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Lembranças
do mar cinzento (XXIV)
Vivo ou morto!
Pouco importava. Queriam botar as mãos nele. Corriam as primeiras horas do golpe
militar de 1964. Os golpistas tinham a informação de que ele havia feito um
curso de treinamento militar na China. E que lá obtivera a patente de coronel.
A casa do pai, em Senhor do Bonfim, foi invadida. O primo, Hirton Jambeiro,
foi preso em Salvador, espancado, mas ele não sabia onde o procurado se encontrava.
Nosso personagem chama-se Othon Jambeiro. É atualmente respeitado professor
de Comunicação e vice-reitor da Universidade Federal da Bahia. Passou por maus
bocados nos primeiros momentos da quartelada de 1º de abril.
No primeiro dia, 1º de abril, ele e alguns companheiros, sem ter a exata dimensão
do golpe, meteram mãos à obra no apartamento onde morava, na Rua Oscar Carrascosa,
na Barra Avenida. Com um mimeógrafo e máquinas de escrever, produziram panfletos
e saíram às ruas para manifestar-se contra a subversão. No dia 2, a distância,
chegando em casa, viu dois carros de polícia na porta. Deu meia volta e não
voltou mais lá. Refugiou-se no apartamento de um amigo, Sílvio Guimarães, que
não tinha qualquer militância política, na Ladeira dos Galés, próximo do Hospital
Militar.
Ele e Guimarães trocaram idéias, e a primeira proposta foi a de ir para a fazenda
do pai de Guimarães, em Bonfim. Quando já estavam com o plano de fuga pronto,
tiveram a informação de que a propriedade já tinha sido toda vasculhada, à procura
de Jambeiro. O cerco começou a apertar. Hirton Jambeiro continuava preso. As
informações não eram boas. O apartamento da Oscar Carrascosa havia sido virado
de cabeça para baixo. De todos os lugares, recebiam notícias de que o procuravam.
Concluíram, os dois, que o apartamento da Ladeira dos Galés não oferecia nenhuma
segurança. Alguns amigos que já haviam morado nele tinham sido localizados pela
polícia. Todo o receio concentrava-se no “vivo ou morto!”. Jambeiro lembra-se
da conversa demorada com Sílvio Guimarães. Este não era um político. Só analisava
pelo ângulo da segurança. Mas era corajoso, leal, brigador. “O problema dele
era a minha vida”, recorda Jambeiro. Chegaram a uma conclusão: as chances de
escapar eram mínimas.
Afinal, o PCB, ao qual Jambeiro pertencia, estava disperso, os principais quadros
escondidos. Não havia possibilidade de uma articulação maior. Analisavam daqui,
dali, imaginavam várias alternativas, e todas eram precárias. Chegaram a pensar
na casa de Edson Zeferino, um amigo de infância de Bonfim, que não tinha nenhuma
militância política, mas souberam que estava mapeada pela repressão política.
A polícia já havia estado lá perguntando por Jambeiro.
Concluíram, então, Jambeiro e Sílvio, e era uma conclusão dificílima, que o
melhor para Jambeiro era ser preso pelo Exército. Entenda-se: naqueles primeiros
instantes do golpe, o capitão Etiene Falcão comandava a caça aos comunistas.
E que não se assustem os mais novos: era mesmo caça aos comunistas, e nessa
caçada tudo podia acontecer, principalmente se à frente estivesse o capitão
Etiene. E este, já se sabia, estava no encalço de Jambeiro.
Se naquelas circunstâncias o melhor era ser preso pelo Exército, então tratava-se
de tomar as providências para tanto. Aceita a idéia, Jambeiro conversou com
o pai, Martinho Barbosa da Silva, e começaram a tomar iniciativas. Jambeiro
foi à casa de um amigo de sua família, que dizia conhecer um oficial do Exército.
A casa ficava numa travessa da própria Ladeira dos Galés. E nela deu-se o inusitado
encontro com o dito oficial. Jambeiro expôs-lhe a situação. Explicou que o pai
estava sendo perseguido por sua causa, e que a única saída encontrada fora entregar-se
ao Exército. O oficial disse que o acompanharia até o Quartel-General da VI
Região Militar. E o fez, no próprio carro dele.
No Quartel-General, o oficial o conduziu diretamente ao coronel Marino Freire
Dantas, chefe da 2ª Seção da VI Região Militar, contando-lhe todas as circunstâncias:
perseguido, a história do “vivo ou morto”, a caçada, a atitude de evitar ser
preso pela polícia de Etiene Falcão. O chefe da 2ªSeção mandou prender Jambeiro
imediatamente:
– Eu vou telefonar para a Polícia Militar, e você está preso!
Foi fichado, fotografado de todos os lados, e mandado para o Quartel do Barbalho.
Quando chegou, já havia presos. Ele crê que era o dia 4 de abril. No dia 5,
já eram 19 presos espremidos numa única cela. Entre eles, o jornalista José
Gorender, o advogado Walter Filizola, o dirigente sindical dos ferroviários
Ascendino da Silva Bina, várias pessoas da Petrobrás e, na cela vizinha, Mário
Lima, dirigente sindical dos petroleiros, sozinho. Numa outra, também sozinho,
o então deputado estadual Sebastião Nery, eleito em 1962.
Foram 19 dias nos quais as 19 pessoas não saíam da cela, não tomavam banho.
Para satisfazer as necessidades fisiológicas, uma lata de 20 litros. Sem escovar
dente, sem cama. Dormindo no chão, num período chuvoso, num espaço reduzidíssimo.
Quando chovia forte, a água invadia a cela, e os soldados traziam vassouras
para que os presos tirassem a água. Além de tudo, tiveram que conviver com um
doente mental, todos esses dias. Este havia sido preso porque começou a recolher
livros que encontrava pelo meio da rua, e isso indicava que devia ser comunista.
E ele perturbava o tempo todo.
A partir do 20º dia, tiveram direito a um banho de sol e a ir ao banheiro. Foi
um momento de alegria incontida. É difícil imaginar essas situações, a não ser
para quem as viveu. Parece que o sol se abre no meio de uma escuridão tenebrosa.
Jambeiro lembra-se que entrando no banheiro, sentando na latrina, viu pedaços
de jornal, sujos de merda, e começou a ler avidamente cada um daqueles fragmentos.
Por sorte, lá estava, dentre eles, um artigo de Carlos Heitor Cony, desancando
o golpe militar. Jambeiro juntou os pedaços, pouco importando a merda, e os
levou à cela, onde todos, felizes da vida, montaram o que sobrara do artigo
de Cony, e o leram. Havia alguém, fora da prisão, que os defendia. Isso deu-lhes
um alento extraordinário.
A partir desse 20º dia, começaram a acontecer coisas. Sebastião Nery, por exemplo,
passou a receber visitas de suas mulheres. Sim, porque Nery não tinha apenas...
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