A ficção da imparcialidade
do texto jornalístico de há muito foi
desmascarada, embora continuamente se pretenda apresentá-la
como realidade nos noticiários pasteurizados
dos grandes meios de comunicação. Nunca
me canso de proclamar que sempre se escreve a partir
de um ponto de vista determinado, marcado sempre pela
defesa dos interesses de uma ou mais classes sociais
– dominantes ou subalternas.
Quando me iniciei na vida profissional
de jornalismo, intrigava-me essa incapacidade do texto
jornalístico em apreender as causas que cercam
os fenômenos, embora a organização
do discurso, em torno do fenômeno, expresse inevitavelmente
um ponto de vista. Sentia a falta que faz o texto que
ao mesmo tempo informe, analise e interprete os acontecimentos
– que consiga repô-los sob uma ótica
histórico-social.
Este é o desafio por mim proposto
e enfrentado no decorrer dos anos em que escrevi os
artigos aqui coligidos, publicados principalmente pela
Tribuna da Bahia, um ousado diário que completou
recentemente duas décadas de existência.
Os textos, é preciso dizê-lo, têm
a marca do momento, são envolvidos pelas paixões
que as circunstâncias impõem. Mas carregam
a preocupação de analisar e interpretar
somente depois de pesquisar, e sempre procurando situar
o acontecimento no seu contexto histórico.
Os artigos indagam do socialismo e sua
relação com a democracia, vista aqui como
valor universal, e não apenas como mero instrumento
tático, à moda stalinista. Identificam
uma história nacional marcada pelo autoritarismo,
pelo permanente privilégio das classes dominantes
e conseqüente exclusão das dominadas, indicando
sempre que a única possibilidade de afirmação
de um projeto nacional dos “de baixo” será
decorrente da participação política
efetiva deles, nunca da benevolência do Príncipe.
Ao abordar o Brasil moderno, os artigos
fazem referência ao papel das empresas estatais
na edificação do parque produtivo nacional
e defendem a existência delas, desde que subordinadas
a um estado democrático, oxigenado pela presença
da sociedade civil organizada. Criticam o modelo subserviente
ao capital internacional e insistem no princípio
da soberania. Constatam ainda uma profunda defasagem
tecnológica entre o Brasil e os países
desenvolvidos, defendendo a necessidade de ingressarmos
no terceiro milênio em condições
de competir com países que se reciclam rapidamente,
como as nações européias do Ocidente
e o Japão.
A reforma agrária é preocupação
permanente, como saída econômica e alternativa
à sobrevivência de milhões de trabalhadores
sem terra. Meus textos saúdam a Nova República
como um momento importante da transição
para a democracia e assumem um enfoque crítico
à medida que, progressivamente, logo após
o Plano Cruzado I, ela reincorpora as políticas
do regime autoritário. Comemoram, igualmente,
as liberdades políticas conquistadas, ressaltando
com insistência a necessidade de se consolidar
instituições democráticas, única
forma de as classes dominadas poderem efetivar seus
projetos para a Nação.
Os artigos ressaltam que a dívida
externa é impagável e reafirmam a necessidade
de o país lutar pela integração
da América Latina. A luta pela libertação
do Continente latino-americano é uma constante,
com destaque para a Nicarágua e Chile.
Acredito que é necessário
prosseguir na luta para que o jornalismo seja os olhos
críticos da nação, mesmo que as
dificuldades sejam enormes. O repórter continua
a ter importância fundamental na produção
dessa mercadoria chamada notícia, e que será
sempre perpassada pela visão de mundo que ele
tenha – dessa realidade os proprietários
das empresas de comunicação não
podem fugir; dessa responsabilidade os jornalistas,
esses aventureiros do cotidiano não podem abrir
mão.
Devo ao final insistir numa obviedade:
os meios de comunicação não têm
o poder absoluto que imaginam ter. Essa consciência
é fundamental para que não subestimemos
o papel deles. Há sempre que se considerar a
reação das massas que, pelas mais variadas
formas, podem fazer valer sua vontade.
Até por isso, nós jornalistas,
temos que – para que não sejamos surpreendidos
pelos fatos, tão aparentemente valorizados pelos
que cultuam a “objetividade” – ouvir
os clamores do povo, ter sensibilidade para quilo que,
para além das aparências, corre nas camadas
subalternas. Nós, que lidamos com a comunicação
social, não podemos nos conformar com essa espécie
de apartheid a que condenaram os humilhados e ofendidos
deste Paíssob pena de sermos um dia tragados
pelas lavas do vulcão submerso.