JORNAL DO COMMERCIO - Como era Carlos Marighella na intimidade?
CLARA CHARF - Ele sempre teve aquele jeito baiano de ser. Brincalhão, muito solidário na vida em família e em qualquer casa que estivesse. Era daquele tipo de homem que dava banho em criança. Era um cara bom, bem-humorado, generoso, boa praça. Ele sabia dividir tarefas, uma coisa ainda rara hoje em dia. E essa solidariedade ele continuou a ter até na prisão, onde criou a Universidade Popular.
JC - A senhora se lembra de algum momento especial nos raros momentos em que puderam realmente ter uma vida a dois?
Clara - Como ele não gostava de perder tempo, enquanto eu passava roupa ele gostava de ler para mim em voz alta. E ele lembrava-se sempre dos aniversários das crianças, mesmo quando só podia se encontrar com elas meses depois por causa da militância ou da clandestinidade. Para ele, não havia diferença entre o dia a dia e a revolução. O Brasil precisa de homens corajosos como ele.
JC - Foi difícil conviver amorosamente com ele? Como vocês se viam ele sendo perseguido, foragido, vivendo escondido ou preso?
Clara - Em 21 anos de companherismo, apenas uma vez pudemos ter uma vida normal, igual a de milhões de pessoas. Foi durante os governos Juscelino Kubistchek e Jango Goulart, entre 1956 a 1964, um momento de liberdade na vida brasileira. Foi quando todos sabiam quem éramos e onde estávamos, quando pudemos usar nossos verdadeiros nomes, ter uma casa, um telefone, uma vida normal.
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Jornal do Commercio
Recife - 31.10.99