Resenha
Todos que conheceram Marighella são unânimes em dizer que ele era um homem de uma coragem e de uma audácia fora do comum! Assim, não somente porque ele adotou a luta armada como forma de combate, nem apenas porque ele abominava a ditadura dos militares, mas por ser ele incorruptível e absolutamente determinado, por não ter jamais passado informações que levassem as polícias políticas das diversas ditaduras — que marcaram a história brasileira deste século (inclusive a que se implantou em 1964) — a prender companheiros seus, mas sobretudo por ter rompido com a política do Partido Comunista Brasileiro e adotado relações e posições internacionais do guerrilheirismo cubano, na intenção absolutamente obstinada de mudar radicalmente a estrutura econômica, social e política do país. Em razão disto, Marighella foi jurado de morte pelos organismos de repressão. Por isso tudo ele se tornou também o inimigo number one da CIA e de seus auxiliares no Brasil. A sua notoriedade como político que enfrentou a repressão dos anos 30 e do Estado Novo, a sua saída das prisões de Vargas para se eleger Deputado Federal, sua capacidade de romper mais tarde, em meados dos anos 60, com o legalismo e o pacifismo de Preste e do PCB diante da violência golpista, sua participação na Conferência da Organização Latino Americana de Solidariedade e sua opção pela luta armada e pela guerrilha, transformou-o na consubstanciação do famoso aforismo que permaneceu lema de todas as polícias políticas do mundo: comunista bom é comunista morto. Portanto, como aconteceu com relação a Che Guevara, prender Marighella vivo seria um imenso incômodo, para os aparelhos repressivos, para o Estado brasileiro e o para o governo em exercício. Ao mesmo tempo, naquela época não faltavam agentes repressivos sedentos por mostrar serviço como forma de auto-promoção ou por servilismo puro.
Não obstante, como provou a luta de Clara Charf e de Carlinhos Marighella, mesmo morto, o Marigha (como era chamado pelos companheiros mais próximos) continuou a incomodar muito os donos do poder! A luta que se travou para que o Estado brasileiro, sob a direção de Fernando Henrique Cardoso, reconhecesse seus assassinatos — visto que este Estado brasileiro, sob a égide de FHC, embora reconhecesse suas responsabilidades, a partir dos termos da lei 9.140 de 04 de dezembro de 1995, ao constituir uma Comissão Especial para estudar cada caso, não queria assumir as conseqüências criminais das mortes dos militantes que ocorreram a céu aberto — exigiu uma mobilização muito grande dos parentes dos "desaparecidos". Porém, Marighella e Lamarca não entrariam no mesmo rol, posto que, segundo os que nos últimos anos argumentam como autênticos continuadores (nesse aspecto e em muitos outros) da política daqueles que instituíram a tortura e os assassinatos políticos (inclusive de personalidades que simplesmente discordavam do regime ditatorial), esses dois não poderiam ter tamanho reconhecimento.
Uma tal postura, além de significar mais um ultraje à dignidade e à figura de combatentes do regime militar, privaria "legalmente" os seus familiares do direito à pensão a que legitimamente fazem jus, como elemento mínimo de "reparação" da morte destes seus entes queridos e que lhes foram infligidas na mais absoluta arbitrariedade, sem que eles pudessem se defender.
Emiliano, ele mesmo detentor de experiência, por ter sido ex-preso político e sofrido torturas das mãos dos seus algozes, nunca conseguiu se desligar da história desse período e, assim como com o livro Lamarca, o capitão da guerrilha, escrito com Oldack Miranda, transforma o livro dedicado a Marighella num libelo anti-ditatorial, marcando-o, profundamente, com esse contexto histórico dos anos 60 e do passado imediato desse nosso país chamado Brasil, que não cessa de mostrar a cara e pedir para nele confiarmos!
É bem evidente que tudo isso é tratado em graus de profundidade diversos.
Trata-se de um texto corajoso, escrito numa linguagem clara, às vezes coloquial, quase aritmética. Faz economia de arrodeios. Dá nomes aos torturadores, muitos dos quais, provavelmente, ainda estão vivos, escondendo-se da própria sombra. Neste campo, alimenta a reflexão apenas pela enunciação de fatos. É impressionante verificarmos que historicamente tais personagens sombrios de todos os escalões do aparelho de Estado de então não aparecem hoje à luz do dia para defender as práticas que empreenderam nos porões e submundos instituídos pela elite dominante nacional e internacional. Faz lembrar-me uma das lições de Franz Fanon em Os condenados da Terra: os torturadores também se auto-torturam. Mas faz lembrar também do comportamento asqueroso dos carrascos nazistas que no julgamento de Nuremberg, depois da evidência de suas responsabilidades no holocausto, quiseram ser isentados das conseqüências de suas personalidades perversas.
