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14/09/2004
A
MÃO DIREITA QUE ATACA O COFRE
É possível relacionar partidos políticos
a desvio de verbas em prefeituras
Por
Luiz Alberto Weber
O
extrato das missões da força-tarefa da
Controladoria Geral da União (CGU) mostra que
137 municípios brasileiros, segundo classificação
dos próprios auditores, foram palco de irregularidades
mais sérias. A lista da CGU oferece dados para
uma reflexão sobre o perfil da corrupção
no Brasil.
É
evidente, por exemplo, a relação entre
pobreza e as chances de existência de gestores
corruptos. Mas CartaCapital, ao confrontar a lista da
Controladoria com a relação dos partidos
dos prefeitos no poder, observou ocorrências mais
interessantes – uma tendência de legendas
consideradas de direita, como o PFL, possuírem,
estatisticamente, mais prefeitos corruptos do que outras
agremiações partidárias.
De acordo com o levantamento, o partido presidido por
Jorge Bornhausen detém cerca de 15% das prefeituras
do Brasil, mas quase 25% dos municípios enrolados
são comandados por prefeitos pefelistas. Na Paraíba,
o PFL comanda apenas 16,9% das prefeituras, mas responde
por 66% dos municípios com casos detectados de
desvio de dinheiro público.
Em
Sergipe, três dos quatro municípios apontados
como focos de corrupção têm prefeitos
do PFL. O partido nesse Estado possui apenas 13,9% das
prefeituras. Em todo o Nordeste, segundo a classificação
da Controladoria, 64 municípios foram enquadrados
como problemáticos. Desse total, 30% eram do
PFL. PSDB e PMDB estão no poder em 15% das localidades
problemáticas, respectivamente. Com pouca presença
na região, o PT não teve uma prefeitura
enquadrada pela CGU, embora administrações
petistas encrencadas tenham sido apanhadas em Rondônia,
Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.
No geral, o PT, no poder em 14,1% dos municípios
brasileiros, está no comando de 2,2% das localidades
visitadas pelos auditores cujas contas foram consideradas
irregulares. No caso do PSDB, há apenas uma distorção.
No Ceará, onde os tucanos administram 26,2% das
prefeituras, o índice de irregularidades graves
atinge 38,4% dos prefeitos do partido. Mesmo considerando
tratar-se de amostras baixas (apenas 13 cidades foram
auditadas), os números revelam, pelo menos, a
ocorrência de mais casos de corrupção
envolvendo tucanos do que o esperado.
Baiano,
o ministro-chefe da Controladoria, Waldir Pires, costuma
dizer que casos de corrupção na administração
pública andam junto com o grau de atraso da comunidade.
Já o cientista político Jairo Nicolau,
do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio
de Janeiro (Iuperj), avalia: “Os partidos de direita
costumam ter um controle pequeno de quem entra ou sai
da legenda. Ao recrutar lideranças regionais
conectadas com a política tradicional correm
mais riscos de se misturarem a corruptos”.
Os
números mostram uma tendência, não
uma razão matemática. “Acredito
que fatores externos possam deturpar a pesquisa, como
a orientação ideológica dos auditores
ou a submissão da equipe da força-tarefa
a um eventual desejo do alto escalão da CGU de
pegar prefeitos de oposição ao governo”,
cogita o professor de Ciência Política
da Unicamp, Bruno Speck, um veterano analista da corrupção
política. “Não acredito nesse número
de municípios com casos de corrupção.
Na maioria das vezes, os auditores só pegam banalidades
formais e fazem um carnaval”, diz Alcides Redondo,
coordenador de pesquisa do Instituto Brasileiro de Administração
Municipal.
A
análise dos relatórios da CGU mostra que
há mais casos de corrupção em estados
e regiões onde o padrão socioeconômico
é mais baixo. Assim, no Rio Grande do Sul, Estado
com maior IDH do Brasil (Índice de Desenvolvimento
Humano, calculado pelo Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento), apenas dois municípios
foram apontados como sumidouro de dinheiro público,
dentre o conjunto de avaliados. Um número cinco
vezes maior recebeu o o.k. dos auditores.
Mas
além dessa correlação mais evidente,
os números sugerem que a ideologia do partido
no poder em âmbito municipal pode fazer alguma
diferença quando o assunto é probidade.
Em Santa Catarina, onde o PFL é apenas a terceira
força política (no poder em 18,4% dos
municípios), os casos de corrupção
mais uma vez encaixaram-se com a legenda. Ali, 60% das
cidades com casos considerados graves pelos auditores
têm na prefeitura um pefelista no poder.
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