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28/08/2004
25
anos de uma obra ainda incompleta
A
Lei da Anistia, que perdoou os acusados de terem cometidos
crimes políticos durante a ditadura militar (e
os torturadores que agiam na repressão) completa
hoje 25 anos de anunciada. Haroldo Lima revela detalhes
da fuga de Teodomiro Romeiro dos Santos, o único
preso político do Brasil durante a ditadura instalada
em 1964 que chegou a ser condenado a pena de morte.
Entre militantes e militares, dos 40 mil brasileiros
que reclamam indenizações com base na
mesma lei, mais de mil são baianos. O governo
vem analisando os processos lentamente e promete atender
todos os casos até 2006.
Levi
Vasconcelos
-
Baixinho, acho melhor nós buscarmos você
fugir. Pelo jeito, a coisa não vai dar para você.
Era
Haroldo Lima advertindo Theodomiro Romeiro dos Santos,
companheiro de cela na Ala Política da Penintenciária
Lemos Brito, sobre as possíveis restrições
da Lei da Anistia, que estava prestes a ser aprovada,
após longa luta em que a esquerda brasileira,
com apoio da sociedade civil, clamava o seu refrão
mais forte no fim dos anos 70: “Anistia ampla,
geral e irrestrita”.
Que
a anistia viria era certo. O movimento já tinha
conquistado as ruas, a ditadura começava a se
exaurir. A dúvida era quanto a extensão.
Teodomiro, que chegou a ser condenado à pena
de morte sob a acusação de ter matado
o sargento da Aeronáutica Walter Xavier Lima,
em outubro de 1970, quando era conduzido num jipe para
a Polícia Federal, e Paulo Pontes, que o acompanhava
(condenado à prisão perpétua no
primeiro julgamento), era o mais visado dos prisioneiros
políticos brasileiros.
Na
Bahia, restavam três, Haroldo, Theodomiro e Paulo
Pontes. Juntos na mesma cela, Haroldo e Theodomiro,
ou Teo, como é chamado pelos amigos, começaram
a bolar um plano de fuga, com apoio de aliados em liberdade.
Ficou combinado que Theodomiro, na época já
gozando da liberdade de passear na área verde,
passaria a sair todos os dias às 6 da manhã,
antes da mudança da guarda, que era trocada às
7. Numa dessas ele iria embora. A nova guarda, que não
o via sair, não se preocuparia em perguntar se
voltou.
“Nos
despedimos com um forte abraço. Cogitávamos
a possibilidade da coisa não dar certo e resultar
em morte. Era como se fosse uma despedida. Teo me deu
de presente uma orquídea que ele cuidava e pediu
que tomasse conta”, conta Haroldo. Os familiares
visitavam os presos políticos aos sábados
e tinham direito a dormir para irem embora no domingo.
A fuga seria anunciada após uma dessas visitas,
quando houvesse a certeza de que Teodomiro estaria em
lugar seguro.
Os
dois tinham combinado uma senha. Teodomiro ligaria e
diria que era Eduardo Greenhalg, hoje deputado e advogado
de Haroldo em São Paulo (em Salvador era Jaime
Guimarães), dizendo a frase: “Olha, aquele
seu processo de Brasília está meio complicado,
mas eu vou lá resolver”. Teodomiro fugiu
(foi para o exterior). Foi numa quarta-feira. Três
dias se passaram e ninguém notou. Um dia depois
guardas rondou a cela. Haroldo estava lendo, ele perguntou:
-
Cadê o Teodomiro?
-
Está ali no sanitário com uma diarréia
braba.
O
guarda se conformou. Na sexta-feira, nada de senha.
Outro guarda gritou lá de baixo:
-
Telefone para Teodomiro!
-
Já vou! - Respondeu Haroldo. Minutos depois o
guarda insistiu:
-
Teodomiro, o telefone!
-
Já tá indo! - E não foi. O guarda
informou que a pessoa cansou de esperar e desligou.
Sábado, Teodomiro ligou: “Aqui é
o Eduardo Greenhalg. O seu processo de Brasília
está meio complicado, mas eu vou lá resolver”.
Haroldo conta que nem se tocou na hora. “Oh, Eduardo!
Como vai?”. E Teodomiro: “O processo de
Brasília, Haroldo. Está tudo ok”.
Só aí caiu na real. Estava na hora de
divulgar a fuga. Pediu aos familiares: “Avise
a imprensa que após a visita temos algo muito
importante para divulgar”.
Haroldo
preparou longa carta intitulada: “Anuncio ao povo
baiano que Teodomiro buscou a liberdade”. Deu
uma cópia para o chefe da guarda e conseguiu
fazê-la chegar aos jornalistas. O repórter
do Jornal do Brasil, Stefani Lins, ligou para checar:
“Haroldo, o que está aqui é verdade?”.
Diante da resposta positiva, insistiu: “Então
leia a primeira e a última frase”. Pedido
atendido. O repórter foi ao Palácio de
Ondina falar com o governador Antonio Carlos Magalhães.
“Eu
queria saber o que o Sr. acha da fuga de
Teodomiro”. ACM espantou-se: “O que? Teodomiro
fugiu?!”. E acionou todo o esquema de segurança
para pedir explicações. O chefe da guarda
correu para pedir explicações a Haroldo.
-
Mas eu lhe dei a carta...
-
O diabo é que eu fui o último a saber.
Guardei a carta no bolso.
Inquérito
foi aberto para apurar a fuga. O principal implicado
era Haroldo. Perdeu o direito de passear no pátio.
Trancaram a cela alegando razões de segurança
dele. “Fui preso estando preso”, lembra
Haroldo. Dez dias depois, em 28 de agosto de 1979, o
presidente João Figueiredo, o último do
ciclo militar, anunciou a Lei da Anistia. Haroldo ainda
ficou mais alguns dias, até ser posto em liberdade.
Saiu dizendo que faria a mesma coisa que sempre fez,
política.
Hoje,
exatos 25 anos depois que a Lei da Anistia foi anunciada,
Haroldo Lima conta a história pela primeira vez.
O jornalista Fernando Escariz, falecido no ano passado,
publicou o livro “Porque Teodomiro fugiu”.
Mas os detalhes do plano de fuga só agora foram
revelados. “Era um compromisso meu com Teodomiro.
Mas já falei com ele e tudo bem”, observa.
Haroldo
Lima, já condenado a cinco anos de prisão
à revelia, foi preso em São Paulo, em
1976, no episódio conhecido como “Chacina
da Lapa”, uma reunião clandestina do alto
comando do Partido Comunista do Brasil (PC do B), no
qual quatro pessoas foram mortas. Torturado com choque
elétrico durante 11 dias e 11 noites, depois
foi levado de volta a São Paulo, onde sofreu
tortura um dia, até ser transferido para Salvador
por gestões de Ana Guedes, Joviniano Neto e os
outros militantes da luta pela anistia. Na prisão
sofreu novo julgamento e foi condenado há mais
cinco anos. Com três anos de pena aconteceu a
anistia. Hoje é diretor da Agência Nacional
de Petróleo (ANP). Teodomiro Romeiro hoje é
juiz em Brasília.
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