Na verdade, a maior parte do livro se concentra na reconstituição da complexa rede de fatos e relações que explicam como Marighella foi emboscado e assassinado pelos agentes repressivos comandados pelo tragicamente célebre Sergio Paranhos Fleury. Detentor de um aparelho repressivo dentro do aparelho maior, Fleury, como argumentou Emiliano, disputa com seus "outros" colegas as "honras" de assassinar o anjo doce do poema de Capinan. Mas, além disso, relata os acontecimentos ligados a uma verdadeira teia de pessoas que, presas ou não, tiveram alguma relação com a morte do político baiano. Nisso também ele age com coragem, responsabilizando, ou melhor, relatando o comportamento de alguns dos militantes políticos que tiveram ligados à "captura" do primeiro da lista. Estes militantes, a exemplo dos padres dominicanos e do hoje economista Paulo de Tarso Venceslau, após sofrerem bárbaras torturas, durante dias seguidos, terminam revelando involuntariamente a seus supliciadores, direta ou indiretamente, como chegar até Marighella. No livro de Emiliano, a responsabilidade imediata dos dominicanos parece serenamente aceita por eles mesmos. Este já não é o caso de Venceslau.
Debruçando-se sobre a história recente do Brasil, Emiliano não capitula diante de argumentos tais como o historiador não pode tomar partido. Procura esclarecer o grau de responsabilidade de cada um nesta questão e mostrar, através de depoimentos de companheiros de organizações de esquerda daquela época, o quanto cabe a cada um. O próprio Emiliano revela que existem controvérsias sobre o caso, mas aceita a hipótese de que Venceslau tem mais responsabilidades do que admite. Ele expõe esta idéia apoiado no depoimento dos dominicanos e de outros como Alípio Freire, na época companheiro e amigo de Venceslau. Mesmo não identificando no livro nenhuma vontade de estigmatizar esse atores históricos, talvez caiba a relativização conclusiva que parece ser a do próprio Emiliano, de que esse personagens não se tornaram traidores, colaboradores; mas vergaram na tortura. No caso dos padres e de Venceslau, após longos dias de sevícias indescritíveis que nos faz pensar como essas pessoas conseguiram sobreviver! Aliás, as questões ligadas à tortura, na maioria das vezes, sempre foram tratadas sob o signo da ética do heróico homem de ferro e muitas vidas não suportaram conviver com a consciência pesada do pecado de haver "traído" sob tortura. Isto me faz lembrar que praticamente todos os grandes revolucionários do Comitê Central do Partido Bolchevique vergaram sobre o leito de Procusto estalinista! Este foi o caso de Boukharin (grande amigo de Lenin e o "filho" querido do Partido), mas também de Zinoviev, de Kamenev, de Rakovsky (que levou anos sendo torturado) e de tantos outros anônimos. A questão da tortura nas condições da luta revolucionária exige, sem dúvida, uma reflexão que é, ao mesmo tempo, ética, política, histórica e humana e que, a rigor, nunca foi feita de modo sistemático. O livro doa matéria à reflexão, embora esta não fosse necessariamente a primeira intenção do autor. É verdade que ele se estende talvez um pouco além da conta sobre essa passagem, tamanha a sua vontade, quase obsessiva, em esclarecer o emaranhado de fatos imediatos que desembocaram na morte de Marighella que paira como o angelus novus de Paul Klee evocado por Walter Benjamin.
