Democracia
e comunicação
Um dos temas mais palpitantes da V semana
de Cultura de Santa Maria da Vitória, promovida
pela Associação de Desenvolvimento Rural
Integrado a bacia do Rio Corrente, no Oeste baiano,
foi o papel dos meios de comunicação no
Brasil, particularmente no interior. O deputado Domingos
Leonelli (PMDB-BA), expositor do assunto, sustentou
a necessidade da democratização da propriedade
e do uso dos meios de comunicação, afirmando
que o problema deveria ser objeto de intensas discussões
na Constituinte de 1986.
Já faz anos que os jornalistas
brasileiros vêm se ocupando dessa questão,
porquanto acreditam que o “acesso do público
à informação deve garantir-se mediante
a diversidade das fontes e dos meios de informação
de que disponha, permitindo assim a cada pessoa verificar
a exatidão dos fatos e fundamentar objetivamente
sua opinião sobre os acontecimentos”, como
diz a “Declaração da Unesco sobre
os meios de comunicação”. Assim,
propõem que toda a sociedade brasileira lute
para que se modifique a situação relativa
à propriedade e ao uso dos meios de comunicação,
marcada pela concentração e pelo autoritarismo.
No decorrer da década de 1970,
ampliou-se em todo o mundo, especialmente em organismos
como ONU e Unesco e nas Conferências dos Países
Não-Alinhados, o debate sobre a dependência
informativa das nações do denominado Terceiro
Mundo.
As nações periféricas
passaram a repensar os conceitos e padrões que
o centro capitalista lhe impunha – e lhes impõe
– em favor de seus exclusivos interesses econômicos,
políticos e culturais.
Essa tomada de consciência estimulou
os países periféricos a lutarem por uma
nova ordem informativa internacional. Começava-se
a perceber a brutalidade da manipulação
da notícia através dos serviços
monopólicos das agências internacionais,
entre as quais podem ser citadas a AP, a UPI ou a France
Press, todas elas destinadas a veicular exclusivamente
o ponto de vista dos interesses do centro capitalista
e descaracterizar os acontecimentos das nações
da periferia.
O jornalista Argemiro Ferreira, autor
de “Informação e Dominação
– A dependência informativa do Terceiro
Mundo e o papel do jornalista brasileiro”, texto
apresentado no XVIII Congresso Nacional dos Jornalistas
Profissionais (1980) lembra como as agências internacionais
trabalharam para desestabilizar e derrubar o governo
constitucional de Salvador Allende. Não é
preciso recuar tanto no tempo. Basta olhar os jornais
e revistas, assistir à televisão ou ouvir
o rádio para identificar uma bem orquestrada
campanha contra o novo regime nicaragüense.
Ao dizer tudo isso, queremos enfatizar
que o controle dos meios de comunicação
tornou-se, na época do capitalismo monopolista,
um elemento estratégico para manter a exploração
dos países periféricos pelos centrais
e para o próprio controle ideológico dos
povos das nações mais densamente industrializadas
do ocidente.
No Brasil, a partir de 1964, cresceu
a intensidade da monopolização da economia
brasileira. Como conseqüência direta disso,
avançou também o processo de formação
de monopólios na área de comunicação
de massa, com a constituição de um sofisticadíssimo
parque tecnológico no setor. Com isso, os únicos
a desfrutarem dos meios de comunicação
de massa são os setores das classes dominantes.
As classes dominadas restringem-se à condição
de passivos ouvintes, leitores ou telespectadores.
O símbolo maior dessa concentração
é a Rede Globo, que marca de alguma forma, no
Brasil, o surgimento de uma indústria cultural
moderna, de padrão de qualidade entre os mais
elevados do mundo e subordinada, mesmo que indiretamente,
aos interesses das classes dominantes no Brasil e aos
desígnios do Estado. Quase toda a produção
despejada nos lares brasileiros é decidida por
alguns homens, não sendo possível aos
usuários dessa produção decidirem,
sequer minimamente, sobre o conteúdo e a forma
dela.
A imprensa escrita, como as sabe, é
monopolizada por alguns grandes jornais e revistas nacionais,
a ponto de sufocar até a “grande imprensa”
regional. As emissoras de rádio, a partir do
autoritário sistema de concessões, são
controladas pelos grandes complexos de comunicação
ou por políticos ligados até então
ao agonizante PDS.
A informação é
um direito do povo brasileiro, de todos os povos. Não
pode continuar nas mãos de apenas uns poucos
a decisão sobre o que se pode e deve informar.
Por isso, a Assembléia Nacional Constituinte
de 1986 terá necessariamente que tratar desse
assunto, de modo que a população, num
futuro mais próximo, possa decidir sobre o que
penetra em suas casas. E mais do que isso, que as organizações
populares possam também montar seus próprios
meios de comunicação modernos, aptos a
transmitir aquilo que a comunidade deseja ver, ler e
ouvir. Se isso não se concretizar, ainda estaremos
longe da real democratização da sociedade
brasileira, submetida ao autoritarismo modernizador
dos meios de comunicação.
Emiliano José - Jornal
da Bahia - 13.12.1985.