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Lembranças
do mar cinzento (I)
Getúlio encostou na portinhola da cela, e perguntou:
- Está faltando alguma coisa?
Dei uma olhada rápida em torno. A lâmpada fraca, a luz mortiça, quase triste,
não me impediam de ver tudo: uma cama, a privada no canto, que mais poderia
querer?
- Não, não está faltando nada.
As necessidades humanas dependem das circunstâncias. Eu acabara de chegar do
Quartel do Barbalho. Junto comigo vieram Wellington, Dirceu, Theodomiro e Paulo
Pontes. Quando fomos retirados de nossas celas, no Barbalho, não tínhamos idéia
do nosso destino. Era sempre assim: eles gritavam os nossos nomes e lá íamos
nós sem saber o que nos esperava. Desta vez, a surpresa foi boa. È que ninguém
se engane: às vezes, naquela situação, uma simples mudança de local podia ser
uma boa notícia. Ou muito ruim. Ir para a Penitenciária Lemos de Brito. naquele
janeiro de 1971, era quase uma felicidade. Não, não era quase. Quando cheguei
à Lemos de Brito, estava feliz.
Para que o leitor não se quede estupefato, é preciso voltar rapidamente no tempo.
Dizer, antes de fazer esse retorno, que estou apenas começando a contar uma
história, que se revelará em capítulos, aqui em A TARDE.
Em 1970, a ditadura estava a toda. Era o pós-AI 5. Era Médici. Era o terror.
Os generais se julgavam donos da vida e da morte. Em outubro, Theodomiro e Paulo
Pontes haviam sido presos. No dia 23 de novembro, seria a minha vez. Uma das
pessoas que estavam reunidas comigo na praia da Ribeira, em Salvador, já estava
identificada, e um policial nos seguia. Quando a reunião acabou, e eu estava
subindo o primeiro degrau do ônibus, fui agarrado violentamente. Consegui escapar,
mas terminei dominado logo adiante por uma equipe de homens da Polícia Federal.
Já cheguei à sede da Polícia Federal, nas proximidades do Mercado Modelo, sem
camisa e ensangüentado. Havia apanhado um bocado.
Envolvido pelo espírito dimitroviano, quando de frente com o coronel Luiz Arthur
de Carvalho, então superintendente da Polícia Federal, perguntei, firme:
- Por que estou preso?
O coronel, olhando por cima dos óculos, respondeu sem pestanejar:
- Daqui a pouco, você vai saber. Na porrada!
Eu era outro: Pedro Luiz Vian, não Emiliano. Nome falso, carteira de identidade
falsa. A cabeça era um turbilhão. Sabia que a tortura era inevitável. Preparava-me
para o pior. Sorte, se a palavra cabe nessas situações, é que ninguém tinha
caído comigo. Estava só. A responsabilidade era exclusivamente minha, mas também
não haveria depoimentos de companheiros para serem confrontados com meu. Eu
sabia das prisões de Benjamin e de Mara, que eram de Ação Popular, como eu,
mas os torturadores não chegaram a saber disso.
E o coronel cumpriu o que prometeu. Eu fui preso por volta do meio-dia, e lá
pelas quatro, cinco horas da tarde, uma equipe de policiais me levou para o
Quartel do Barbalho. Fui colocado numa sala grande, onde havia um encerado,
desses de caminhão, que, penso, servia como cenário de lutas. É que o capitão
Hemetério Chaves Filho, comandante da Polícia do Exército que funcionava no
Barbalho, e um torturador sádico, gostava muito de lutas marciais. Era íntimo
dos irmãos Denilson e Dalmar Caribé, ambos então destacados mestres de caratê.
Dalmar era cabo do Exército, e no segundo semestre de 1971 vai se tornar mais
conhecido pelo fato de ter participado do assassinato de Carlos Lamarca, no
interior da Bahia.
Pouco depois, tive os olhos vendados com um esparadrapo largo, e este era um
sinal claro que a ameaça do coronel estava prestes a se concretizar. Mal a noite
chegou, e eu fui levado. Queriam informações. Eu só respondia "não sei". Não
digo nem que o fazia por excesso de coragem. Era apenas uma atitude determinada.
Eu não podia revelar nada. A lealdade havia sido assimilada com a vida e sedimentada
na luta revolucionária, que eu iniciara em 1968, a partir de São Paulo, no movimento
estudantil, militante desde então da Ação Popular, já uma organização marxista.
A obrigação do revolucionário era preservar os companheiros, e ponto final.
Eu nem tinha certeza de que seria capaz de manter esse princípio. Tinha a convicção,
no entanto, de que tentaria, no limite máximo de minhas forças.
As pancadas, o sangue correndo, nada disso me apavorava. Foi mais difícil quando
abriram o tanque d'água e me jogaram várias vezes dentro. E o pior quando, vendo
que não falava, tiraram toda a minha roupa e me colocaram no pau-de-arara. Há
situações-limite da experiência humana para as quais as palavras são insuficientes.
Assim é com a tortura. É quase impossível reproduzir o sofrimento que ela provoca
e a tempestade que ela produz na mente: você é levado para o mais profundo de
sua alma. É o momento do mergulho solitário dentro de si mesmo. Do balanço de
suas convicções.
Eu fui como que me testando. Como se enfrentasse uma prova de obstáculos. Antes
de chegar ao pau-de-arara, eu pensava comigo, quase que com tranqüilidade: "Eu
agüento". Quando, nu, colocado no pau-de-arara, a profundidade do suplício não
me fez mudar de posição: "Continuo agüentando". Arrebentado, fui levado de maca
para uma cela. Como precisaram deslocar Paulo Pontes para outra cela para que
eu entrasse, tiraram a venda de esparadrapo, e perguntaram a ele e a Theodomiro
se me conheciam. Eles disseram que não, e isso era verdadeiro.
Quando no dia seguinte, começaram os choques elétricos, que superavam em sofrimento
tudo o que tinha ocorrido anteriormente, não mudei de posição: continuava disposto
a nada dizer. Era Pedro Luiz Vian, não tinha nada a ver com nada, não conhecia
ninguém em Salvador, e não tinha nenhum endereço na cidade. Ponto final. O comando
direto da tortura era do capitão Hemetério Chaves Filho. Além dele, participava,
entre outros, o capitão Gildo Ribeiro. Eu os via por uma pequena fresta do esparadrapo.
O inferno era ali, no Quartel do Barbalho...
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