Marighella foi um furor de determinação. Após a sua captura pelos agentes dos golpistas em um cinema no Rio de Janeiro, em 1964, havia jurado que jamais seria preso ou torturado novamente. Ele também se recusou a sair para o exílio. Às vésperas da emboscada que sofreria nas imediações do número 800 da Alameda Casa Branca, em 4 de novembro de 1969, ao ser admoestado por companheiros da sua própria organização de que seria desaconselhado ir ao encontro que se asseverou fatal, sobretudo em função das várias prisões ocorridas naqueles dias, ele se recusou de modo peremptório a dar-lhes ouvido. Emiliano também não poupa o seu protagonista de grande responsabilidade pela facilidade dada à repressão para matá-lo. O ponto ao qual Marighella se dirigiu já havia sido utilizado várias vezes por ele mesmo. Age assim em total liberalismo como se dizia naqueles tempos! Uma pergunta assaltará sem dúvida o leitor: o que fez com que Marighella agisse assim neste caso particular? Como provavelmente nem ele mesmo saberia responder, tamanha a avalanche avassaladora de acontecimentos no qual esse turbilhão o aprisionou, talvez uma de suas divisas ajude a conjecturar uma hipótese: ele gostava de dizer que não havia tido tempo de ter medo! Certamente ele estava mais do que consciente de que muito provavelmente não sairia vivo daquela guerra que de fato não realizou senão algumas poucas batalhas. Muito embora o seu maior desejo fosse escapar desse cerco, dele não conseguiu sair senão para ocupar o lugar que é o seu na história. Uma ironia dolorosa aparece para fazer pensar esse momento: Marighella tinha fixado para o dia 9 de novembro uma viagem que seria dedicada a examinar as condições da implantação de uma guerrilha no campo, no interior do Brasil. Ele queria fugir ao que chamava cerco estratégico da ditadura.
Emiliano procura construir sua narrativa partindo da conjuntura do assassinato de Marighella. O leitor é arrebatado pelo clima tenso daquele contexto e, como se estivesse lendo um romance policial, dificilmente largará o livro antes de vencer o primeiro capítulo. É o capítulo da morte. São os contatos na clandestinidade, as questões de segurança nas organizações, os esquemas dos pontos de encontros dos militantes, os cercos da polícia, os furos a estes, as fugas, os tiroteios, as prisões, o terror das torturas, a capacidade de resistir de alguns e as fraquezas de outros. Nessas páginas, o foco da narrativa se desloca do personagem central dessa história. Marighella paira como pano de fundo para dar lugar a cenários de medo, sofrimento, angustia, revolta, mas também de solidariedade, amizade, carinhos e afetuosidade, de vitórias e de derrotas pessoais e coletivas, algumas momentâneas, outras definitivas. Tais acontecimentos são relatados de tal sorte que a imagem de Marighella aparece às vezes humana e às vezes mítica, como ele de fato pairava nas cabeças dos militantes, alguns muito jovens, ou na imaginação dos policiais. Dentre estes últimos, muitos dos quais participantes da emboscada (algo em torno de 45 agentes estiveram envolvidos na ação final), acreditavam que Marighella era uma sorte de deus do mal, que vestia calças carregadas de explosivos para impedir a sua captura de graça, tal qual os heróis anarquistas descritos por Victor Serge em Memórias de um revolucionário ou por Hans Magnus Enzensberger em O curto verão da anarquia. É todo um imaginário social que se constrói: bandido, assaltante, terrorista; simplesmente revolucionário que, como todo homem digno desse nome, também cometeu equívocos de avaliação, tentando acertar. Não resisto aqui à tentação de parafrasear Victor Hugo, a partir de uma de suas imagens tão acertadamente recuperada pelo professor Antônio Cândido no prefácio do livro: Deus abençoa o homem, não por ter achado, mas por ter procurado. Marighella procurou acertar. Inclusive reatando com personagens dos anos 30 e que, desde então, dentro e fora do PCB, combateram os ditames da III Internacional. Por isso foram estigmatizados como inimigos da classe operária. Foram anarquistas, socialistas e trotskystas. Este foi o caso de Hermínio Sacchetta que, desde aqueles anos terríveis, havia rompido com aquela política. Em 1969, Marighella o procurou e mesmo sem concordar completamente com ele, Sacchetta decide ajudá-lo: esconde armas roubadas e publica um manifesto de Marighella no jornal que dirigia. Pagará caro essa solidariedade perdendo o emprego.
