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O
dinheiro por trás da campanha
Principais
candidatos estimam gastar R$ 21,5 milhões, mas
já se sabe que o caixa 2 pode elevar, e muito,
esses valores
Lenilde
Pacheco
A batalha eleitoral travada em 5.600 municípios
brasileiros para escolha, no dia 3 de outubro, de prefeito
e vereadores é embalada pelo ritmo das máquinas
arrecadadoras de dinheiro. A campanha é caríssima
para os padrões de vida da população
de norte a sul do País: os candidatos majoritários
precisam produzir programas de TV, espalhar cartazes,
distribuir camisetas e organizar comícios para
tornar seus nomes mais conhecidos. Se os cinco maiores
candidatos à Prefeitura de Salvador conseguirem
arrecadar o que planejaram, poderão gastar oficialmente
R$ 21,5 milhões.
Na
prática, essa conta será paga por empresas
grandes ou pequenas e fundo partidário. A movimentação
financeira estimada perante a Justiça Eleitoral
acontece dentro dos parâmetros legais. Mas existe
um fluxo ainda maior de recursos financeiros que acontece
por fora. Ninguém admite o poder de influência
das finanças paralelas, mas o fato é que
até aqui não há meios capazes de
reduzir a utilização do famigerado “caixa
2”.
Este
terreno movediço abriga, portanto, informações
guardadas a sete chaves. Para ajudar a desvendá-las,
o professor de marketing político Gaudêncio
Torquato, da Universidade de São Paulo (USP),
conduziu um estudo acadêmico que acabou se transformando
em referência para abordagem do tema. Segundo
ele, a média geral movimentada nos comitês
é de R$ 1 pelo caixa oficial para cada R$ 3 pelo
“caixa 2”.
A
Justiça Eleitoral tenta regular as atividades
de campanha, mas os resultados são tímidos
e estão muito distantes do ideal. O especialista
em Direito Eleitoral Ademir Ismerim observa, por exemplo,
que a regulamentação de bens e serviços
e da realização de eventos representa
um esforço para conter a indiscriminada venda
de adesivos e camisetas, por exemplo, assim como a realização
de eventos destinados à arrecadação
de recursos, com patrocínio partidário
e, até então, sem controle contábil.
“O
TSE estabeleceu que os recursos arrecadados com a venda
de bens e serviços e com a realização
de eventos serão considerados doações,
estando sujeitos aos limites legais”, informou
o advogado. “Se o valor arrecadado de cada um
dos participantes de um jantar, por exemplo, for inferior
a R$ 50, não estará sujeito à contabilidade
individualizada, mas o montante arrecadado e o número
de participantes terá de ser informado ao Tribunal
Regional Eleitoral”.
LIMITE
– O candidato Nelson Pelegrino (PT) é o
prefeiturável da capital baiana que prevê
fazer a campanha mais cara. A estimativa apresentada
pela assessoria jurídica da campanha petista
no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) é de gastar
até R$ 8 milhões: “Não temos
grandes facilidades”, declarou o coordenador,
deputado estadual Emiliano José (PT). “Buscamos
as contribuições, mas isto não
significa que conseguiremos chegar ao valor estimado”.
Durante
os próximos 70 dias, a meta petista é
gastar rigorosamente de acordo com a receita, explicou
Emiliano José. “Faremos a campanha no limite
das nossas possibilidades”. Para vencer os problemas
causados hoje pelo abuso do poder econômico e
falta de transparência, a solução
é regulamentar o financiamento público
de campanha, propõe.
Os
cálculos feitos pela coordenação
do PFL indicam que o candidato César Borges terá
orçamento correspondente à metade do valor
estabelecido por seu adversário petista: R$ 4
milhões. Um dos segredos é buscar um grande
número de doadores. Principalmente porque as
doações não são muito elevadas.
Não há em Salvador um empresário
do porte de Antônio Ermírio de Moraes,
da Votorantim (SP), que em sucessivas eleições
presidenciais abriu o cofre da empresa para liberar
R$ 3 milhões.
