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Se
estivesse vivo, o líder comunista Carlos Marighella completaria 90 anos no
dia 5 de dezembro. Morto durante o regime militar, a história
encarrega-se, aos poucos, de desmistificar a imagem daquele que já foi
considerado o "inimigo público número 1". Por Vinícius Pinheiro
| Fotos: Acervo
Iconografia, Arquivo Nacional e Arquivos do Estado de São Paulo, Rio
de Janeiro e Pernambuco.

4 de
novembro de 1969, passava um pouco das oito da noite:
Marighela, dentro de um fusca (à
direita) tinha um encontro marcado com freis dominicanos à altura do
número 806 da Alameda Casa Branca. Mas o delegado Fleury o esperava
lá. Foi morto com quatro tiros.
Marighela figurava nos cartazes dos oito terroristas
mais procurados, sob o título de “assassinos”.
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Quatro de novembro de 1969, São Paulo. Em uma operação que envolveu
um total de 29 homens, a equipe do DOPS chefiada pelo delegado Sérgio
Paranhos Fleury mataria Carlos Marighella, o líder comunista mais
procurado do Brasil, em uma emboscada na Alameda Casa Branca. As ordens
eram claras: Marighella não deveria ser preso. Na disputa pelo mérito de
ter eliminado o fundador e comandante da Ação Libertadora Nacional (ALN),
uma investigadora foi morta e um delegado foi ferido.
Se estivesse vivo, Carlos Marighella
completaria 90 anos no dia 5 de dezembro. Desde a volta do exílio em Cuba,
em 1979, Clara Charf, viúva do líder comunista, empenha-se em resgatar a
memória e desconstruir a imagem do "inimigo público número 1" criada em
torno da figura de Marighella. "Ele acreditava que nada poderia ser
transformado sem luta e é isso que estamos fazendo. Mesmo quem discordava
dos métodos utilizados por ele reconhece a sua coerência e coragem durante
toda a vida", diz.
Na opinião de Clara, a realidade atual poderia
ser outra se Marighella não tivesse sido assassinado em 1969. "Ele
utilizou todas as formas de luta de acordo com cada situação que enfrentou
e nos dias de hoje não seria diferente." Durante os 58 anos de vida,
passou por todas as experiências pelas quais um revolucionário poderia
viver e, afirma, jamais cruzaria os braços.
Para o cientista político Alcindo Gonçalves, a
opção da luta armada contra o regime militar seguida por Marighella e
pelas dissidências do Partido Comunista não foi acertada. "Todas as
experiências duraram pouco tempo e não tiveram apoio popular expressivo",
disse. A ditadura começou a ceder, segundo ele, quando formou-se um amplo
arco de forças políticas contra o sistema, o que revelou ser o melhor
caminho. "Apesar disso, a importância dele no processo de defesa das
causas populares é única, não apenas durante a ditadura como em toda a
vida, e sua imagem precisa ser lembrada por isso."
Segundo Vladimir Sacchetta, um dos autores da
fotobiografia "A Imagem e o Gesto" (Editora Fundação Perceu Abramo), se
estivesse vivo Marighella certamente continuaria militando na esquerda e
apoiando movimentos sociais, como o MST. É importante, segundo Sacchetta,
diferenciar a luta armada da época do regime militar do terrorismo atual.
"Marighella seria terminantemente contra os atentados ao World Trade
Center e terroristas como Bin Laden", afirma.
Filho mais velho de uma família humilde – seu
pai era imigrante italiano e sua mãe descendente de escravos africanos –
Marighella, nasceu num sobrado da Baixa do Sapateiro, em Salvador. Dos
tempos de escola, ficou conhecido pelos constantes questionamentos e por
uma prova de física respondida em versos. O poema/prova nota 10 ficou
exposto em um mural como exemplo de imaginação criadora.
Ingressou no Partido Comunista no início dos
anos 30, via juventude comunista. Em 1932 seria preso pela primeira vez,
nas manifestações dos estudantes baianos em apoio ao movimento
constitucionalista. Quatro anos depois, já no Rio de Janeiro, onde
militava pelo PCB, seria preso novamente e duramente torturado.
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