Arquivos do Dops baiano foram
pesquisados e o resultado não pode ser divulgado.
Outra parte sumiu
Flávio Oliveira
A sujeira das torturas e perseguições
políticas praticadas pela ditadura militar (1964-1985)
na Bahia continua escondida sob os tapetes de órgãos
oficiais. Relatório do Grupo Tortura Nunca Mais
expõe que documentos importantes sobre a repressão
a militantes de esquerda resistentes àquele regime
continuam trancados e escondidos.
O Tortura Nunca Mais teve acesso aos
arquivos da Delegacia de Ordem Política e Social
(Dops) da Polícia Federal na Bahia liberado pelo
Ministério da Justiça (MJ). A PF baiana
é das últimas do País a abrir seus
arquivos do Dops. Em São Paulo, os arquivos do
DOI-CODI (Destacamento de Operações de
Informações – Centro de Operações
de Defesa Interna) encontram-se, desde a década
de 1990, abertos ao público geral.
Ainda assim, a abertura do Dops baiano
só foi assegurada depois de assinatura de convênio
entre o grupo e o MJ. O acordo mantém sob sigilo
o conteúdo de processos, dossiês e fichas
encontradas no Dops baiano. Apesar de todo o cuidado,
muitas peças não foram encontradas e,
em relatório já entregue ao Ministério
da Justiça, a ONG observou:
“Muitas informações
acerca da repressão às atividades políticas
durante o regime militar ainda não foram disponíveis.
Por exemplo, inquéritos policiais ainda não
encontrados, embora os processos levantados indiquem
o destino final dos processos para a 6ª Circunscrição
da Região Militar e/ou Brasília”.
No parágrafo seguinte do relatório,
o Tortura Nunca Mais afirma que muitas pastas e dossiês
continuam em posse da PF baiana, supostamente resultantes
de investigações que não foram
transformadas em inquéritos e que, por isso,
viraram dossiês.
Um documento que está incompleto
é o laudo pericial da morte de Iara Lavelberg.
A companheira de Lamarca foi presa em Salvador. A versão
oficial é que ela se suicidou para não
dizer, mesmo sob tortura, a localização
de Lamarca. A família de Iara não acredita
e conseguiu o direito de exumar o corpo para nova perícia.
REVELAçõES – Diva
Santana, diretora do Tortura Nunca Mais na Bahia, afirmou
que mesmo incompletos, os inquéritos encontrados
são importantes e reveladores, principalmente
por expôr que na Bahia existiam os mesmos órgãos
de repressão que em outros Estados, tais como
SNI (Serviço de Informação Nacional),
Codi, Cidimar (Centro de Informações da
Marinha) e Operação Bandeirante (do delegado
Fleury Filho, tido como o principal torturador do País).
“Sempre negaram e desementiram
que estes órgãos estivessem presentes
no Estado. O que ficou claro pelo acesso que tivemos
aos inquéritos”, disse. “Os inquéritos
também apresentam nomes de pessoas presas no
Extremo Sul que nem conhecíamos e que não
sabemos se ainda estão vivas”, completou.
Essas revelações devem
aumentar as estatísticas do grupo. Os números
apontam que, durante o regime militar, cinco mil pessoas
foram presas e/ou perseguidas pelo governo. Outras 32
foram mortas ou estão desaparecidas (10 delas
na Guerrilha do Araguaia).
NEGATIVAS – A assessoria de comunicação
da PF negou ter dificultado a pesquisa. Segundo a assessoria,
a PF deu acesso a todos os documentos que estavam em
posse do órgão. O argumento é que
os documentos não encontrados se perderam no
tempo durante as mudanças de endereço
do órgão.
O oficial de comunicação
social da 6ª Região Militar, tenente Frederico
Diniz, afirmou que nenhum documento de processos políticos
da época da ditadura se encontra em Salvador.
“Foram enviados à Brasília e estão
guardados no Comando do Exército”, garantiu.
Diva Santama, diretora do Tortura Nunca Mais, garante
que aqui também há outra mentira. “A
auditora da 6ª RM tem o resumo de todos os processo
que eu já vi”, garante.
DURADOURA – A dificuldade em se obter todas as
informações sobre a forma e a causa das
perseguições políticas feitas pelo
governo militar gera estranheza entre ex-presos políticos
e familiares de militantes de esquerda desaparecidos
durante o regime militar. A redemocratização
do País chega, este ano, à maioridade
(18 anos) e em outros Estados (São Paulo, Paraná,
Rio Grande do Sul e Pernambuco) esse tipo de arquivo
está disponibilizado ao público geral.
A advogada Ronilda Noblat, que defendeu
500 presos políticos, acredita que a abertura
do Dops baiano não aconteceu porque a ditadura
no Estado ainda não acabou. “No início
da década de 90, a PF prendeu oito motoristas
de ônibus que mobilizavam a categoria para uma
greve. A acusação era a de que teriam
depredado ônibus. Foram enquadrados por infração
à ordem econômica. O processo continua
até hoje, à espera de prescrição”,
contou.