusmão.
Gerson Gusmão Sales havia sido prefeito na primeira metade da década de
50. Fez o sucessor, Edvaldo Flores. E voltou à prefeitura em 1958, derrotando
Pedral Sampaio, um nome em ascensão. E em 1962, Gerson Gusmão não faz
sucessor. Pedral, pelo PSD, torna-se prefeito, derrotando Jesus Gomes
dos Santos, candidato de Gusmão, por uma diferença de 2.384 votos.
Pedral era a expressão de transformações profundas por que passava Conquista.
Já não era mais uma cidade marcada exclusivamente pelo latifúndio. O urbano
já predominava, o comerciante crescia, cidadãos de outros municípios chegavam
e se afirmavam, e Conquista ia consolidando-se como um pólo regional.
Com a diversificação econômica e novos agentes sociais, a história começava
a mudar.
Com a vitória de Pedral, um passo adiante das forças progressistas, intensificavam-se
as discussões em torno das chamadas reformas de base, particularmente
a reforma agrária. Na década de 60, em Conquista, “os bancários realizaram
greve. Os pedreiros fundaram seu sindicato. Os estudantes organizaram
seus grêmios e passou a haver certo movimento estudantil”, explica Ruy
Medeiros.
Os conservadores reagiam, especialmente diante da idéia da reforma agrária.
Os latifundiários organizavam-se. Ruy Medeiros registra a realização de
uma grande reunião de fazendeiros no Cine Conquista, cujo principal orador
foi Íris Silveira, que chegara a ser prefeito de Caatiba, quando da emancipação
do povoado em 1960. Bradavam contra Jango Goulart e suas propostas reformistas.
E, naturalmente, contra os comunistas.
O golpe estimulou o reacionarismo do jornal “O Sertanejo”, dirigido por
Pedro Lopes, e dos vereadores da direita. Além do dr. Gil Moreira e de
Orlando Flores, destacavam-se, na agitação a favor da ditadura, os vereadores
Misael Marcílio e Virgílio Ferraz. Queriam o afastamento de Pedral e de
vereadores ligados a ele, como Péricles Gusmão Régis, que será morto,
como revelamos no capítulo anterior.
A direita usava uma expressão curiosa, segundo a lembrança de Medeiros,
para defender a repressão aos seguidores de Pedral e à toda a esquerda:
“Era necessário incorporar Vitória da Conquista aos fatos nacionais recentes”.
Ou seja, para ser claro, como diz Ruy Medeiros, o golpe devia agir mais
intensamente no município.
Com essa visão, os vereadores pró-ditadura fizeram aprovar na Câmara Municipal
uma proposição convidando a 6ªRegião Militar para uma visita ao município
“para apuração de fatos”, sem especificar a que fatos se referiam. E então
desembarcou na cidade, no dia 5 de maio de 1964, a força-tarefa repressiva
comandada pelo capitão Antônio Bendochi Alves Filho, com seu ônibus do
terror, estacionado na Praça Rio Branco, no centro da cidade. A delação,
que cresce nesses momentos, economizou esforços do capitão. No dia 6,
o ônibus começou a encher.
Dentre tantos, de acordo com as pesquisas de Ruy Medeiros, foram presos
Alcides Barbosa Araújo, presidente do Sindicato dos Comerciários; Altino
Pereira, presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil;
Aníbal Lopes Viana, jornalista e suplente de vereador; Atenor Rodrigues
Lima, comerciário; Edvaldo Silva, presidente da Associação de Panificadores;
Érico Gonçalves Aguiar, agricultor; Franklin Ferraz Neto, presidente da
Junta de Conciliação e Julgamento de Conquista; Galdino Lourenço, motorista
de táxi, e Gilson Moura e Silva, radialista.
Nesses primeiros dias, tendo o ônibus da Praça Rio Branco como quartel-general
e centro de triagem, foram presos, ainda, Hemetério Alves Pereira, livreiro
e correspondente do jornal “Novos Rumos”; Hugo de...
Emiliano José
é jornalista, ex-preso político entre 1970-1974 e autor, entre outros
livros de Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento, Lamarca, o Capitão da
Guerilha e Marighella, o inimigo número um da ditadura militar (ambos
da Editora Casa Amarela)
emiljose@uol.com.br (site: www.emilianojose.com.br)
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