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13/08/2004
Deputado da extorsão acusa colega
Em entrevista gravada, Maurício Trindade diz que Antônio Rodrigues (PFL) estava por trás da empresa alvo de extorsão
Marconi de Souza
- Quem é que estava por trás da Nutril?
- Antônio Rodrigues.
- Antônio Rodrigues?
- Antônio Rodrigues. Antônio Rodrigues.
Este é um dos trechos da entrevista que o deputado Maurício Trindade concedeu ao repórter de A TARDE, minutos depois de ouvir a fita em que tentava extorquir o empresário Omar Braga, dono da Nutril Nutrimentos Industriais Ltda, produtora de leite em Contagem, Minas Gerais. O Ministério Público vai ter acesso à fita no inquérito civil que foi instaurado.
A tentativa de extorsão do deputado Maurício Trindade (PSDB) foi denunciada por A TARDE no dia 30 de julho. Ele se defendeu afirmando que, na época, estava investigando a Nutril e tentando "atrair o empresário para a capital baiana". (leia entenda o caso)
Maurício contou, porém, que o deputado Antônio Rodrigues (PFL) era o político que estava por trás da Nutril. Pediu para que o nome do colega não fosse divulgado no dia seguinte em A TARDE, o que foi feito. O conteúdo da gravação vem a público agora, porque a entrevista foi gravada e será entregue ao Ministério Público por assessores da campanha de João Henrique.
Maurício diz na entrevista que Omar Braga esteve em Salvador e se encontrou com ele. "No dia em que eu disse que não ia bater mais nele (Omar), ele saiu de mim e foi conversar com Antônio Rodrigues, que mora no mesmo prédio do prefeito (Antonio Imbassahy), subiu o prédio, voltou, depois me disse: ah...vou fazer a compra. Isso talvez ele, Omar, lhe confirme".
Em outro trecho da conversa, Maurício afirma: "Eu disse: faça sua venda. Ficou meu amigo. Não sei se ele vai confirmar que aquele negócio foi com Antônio Rodrigues. De Antônio Rodrigues para o prefeito, do prefeito para Antônio Rodrigues. Os dois, tudo". (leia trechos da entrevista abaixo e ouça amanhã, na 104 FM, no programa "Se Liga Bocão, às 18 horas).
Publicar tudo - Maurício contou também que estava "abrindo mão" da candidatura de vice por causa da investigação "de corrupção contra o prefeito Imbassahy e a secretária da Saúde Aldely Rocha". O repórter disse que iria publicar tudo, desde que pudesse ouvir os denunciados.
Ele pediu para não colocar o nome de Antônio Rodrigues, porque a única prova que tinha era o testemunho do empresário Omar Braga. "Você pode dizer que tem um deputado extremamente, até compadre de Imbassahy, extremamente ligado ao prefeito".
As acusações contra o prefeito e a secretária da Saúde foram publicadas no dia 31 de julho. Em nota oficial, o prefeito respondeu que "as acusações do deputado são de uma pessoa que não tem credibilidade" e que cita autoridades porque "deseja reduzir a gravidade do seu delito". Acrescenta que a "matéria do jornal, por si só, revela a verdade dos fatos".
Entenda o caso
O então vereador Maurício Trindade, membro da Comissão de Saúde da Câmara Municipal de Salvador, na época no PMN e aliado do prefeito Antonio Imbassahy, mantém em junho de 1997 contato com Omar Braga, proprietário da empresa mineira Nutril, que participava de licitação da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para compra de leite do Programa de Desnutrição da Prefeitura de Salvador, com recursos federais.
O valor da licitação era de R$ 8 milhões e Trindade pediu percentual de 15% para facilitar a vitória da Nutril. O empresário Omar Braga grava a conversa com o vereador. A extorsão não vinga e Trindade, dias depois, acusa irregularidades na licitação que seria feita pelo órgão federal.
A licitação foi suspensa e a Secretaria Municipal da Saúde decidiu fazer o processo licitatório com a verba do governo federal. Essa licitação foi revogada. Maurício diz que, sem licitação, a secretaria comprou o leite da própria Nutril. Em 2001, Maurício rompe com o grupo governista, após fazer várias denúncias contra a secretária da Saúde, Aldely Rocha.
Maurício Trindade elege-se deputado estadual, em 2002, filia-se ao PSDB, em janeiro deste ano e alia-se ao colega João Henrique Carneiro (PDT) para disputar a prefeitura de Salvador na condição de vice na chapa do PDT.
A fita com a gravação vaza para a imprensa e, no dia 30 de julho passado, A TARDE publica o conteúdo, abrindo uma crise na sucessão municipal. Trindade desliga-se do PSDB, após ameaça de expulsão, abrindo mão da condição de disputar a prefeitura como vice de João Henrique.
Ao se defender, na Assembléia Legislativa, o deputado repassa à Casa a responsabilidade de instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o caso de extorsão de que é acusado.
A assessoria jurídica da Assembléia descarta a CPI sob alegação de que não tem competência para apurar fatos ocorridos na Câmara Municipal e que envolvem recursos federais.
Sem Comissão de Ética, a Assembléia não pode instalar o processo de apuração por quebra do decoro parlamentar. O presidente da Casa, Carlos Gaban, sugere a criação de uma comissão especial, lembrando que regimentalmente cabe aos membros da Mesa, e não ao presidente, o pedido de abertura do processo.
A bancada governista quer apenas a investigação do envolvimento do deputado, enquanto a oposição insiste na apuração mais ampla, ouvindo-se todos os envolvidos citados nas denúncias.
O Ministério Público informa que abriu inquérito civil para apurar todas as irregularidades, e que os depoimentos terão início no dia 19 de agosto.
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