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30 anos depois

Igrejas celebram Lamarca como herói e mártir em culto ecumênico no

 sertão da Bahia

Por Oldack Miranda* 

Com um altar montado em cima de uma carroceria de caminhão, estacionado bem no centro do pequeno povoado de Pintada, município de Ipupiara, em plena caatinga, sol abrasador, a mil quilômetros de Salvador, o bispo da Diocese de Barra, dom Frei Luís Flávio Capio, exortava os romeiros a seguirem o exemplo dos mártires da igreja. O culto era ecumênico e participavam dois pastores evangélicos. O texto distribuído aos fiéis vindos das onze paróquias da Diocese citava Santo Agostinho – “a causa é que faz o mártir”- para explicar que, “sem dúvida alguma, quem foi morto defendendo a causa da justiça, da democracia e da reforma agrária é um mártir e suas vida e morte deveriam ser celebradas, como reconhecimento de seu exemplo e como um compromisso com a causa pela qual derramaram o seu sangue”.

            Seria apenas mais uma peregrinação das tantas que acontecem nos sertões nordestinos se o local não se chamasse Pintada, onde o capitão Carlos Lamarca perdeu a vida, juntamente com vários de seus companheiros, em setembro de 1971. O culto ecumênico na caatinga, inimaginável em outros tempos, aconteceu dia 29 de setembro último, e se chamou “Vidas pela Vida – Celebração dos Mártires da Diocese de Barra”.

            Os mártires celebrados foram Carlos Lamarca, anunciado como “herói nacional como Zumbi e Tiradentes”; José Campos Barreto, Zequinha, que tombou junto com Lamarca, com as forças exauridas, depois de percorrerem 300 quilômetros a pé, na extenuante fuga pelo semi-árido; seu irmão Otoniel Campos Barreto, fuzilado pelas costas pelos militares; Luís Antônio Santa Bárbara, cuja versão de suicídio começa a ser questionada; e ainda dois militantes pela posse da terra na região: Manoel Dias, assassinado pelo grileiro Leão Diniz, em 1982, aos 77 anos, e Josael de Lima, Jota, assassinado com um tiro no peito, em 1986, pelo mesmo grileiro.

            As caravanas chegaram das paróquias da Diocese, principalmente de Irecê, Gentio do Ouro, Barra do Mendes, Ibotirama, de Brotas de Macaúbas e Ipupiara, estas últimas em particular porque foram sede da operação anti-guerrilha do Exército, que optou na época pela estratégia do terror contra a população local, prendendo, ameaçando, torturando e matando com uma violência nunca vista antes naquelas paragens. Também chegaram grupos de Salvador, Feira de Santana, Rio de Janeiro e São Paulo.

            Durante o culto, homens e mulheres, jovens e velhos, ofertaram um punhado de terra do lugar onde Lamarca tombou sem vida, uns ofertaram beiju, frutas, hortaliças, os militantes do MST ofertaram a bandeira vermelha dos sem-terra, outros a bandeira do Brasil, a Constituição Federal, e o ex-preso político e representante do PT baiano, vereador de Salvador Emiliano José, ofereceu um exemplar da 15º edição de seu livro “Lamarca, O Capitão da Guerrilha”, escrito em parceria com o jornalista Oldack Miranda.

            João Pedro Stédile, dirigente do MST, leu uma carta do ator Paulo Betti, que representou o capitão no filme “Lamarca”, de Sérgio Rezende; uma freira, Irmã Marina, leu um poema enviado por D. Pedro Casaldáliga; César Benjamin, ex-companheiro de organização clandestina de Lamarca, e hoje dirigente da ONG Consulta Popular, leu uma carta enviada pela viúva do capitão celebrado, Maria Pavan e seus filhos César e Cláudia. Familiares dos militantes mortos deram o testemunho da presença, entre eles Olderico Campos Barreto, sobrevivente do tiroteio, da tortura e da prisão.

            O pastor Djalma Torres, da Igreja Batista Nazareth,  destacou a coragem do bispo católico pela iniciativa e agradeceu pela oportunidade de “juntos celebrarem uma convocação a todo o povo de Deus para que se estabeleça a justiça no país”. O pastor João Dias Araújo, da Igreja Presbiteriana Unida anunciou “que o sangue dos mártires é a sementeira da história”. Juntos,m caminharam em procissão até a baraúna ressequida em cuja sombra descansaram os guerrilheiros executados, e depois seguiram até o pé de uma cruz de cinco metros de altura, erguida em plena caatinga, no exato local em que tombou Zequinha, o filho da terra. E os integrantes do MST repetiam o refrão de punhos cerrados: “Che Guevara não morreu, Che Guevara vive, Lamarca não morreu, Lamarca vive”. 

*Oldack Miranda é jornalista e co-autor, ao lado de Emiliano José, do livro "Lamarca, o capitão da Guerrilha"

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  Resenha
"Lamarca: entre a ficção e a realidade"

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Cinema

Veja página especial sobre o filme "Lamarca", de Sérgio Resende
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Memória
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Mortos na caçada ao capitão Lamarca
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"Buriti Cristalino", por Isadora Browne
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