Foram várias gerações de militantes do PCB e de outras organizações que tinham uma admiração a toda prova por Marighella e por aquilo que nele, embora não suficiente, parece absolutamente necessário ao revolucionário: a coragem. Isso Marighella tinha de sobra e esta característica, junto com a ousadia do seu caráter, fizeram-no viver esses tempos, desfiando permanentemente a morte. Marighella encarnou mais do ninguém, no Brasil daqueles tempos, a aura do revolucionário cheio de experiência, quase infalível. E de fato ele tinha mais de trinta anos de experiência militando em situações adversas, quase uma década vivida nas prisões do Estado Novo, um curto período de atuação enquanto parlamentar em 1946 e 1947, e um outro de militância semi-legal. Mas no relato de Emiliano, a imagem do Marighella que nos aparece mais forte é a do último período, a do Marighella guerrilheiro, cansado de lutar sob a tática considerada reformista, conciliadora e legalista do PCB. Depois do golpe de 1964, questionado por Ana Montenegro sobre a procedência da sua decisão, ele respondeu dizendo-se cansado de ficar na praia esperando a onda. Contudo, mesmo nesse período, as suas antinomias fizeram com que ele continuasse acreditando na necessidade de uma etapa democrático-popular, anterior ao socialismo e que o principal inimigo do povo brasileiro era o imperialismo americano. Não por acaso sua organização se chamava ALN (Aliança Libertadora Nacional). Ele acreditava ainda numa luta de uma suposta burguesia nacional que foi, de fato, destituida de qualquer veleidade política pela ditadura e, nos últimos tempos, pelo neoliberalismo. As discussões acerca dos 150 anos do Manifesto Comunista e da posição de Marx sobre como semelhante questão se colocava na Europa revolucionária de 1848 podem ajudar a compreender os equívocos da III Internacional que vigiam ainda nos anos 60.
Contudo, esta e outras foram problemáticas que aparecem pouco exploradas no livro ou que simplesmente não aparecem. A relevância de discussões como essas acerca da natureza da revolução brasileira, e toda a participação de Marighella nesse processo, não é o que prende em primeira mão o olhar de Emiliano. Dois terços do seu livro estão voltados para a última fase da vida desse baiano cidadão do mundo. Antes do leitor se perguntar qual a avaliação do autor sobre essas questões, é bom que saiba que ele, de fato, não achava-se preocupado em plano superior com essas questões mais gerais. Seu texto é direto, jornalístico. Uma reportagem biográfica, como ele mesmo o define. Historiadores zelosos, preocupados com tratamento de pé de página para cada citação ou depoimento, "podem tirar o cavalinho da chuva". Filósofos da história, preocupados em tudo explicar de modo transcendental, "não venham para esta praia". Biógrafos acostumados a dar tratamento psicológico a seus biografados, "não alimentem ilusões nesse domínio". As aspas querem dizer que, entretanto, as constatações que aqui faço devem ser relativizadas. Tais perspectivas são formas de tratar a matéria histórica que não se coadunam com o espírito de Emiliano. Ele é voraz e tem pressa como o protagonista da sua narrativa. Por isso escreveu o livro em três meses e provavelmente não esgotou todas as fontes que acumulou. Assim, muitas questões ficaram de fora do seu estudo ou foram abordadas rapidamente, tais como, por exemplo, a natureza do marxismo de Marighella, o balanço que este faz do estalinismo e do culto da personalidade, em especial depois da crise mundial do comunismo nos anos cinqüenta (que passa pela alemã de 1953, pela húngara de 1956, pela provocada pelo célebre XX Congresso do PCUS e pelo relatório Kroutchov, pela revolução cubana em 1959, ou ainda pela cisão sino-soviética). Das questões-chave desse período, a que ele melhor esboça reside na demora de Marighella em romper com o PCB: desde 1948, suas divergências com Prestes e com um setor importante da direção do PCB vieram se acumulando.
No entanto, é preciso que se diga que essas questões não são fáceis de serem respondidas. Contudo, elas precisam, pelo menos, serem colocadas com muita clareza. O fato de Emiliano ter optado por não construir uma narrativa cronologicamente linear pode ajudar a entender isso. E teria que o fazer? Determinado a guardar a tensão inicial do livro, vira a cronologia histórica de ponta à cabeça. O tempo histórico é revolucionado com idas e vindas quase permanentes, ao passado e ao presente. Mas isto não constitui de fato um defeito. Trata-se da característica de uma texto escrito em determinadas circunstâncias, com tempo e espaço delimitado e com objetivos previamente estabelecidos. A bem da verdade, os primeiros anos de seu biografado guarda linearidade na exposição. Mas são os únicos. De todos os modos, nós leitores, que gostaríamos de ter escrito o livro, já estamos contentes em ter podido lê-lo.
*Jorge Nóvoa é professor do Departamento e Mestrado de História da UFBA, coordenador da Oficina Cinema-História (UFBA) e editor responsável da revista O Olho da História.