
09/11/2003
Colunas
Caça
às bruxas
Renato Simões
Um novo panorama tem-se apresentado
no País, mais por conta dos escândalos
originários da falta de lisura de alguns elementos,
como já houve no cenário italiano, definido
como “um cidadão acima de qualquer suspeita”.
É evidente que em certos setores, e suspeitamente
respeitáveis, existem pessoas que não
seguem o critério ético que deveria pautar
seu comportamento. Alguns episódios divulgados
pela mídia – palavra tão em moda
– desvirtuaram não só a imagem de
alguns personagens a salvo de qualquer crítica,
como também lançam sobre eles a sombra
do descrédito, agravado pelas lentes de aumento
do sensacionalismo.
***
Existem, verdades, casos flagrantes
de desrespeito às boas normas, tanto legais quanto
éticas, mas que alguns, no intuito de não
verem desmoronar seu castelo de cartas político,
vão silenciosamente aceitando, com a aquiescência
do seu grupo partidário que, fazendo vista grossa,
embora constrangido, conforma-se com essa “nova
ordem”. É a chamada composição
política, que por vezes é obrigada a se
acomodar numa posição escusa, aproximando
pólos contrários, conquanto, como na geografia,
sejam gélidos, já que se situam em hemisférios
opostos.
***
É
de ver que nessa revivência de uma prática
medieval, a caça às bruxas, estão
sendo cometidos exageros que não mais se deveriam
reproduzir, a não ser com o propósito
de denegrir o conceito de personalidades, testadas e
respeitadas no cenário público, tornando-as
alvo de acusações que, se não beiram
o ridículo, chegam à mesquinharia.
Acusar o eminente baiano Waldir Pires de sonegar uma
importância ínfima, por erro de cálculo
(lembre-se um presidente da República que, a
despeito de ter sido aluno brilhante e professor de
matemática, disse haver encontrado dificuldade
em preencher sua declaração de imposto
de renda), de intencionalmente subtrair valor do Tesouro,
é uma injúria, ou uma tentativa de difamação.
Desconheço se tal objetivo tenha sido a iniciativa
de reclamação oficial, mas que a divulgação
do fato alcançou esse sentido é constatação
irrecusável.
Uma lição se tira do episódio:
deve haver um mínimo de compostura na divulgação
de ocorrências dessa natureza, porquanto a dimensão
da repercussão negativa desdobra-se em ondas
de grande amplitude e ressoa num estrondo de indesejável
sonoridade.
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