
16/05/2004
Legislativo
deixou de legislar
Assembléia
da Bahia aprova tudo do governo e não vota projetos
de lei feitos por deputados. 584 deles estão
mofando

Levi
Vasconcelos
A
Assembléia Legislativa da Bahia transformou-se
numa singularidade nacional. É a única
dos 27 Estados em que os legisladores não legislam.
Por quê? Para não “atrapalhar”
os projetos oriundos do Executivo, tidos como prioritários,
100% aprovados, quase sempre como chegam.
O
deputado Paulo Jackson (PT), um dia, imaginou criar
uma lei obrigando estabelecimentos de ensino a colocarem
detectores de metais nas portarias, para evitar a entrada
de armas de fogo. Morreu em maio de 2000 sem que o projeto
fosse ao menos tocado. Saiu do gabinete dele e encalhou
na Comissão de Constituição e Justiça
(CCJ). Dele mesmo, 12 outros estão lá
num arquivo qualquer.
O
também ex-deputado José de Arimatéia
(PL), um evangélico, apresentou projeto singelo,
daqueles que, se impacto não provocam, mal algum
causam: a obrigatoriedade de todas as bibliotecas públicas
terem um exemplar da Bíblia. Deixou de ser deputado
desde o ano passado sem ver a idéia dele sair
do papel. José Carlos Araújo (PFL), agora
deputado federal, velho aliado do governo, quis instituir
a obrigatoriedade do ensino profissionalizante nos presídios.
O resultado? O de sempre. Gaveta.
MOFANDO - É verdade que muitos desses projetos
são inconstitucionais ou não passam de
besteirol, como o do próprio José de Arimatéia
que obriga a impressão da expressão “Deus
seja louvado” em vales-transporte. Ou outro, de
Eliel Santana (PSC), que cria a cédula de identidade
do idoso, como se idoso tivesse que mostrar documento
específico para provar sua idade. Mas o fato
é que 584 deles mofam nos armários da
Assembléia. Simplesmente, não andam. Nem
as comissões técnicas se pronunciam sobre
constitucionalidade e viabilidade deles, muito menos
o plenário vota.
Embora
a Bahia seja o terceiro Estado do Brasil em população,
a Assembléia Legislativa tem coisas que só
ela entende. Entre as 26 outras similares nacionais,
13 possuem TV Assembléia (emissôras que
transmitem todas as atividades do legislativo), quatro
estão em implantação. Oito têm
senhas de acesso às contas do governo, mas todas,
rigorosamente, votam projetos de autoria dos deputados.
A grande maioria vai para o lixo, diga-se, como o do
deputado cearense Francisco Caminha, que obrigaria a
colocação da frase “Se beber não
dirija, você pode morrer ou matar” nos rótulos
e embalagens das bebidas alcoólicas, mas todos
são apreciados e votados.
Afinal,
o que está acontecendo na Bahia? Deputados governistas
e oposicionistas admitem que o quadro é ruim
e prejudica a imagem do Parlamento, uma instituição
criada também para fiscalizar os atos do Executivo.
Divergem quanto à causa. Os governistas afirmam
que a culpa é do regimento ultrapassado ou da
Constituição estadual, que travariam a
apreciação dos projetos de interesse do
governo caso as iniciativas dos deputados tramitassem
normalmente. Os oposicionistas garantem que é
pura subserviência ao poder Executivo, que aprova
(leia-se homologa) tudo que quer, do jeito que quer.
ROLO COMPRESSOR - Na atual Legislatura chegaram 89 projetos
oriundos do governo, 100% aprovados, em alguns casos,
com episódios hilariantes. O projeto de lei 13.737/04,
enviado no início do ano, tratando do sistema
previdenciário dos servidores públicos,
chegou com um defeito congênito. O Art. 7º
determinava a revogação do parágrafo
2º da lei 7.249/98. O tal parágrafo simplesmente
não existe, a então líder da bancada
do PT, Moema Gramacho, pediu que fosse solicitado o
reenvio do projeto. O presidente da Casa, Carlos Gaban,
(PFL) consultou a Procuradoria Geral do Estado, que
por sua vez disse não haver problema. Foi aprovado
assim mesmo, revogando o nada.
Em
2000, a Assembléia aprovou 566 projetos de lei.
Deles, 490 foram reconhecidos como de utilidade pública
para entidades diversas, um tipo de proposição
que ninguem discute. sessenta e nove eram do governo
e apenas três dos deputados, assim mesmo, dois
deles, de interesse governista, um que criou o município
de Luiz Eduardo Magalhães, e outro da deputada
Sônia Fontes, que desmembrou três povoados
de Jaguaripe para integrá-los a Salinas da Margarida.
Apesar
do deputado Antonio Rodrigues (PFL), absolutamente insuspeito
por ser governista, ter batido e rebatido que o projeto
era flagrantemente inconstitucional porque o plebiscito
nos dois municípios, que a lei exige, não
foi realizado, a Assembléia aprovou e o governador
Otto Alencar sancionou. O Superior Tribunal Federal
(STF) bateu o martelo. Rodrigues estava certo. E os
povoados de Pirajuia, Mutá e Cações
voltaram a pertencer ao município de Jaguaripe,
como historicamente sempre pertenceram.
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