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28/08/2004
“A
indenização não paga o preço
de uma vida”
“Tenho
uma vida de sofrimentos. Se eu for contar minha história,
é preciso ter paciência, porque vai longe.
E muito longe. Poucas vezes soube o que é ter
felicidade”. As palavras são de D. Maria
Santa Bárbara, 78 anos, mãe de Luiz Antonio
Santa Bárbara, que morreu, em Buriti Cristalino,
povoado de Brotas de Macaúbas, ao lado de Otoniel
Campos Barreto (no mesmo episódio, Olderico,
irmão de Otoniel, saiu ferido), na ação
desencadeado pela repressão da ditadura militar,
para capturar o Capitão Carlos Lamarca, que sucumbiria
no dia 17 de setembro seguinte (1971).
Exatamente
hoje completa 33 anos do episódio. D. Maria,
que lembra do fato “como se fosse ontem”,
está entre as pessoas que foram indenizadas no
início do mês, após longa espera,
por conta da morte do filho, então com 24 anos.
Receberá em torno de R$ 120 mil, a cota máxima
(o mínimo é R$ 80 mil), mas não
se alegra.
“A
indenização é uma forma de reparação,
mas nada paga a vida de meu filho. E não há
dinheiro que apague a dor de mãe. Mataram ele
no dia 28 de agosto e eu só vim saber 19 de setembro,
depois que pegaram Lamarca. Ainda invadiram minha casa,
prenderam meu marido (Ederaldino Santa Bárbara,
já falecido), meu filho de 17 anos (José
Carlos). Para mim, parece que tudo aconteceu ontem.
Minha vida toda foi assim, de muito sofrimento. E vai
ser assim até o fim. Dinheiro não muda
isso”, diz ela.
NÚMERO GRANDE – Segundo Ana Guedes, Diva
Santana e José Carvalho, respectivamente presidenta,
vice e secretário geral do Grupo Tortura Nunca
Mais na Bahia, 40 mil brasileiros entre militantes políticos
e militares, reclamam indenizações na
Comissão de Anistia, formada por representantes
da sociedade civil, governo e Forças Armadas,
por danos sofridos durante a ditadura militar. Destes,
mais de mil são baianos. Mas não há
como precisar quantos já foram indenizados.
“No
total, já foram aprovados 416 casos e no início
do mês mais 13. Dizer com exatidão quantos
são baianos é difícil pela complexidade
do assunto. Muitos são militares que perderam
postos, ou pessoas que de alguma forma ficaram impedidas
de exercer suas atividades, embora não tenham
sido presas ou processadas”, afirma Diva Santana.
O governo promete solucionar todos os casos até
2006, com a alocação de recursos no Orçamento
da União.
Segundo
o jornalista e deputado Emiliano José (PT), ex-preso
político e co-autor, juntamente com o também
jornalista Oldack Miranda, do livro Lamarca, o capitão
da guerrilha, 1.509 marinheiros foram presos, torturados
ou afastados da Marinha e perseguidos nestes últimos
40 anos. “400 deles foram condenados a penas que
somavam 13 séculos de prisão. Eles foram
esquecidos pela Lei da Anistia de 1979. Mudaram de vida
e seguiram outras carreiras, mas nunca abandonaram a
luta por seus direitos. Só em 2002 alguns, os
que ainda não morreram, puderam celebrar a vitória
com o reconhecimento parcial dos seus direitos agora
completados com a assinatura da MP 657, por Lula”
(L.V.).
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