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Parte
II - O GRITO DO CAMPO
A
rotina e o heroísmo
Há
variadas espécies de homem. Uma delas, o sábio,
é para mim mais que um gênio – não
dispara as luzes deste, mas derrama ensinamentos colhidos
vida afora. Ao mesmo tempo, recicla seu conhecimento
a cada minuto, acreditando mais na força da construção
rotineira da vida do que no ato heróico em si.
O sábio é uma espécie de farol.
Assim
é Euclides Neto, hoje Secretário de Reforma
Agrária e Irrigação do governo
Waldir Pires. Este final de semana estivemos juntos
por dois dias, correndo mundo. Claro que vou falar da
reforma agrária, mas devo dizer que ele é
o sinalizador do que estou escrevendo, embora não
o responsável, obviamente. É um homem
da terra, profundo conhecedor de seus segredos e dotado
de um sentimento de amor ainda mais profundo pelos trabalhadores
rurais.
Sobre
a rotina e o ato heróico, foi ele que me falou
durante a viagem. E fiquei pensando no que ouvi. De
fato, ao analisar tanto a história coletiva quanto
trajetórias individuais, tendemos a superestimar
o momento heróico em detrimento da rotina que
o constrói. Falamos da Revolução
de 1917 na Rússia dos Czares como se ela tivesse
sido fruto de uma decisão heróica daquele
momento e não, como de fato foi, uma longa construção
dos revolucionários bolcheviques. Tratamos da
promulgação da Constituinte como se o
grande e exclusivo momento fosse aquele do dia 5 de
outubro que passou, e não os meses e meses seguidos
de estafante trabalho que redundou na mais democrática
Carta que o Brasil já teve, apesar das deficiências.
Às vezes, essa visão “heróica”
nos faz perder de vista por exemplo que a Nova Constituição
só será realidade crescente se prosseguirmos
na rotina da construção da democracia
no Brasil, o que implica o trabalho de fortalecimento
da nossa sociedade civil, sobretudo dos setores populares.
E
a reforma agrária também é isso.
Uma longa, penosa caminhada nesse Brasil de instituições
prussianas, autoritárias. Às vezes, vinculados
ao pensamento socialista, esquecemo-nos de nossa própria
história e acreditamos que basta o discurso ou
a capacidade volitiva para que a reforma agrária
se faça. Não é assim. A democratização
da sociedade brasileira está em curso e a transformação
das estruturas arcaicas do campo e a redistribuição
da propriedade da terra só serão possíveis
como resultado de uma luta de longa duração.
Num
país que começou sob a égide da
plantation escravista que prosseguiu sob o latifúndio
e que se “modernizou” à base da grande
empresa capitalista, a possibilidade da reforma agrária
é sempre vista como um grande risco para seculares
privilégios e tradições quase atávicas,
como esse apego incontido – às vezes incompreensível
– à terra, mesmo aquela absolutamente improdutiva,
como se observa em tantos lugares quando se fala em
desapropriação.
Temos
enfrentado sérias dificuldades para a consecução
da proposta de reforma agrária. A Nova República,
ainda bafejada pelos ares progressistas, da voz das
ruas, sobretudo pela campanha das diretas, formulou
uma proposta aceitável, para depois, de recuo
em recuo, quase mata-la. Lamentavelmente, a Constituinte
sucumbiu diante das pressões da extrema-direita
– leia-se UDR – e a Constituição
pretendeu inviabilizá-la de vez.
Mas
o rio continua a correr em direção ao
mar. Há um clamor maior, proveniente dos milhões
de trabalhadores sem terra, justamente os que produzem
alimentos neste país. Há um trabalho em
curso, paciente e sem muita propaganda. Foram desapropriados
na Bahia mais de 400 mil hectares e há algumas
áreas reformadas já em plena produção.
Foi numa destas que estivemos eu e Euclides Neto, entre
os municípios de Quijingue e Tucano, onde estão
assentadas 88 famílias de pequenos produtores
desde março deste ano.
Euclides
colheu uma espiga do milharal que se perdia de vista,
debulhou-a e jogou para as galinhas no quintal de um
dos trabalhadores. Bem alimentadas, elas olharam e continuaram
a ciscar, o milho lá, sem ser tocado. Foi então
que Euclides disse ter consciência de que ali
a reforma agrária era bem-sucedida. Em poucos
meses aqueles pequenos agricultores tinham cada um,
além do estoque de feijão, milho e abóbora,
várias galinhas, duas ou três cabeças
de gado bovino, algumas cabras, a comida diária
e algum excedente, além de algum dinheiro no
banco.
“Estes
homens estão alcançando a cidadania”,
sentenciou Euclides Neto. Estão dando um passo
nessa direção. Tanto assim que reivindicaram
várias coisas do secretário, água,
escola, estrada. Eles mesmos haviam dividido a terra,
sem maiores conflitos, sob supervisão e direção
da Cooperativa dos Produtores Rurais de Tucano, que
vem realizando um trabalho admirável em toda
a região.
Ainda
há uma longa estrada a percorrer, muita luta
a travar até que um dia a sociedade brasileira
seja efetivamente democrática e a reforma agrária
uma realidade para os milhões de trabalhadores
sem terra. Chegar lá depende menos do ato heróico
que da cinzenta rotina da organização
dos trabalhadores e da tomada de consciência de
toda a sociedade acerca da importância de redistribuir
a propriedade da terra.
Tribuna da Bahia – 13.10.1988
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