Golpe
de 64
A
marca da rebeldia
Estudantes
assumiram a liderança da mobilização
popular contra o regime militar e contagiaram a sociedade
com sonhos e esperança
Ivana
Braga com agência Folha
Mesmo
na clandestinidade, a União Nacional dos Estudantes
(UNE) extrapolou os limites do universo estudantil e
exerceu papel de agente influenciador da sociedade brasileira
durante a ditadura militar. A compreensão é
do deputado Emiliano José (PT), liderança
estudantil entre 1967 e 74, preso e torturado pelo regime
que assumiu o poder a partir do golpe de 1964. O mesmo
ponto de vista, aliás, do professor Alberto Saldanha,
estudioso do regime militar e autor de diversos livros
sobre o tema.
Ambos participaram de uma série de eventos patrocinados
pela Faculdade Jorge Amado, tendo como foco os 40 anos
do golpe militar. Para Emiliano, personagem ativa daquela
época, a recuperação do movimento
estudantil, desmantelado no primeiro momento do golpe,
em 64, quando estudantes foram presos, perseguidos,
abandonaram a militância ou fugiram do País,
se deu a partir de 68, ano que se inicia como “síntese
da rebelião estudantil no mundo”.
Apesar da clandestinidade para a qual foi empurrada
a maioria das lideranças, o movimento estudantil
se reoxigena a partir de 68, quando a UNE e a Ubes (União
Brasileira de Estudantes Secundaristas) rearticulam
nacionalmente a força estudantil. De acordo com
Emiliano, o movimento estudantil defendia a revolução
e tinha dois eixos de mobilização: o ideológico,
que lutava em favor da educação e buscava
garantir o ensino público, e o política,
que sustentava o confronto aberto contra a ditadura
militar, que terminou predominando a partir de 68.
Importante liderança estudantil em 64, Emiliano
diz que a mobilização e articulação
patrocinadas pela UNE contagiaram a sociedade brasileira,
que transferiu aos estudantes a expressão da
sua insatisfação com o regime militar.
“O movimento estudantil foi o que se pode chamar
de ‘vanguarda da mobilização de
massas’. Contagiou e encantou a sociedade com
sonhos, ousadia e esperança”, descreve
Emiliano.
GERAÇÃO REBELDE – Também
sobre a participação dos estudantes na
luta contra a ditadura, Carlos Sarno, Filemon Matos
e Dóris Serrano, testemunhas das atrocidades
patrocinadas pelos militares nos 21 anos de regime ditatorial,
expuseram suas experiências aos estudantes da
Universidade Federal da Bahia (Ufba), patrocinadora
de uma série de debates sobre o golpe. Sarno
explicou que a luta social se sustentou num tripé
formado pelos movimentos estudantil, operário
e camponês. Para ele, 1968 foi momento de ebolição
social no mundo e sinalizou definitivamente para a luta
em favor da reabertura política, gerando a guerrilha
urbana.
Na visão dele, a partir de então o movimento
estudantil ganhou feições mais políticas,
já que havia a compreensão de que com
os militares o diálogo não era possível.
A luta pelo resgate da democracia passou a determinar
o nível de organização dos estudantes.
Sarno diz que a rebeldia marcou a geração
de 68.
MANIFESTAÇÃO
- Cerca de 2 mil estudantes, segundo a Polícia
Militar, participaram ontem de uma passeata que fechou
por 40 minutos a Avenida Rio Branco, uma das principais
do centro do Rio de Janeiro, provocando um grande engarrafamento.
O objetivo da manifestação foi lembrar
a passagem dos 40 anos do Golpe de 1964.
A direção do Museu da República,
antigo Palácio do Catete, administrado pela União,
pendurou na fachada do prédio a faixa: “Há
40 anos o Estado brasileiro sofreu um duro golpe”.
A intenção é consagrar o 1º
de abril, “dia da mentira”, como dia do
golpe - para os militares, a data oficial é 31
de março.