Home
Quem é Emiliano
Mandato
Livros
Imagens
Artigos
Notícias
Boletins
Na Imprensa
Galeria F
Contato

BURITI CRISTALINO
Por Isadora Browne Ribeiro
 
Não admira que o exército só tenha chegado lá de helicóptero. E deve ter surgido em meio à fumaça branca da terra levantada. Diabólico.
Fomos avisados de que seria um caminho difícil. Na verdade, nada nos prepararia para aquelas cerca de 2 horas e meia de subidas e descidas espetaculares, inclusive pela paisagem de tirar o fôlego – tanto quando a poeira, em uma estrada (?) de pedra e de uma terra esbranquiçada, quase areia, estreita, cheia de curvas fechadas, sempre à beira de algum precipício, própria para um enduro. De moto. Estávamos, na D20, 10 pessoas. Na carroceria, lastreada com vários sacos de areia para não virar, éramos 6. Pelo caminho, fomos dando algumas caronas. A certa altura, encontramos duas senhoras que subiam a pé, bagagem na cabeça, a quem também demos carona. Uma idosa, outra com dor na coluna, caminhava com um apoio. Haviam saído de Brotas por volta das 6 horas, pensavam chegar no Pé de Serra, povoado a meio caminho de Buriti Cristalino, no início da tarde. É o comum. Se passa algum veículo, acontece uma carona, que a solidariedade é evidente.
Na cabine, estava D. Maria Ferreira Santa Bárbara, que nunca havia visitado o local onde seu filho, Luiz Antônio, viveu seus últimos meses e foi assassinado, na mesma ocasião do assassinato de Otoniel Campos Barreto, nove dias antes da morte de Lamarca e do irmão de Otoniel, Zequinha, lá na Pintada.
Chegamos ao Buriti. Mais tarde, chegariam mais duas caminhonetes, trazendo companheiros do MST, com Stedile e Olderico, o irmão de Zequinha e Otoniel que sobreviveu (após ser baleado, torturado e preso) para nos ajudar a reconstituir estes momentos da história.
O cenário parece parado no tempo. Um povoado simples, humilde, nada de energia elétrica ou água encanada. A capelinha, com suas três cruzinhas azuis, tem um pequeno altar, nenhum banco. Era ali que o Professor Roberto ensinava crianças, hoje adultos, e velhos que já se foram.
A casa em que Santa Bárbara morou, em plena pracinha, à direita da capelinha, nos é mostrada. Vamos para lá com D. Maria. Quando a velha senhora dona da casa consegue entender que aquela é a mãe do “Professor Roberto”, a emoção é inquestionável. São muitas as informações, as recordações. Manda chamar um e outro, vários idosos, homens e mulheres, que têm o que contar, que jogaram bola com ele, que gostavam dele, que nos explicavam, com cuidado, que, naquele momento, com os helicópteros pousando à porta de um ou outro, no campinho logo ali perto, nada podiam fazer ou falar. É um que nos fala dentro da casa, enquanto se busca a pessoa que está com a chave que mantém fechado o quarto que o “Professor Roberto” ocupava e onde morreu; outro que, sob o sol causticante, nos dá detalhes das aulas ou dos jogos. Quando o quarto é aberto, mais história aparecem. D. Maria foi muito assediada. Todos queriam falar com ela, vê-la, ser vistos por ela, abraçá-la, em uma demonstração de que Santa Bárbara foi importante naquele local. E querido. A lembrança é viva. Não há qualquer ressentimento para com os revolucionários. O ressentimento de um deles, conforme sua declaração, é de não ter tido a oportunidade de conhecer Lamarca. Quando Olderico chega, vai recontando, a partir da casa e do quintal dela, a saga daquele último dia dos heróis, explica como alertaram Lamarca e Zequinha, que dormiam ali perto sob um pequizeiro que já não existe, para que fugissem, refaz o roteiro que leva até o local onde Otoniel tombou. Ali, no próximo ano, a Diocese de Barra erguerá uma cruz. Igual àquela que este ano foi fincada no local onde Zequinha caiu.
E os moradores locais, os que ainda conheceram os personagens, e os que vieram depois, recebem os visitantes com reserva mas com atenção, oferecem as informações solicitadas, aprovam toda esta movimentação, consideram justas as homenagens, participam ativamente.
Mais cerca de duas horas e meia para descer para a sede de Brotas de Macaúbas. Sol, calor e muito, muito pó, uma cortina amarela que nos envolve.
Sujos, precisando, antes de mais nada, de um banho, perguntamos como deve ter sido dura a jornada de Lamarca e Zequinha naqueles seus últimos 9 dias, entre o Buriti e a Pintada. A época é a mesma. A seca talvez fosse um pouco menos agressiva, mas o clima era igual.
Veja também
  Resenha
"Lamarca: entre a ficção e a realidade"

..........................................
Cinema

Veja página especial sobre o filme "Lamarca", de Sérgio Resende
..........................................
Memória
Igrejas, MST e movimento popular celebram Carlos Lamarca como mártir e herói nacional
..........................................
História
Mortos na caçada ao capitão Lamarca
..........................................
Crônica

"Buriti Cristalino", por Isadora Browne
..........................................
Herói
Culto ecumênico celebra Lamarca como mártir nacional
 
 
 
 
 
   
   
   
   
   
   

 

 
 
Quem é Emiliano l Mandato l Livros l Imagens l Artigos l Notícias l Contato
Assine nosso livro de visitas
Copyright © 2000-2003 Emiliano José - Todos os direitos reservados