“O
modelo atual, com todas as suas falhas, ainda é
melhor”, opinou César Borges. “Os
recursos públicos devem ser canalizados para
os setores de educação, saúde e
segurança pública. Principalmente porque
o financiamento público não garantiria
a eliminação do caixa 2 e os seus inconvenientes”.
A
previsão apresentada pelo candidato do PDT à
Prefeitura de Salvador, João Henrique Carneiro,
ao TRE é que a sua campanha poderá consumir
até R$ 5 milhões. “Não acredito
que conseguiremos chegar perto disso”, afirmou
o presidente da coligação liderada pelo
PDT, Nestor Duarte Neto. “Até agora, as
contribuições são pequenas”.
Para
livrar o Brasil do “caixa 2” de campanha,
o ex-deputado Nestor Duarte Neto também é
favorável à implantação
do financiamento com recursos públicos, como
funciona em países mais desenvolvidos. “O
recibo eleitoral formaliza a doação e
documenta a prestação de contas que terá
de ser feita à Justiça Eleitoral. Mas
o modelo deveria ser mais transparente”.
Com
limite de R$ 3 milhões registrado no TRE, a candidata
do PSB à Prefeitura de Salvador, Lídice
da Mata, espera dividir com a executiva nacional os
gastos da campanha para chegar ao Palácio Thomé
de Souza. O custo do item relativo à produção
dos programas de rádio e TV deve ser assumido
pela direção socialista, a fim de aliviar
o peso das despesas na capital baiana.
Mesmo
assim, o partido terá de promover jantar de adesão
com o objetivo de arrecadar dinheiro para a campanha.
“Isto demonstra quanto é desigual o jogo
com as regras atuais”, destaca Lídice da
Mata. E vaticina: “O equilíbrio da disputa
será estabelecido somente por meio do financiamento
público”.
TSE
quer financiamento público
No
início deste ano, quando divulgadas notícias
sobre doações irregulares feitas por casas
de bingo a candidatos petistas nas eleições
de 2002, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral
(TSE), ministro Sepúlveda Pertence, disse que
o atual modelo de financiamento de campanhas políticas
é “a erva daninha de todas as democracias
modernas” e defendeu o uso exclusivo de dinheiro
público para esse fim. “O problema da interferência
do poder econômico nas eleições
é um dado real e dramático de todas as
democracias contemporâneas”.
Em
Salvador, algumas das doações mais generosas
são feitas por empresas do setor da construção
civil e rede hoteleira. Tradicionalmente, as empresas
do Pólo de Camaçari sempre colaboraram
com as campanhas estaduais. Mas têm menor interesse
nas eleições municipais. Em 2002, brilharam
no ranking dos grandes doadores para a campanha estadual
baiana a Odebrecht, OAS, Aracruz, Millennium, Bahia
Sul Celulose, Veracel e Ferbasa.
A
Caraíba Metais, então, foi a mais precavida.
Apostou em duas direções opostas, injetando
recursos financeiros nas campanhas de Paulo Souto (PFL)
e do adversário Jaques Wagner (PT).
Como
fazer as doações
· No caso de pessoa física, o limite para
doações e contribuições
é de 10% dos rendimentos brutos obtidos no ano
anterior à eleição;
· as doações de empresas ficam
limitadas ao máximo de 2% do faturamento bruto
referente ao ano anterior;
· se o candidato utilizar recursos próprios,
o limite corresponde ao valor máximo de gastos
estabelecidos pelo seu partido;
· toda doação a candidato específico
ou a partido deverá ser feita mediante recibo,
em formulário impresso;
· a doação de quantia acima dos
limites fixados deixa o infrator sujeito a pagamento
de multa no valor de cinco a dez vezes a quantia em
excesso;
· doações feitas diretamente nas
contas de partidos e candidatos deverão ser feitas
por meio de cheques cruzados e nominais;
· partidos e candidatos ficam proibidos de receber
doação em dinheiro (ou estimável
em dinheiro) procedente de entidade ou governo estrangeiro;
órgão da administração pública
direta e indireta ou fundação mantida
com recursos públicos; concessionário
ou permissionário de serviço público
(empresa de ônibus, por exemplo); entidade de
utilidade pública; entidade de classe ou sindical
e pessoa jurídica sem fins lucrativos que receba
recursos do exterior.
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