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Parte
III - A PARTICIPAÇÃO POLÍTICA
Assassinos
à solta
Foi
um espetáculo de terror, digno de psicopatas.
Na madrugada de 3 de janeiro de 1985, um bando de assassinos
comandado pelo delegado Adilson Alves Santos, titular
da 3ª Delegacia, invadiu a casa do suplente de
vereador, líder comunitário e trabalhador
Alcebíades Ferreira Couto, no Novo Marotinho,
bairro de Salvador. A porta da casa cedeu aos pontapés
e Alcebíades foi imediatamente algemado assistindo
ao espancamento da mulher, Carmosina, e dos três
filhos menores.
Alcebíades
apanhava sem saber por que e não sabia responder
àqueles homens que pareciam estar sob efeito
de poderosas drogas – Onde estão as armas?
– Que armas? Alcebíades reagia, nunca usara
armas. Apanhava mais. Doía-lhe a coluna de que
sofre há muito. E ele pensava na perícia
médica por que passaria no Inamps no próximo
dia 15, sendo cardíaco. A casa virou um pandemônio:
destruíram gavetas, revolveram tudo e roubaram-lhe
o relógio de pulso, único objeto de valor
que possuía.
Por
mais que procurassem, armas não existiam. Arrastaram
um Alcebíades já alquebrado até
o esgoto que corre a céu aberto e ali deram-lhe
um tiro na coxa esquerda, estourando-lhe o fêmur.
A tudo assistiram estarrecidos e impotentes os moradores
do bairro, já que duas dezenas de metralhadoras
impediam-nos de sequer se aproximarem. Só depois
de meia hora, quando Alcebíades Já havia
perdido muito sangue, a intervenção de
um sargento morador do bairro fez ver aos policiais
o erro que estavam cometendo: tinham torturado e atirado
num trabalhador.
Na
segunda-feira seguinte, estive com Alcebíades
na clínica ortopédica. Encontrei um homem
de cabeça erguida, mas arrasado pela tempestade
que se abatera sobre sua vida. Chorou quando lhe perguntei
pelo filho de 20 anos, Alcebíades Ferreira Couto
Filho, preso naquela noite sob suspeita de participação
em assaltos. Sua irmã dizia: “homem não
chora”. E eu disse: “Chora”...A garganta
travou, as palavras faltaram. Alcebíades e Carmosina
são meus amigos. Hoje, ele poderia estar morto.
Quem então arcaria com a responsabilidade?
Essas
perguntas tornam-se mais presentes por ser Alcebíades
um homem acima de qualquer suspeita. Ou talvez seja
suspeitíssimo pela vida que tem levado nos últimos
anos. Foi ele quem comandou a resistência à
derrubada dos barracos do Velho Marotinho, em 1976.
Foi ele quem, ao lado de tantos outros lutadores, como
Antônio e Landinho, ergueu o Novo Marotinho, símbolo
da resistência popular em Salvador. Foi com ele
à frente que a Associação de Moradores
do bairro tornou-se respeitada. Candidato a vereador
pelo PMDB nas últimas eleições,
foi votado por mais de duas mil pessoas.
Alcebíades
tem dúvidas, todos temos. Será que não
decidiram pegá-lo agora? Será que se trata
apenas da ação de psicopatas? Dificilmente
saberemos. No entanto, quanto ao atentado de que foi
vítima, há culpados facilmente identificáveis.
E o governador não pode, novamente, fazer ouvidos
de mercador diante de uma política arbitrária
como é a da Bahia, comandada pelo coronel Bião
Cerqueira. Qualquer atitude omissa do governo o faz
conivente com a arbitrariedade.
Não
há novidade em dizer que a polícia, na
Bahia, é comandada por quem se acostumou a ter
como método a porrada. Afinal, todos sabemos
e o deputado Murilo Leite denunciou o fato à
saciedade: o coronel Bião Cerqueira é
egresso dos órgãos de segurança
e foi o comandante principal da tortura a presos políticos
no início da década de 70. O delegado
Edgar Medrado, diretor do departamento de Polícia
Metropolitana, que irresponsavelmente afirmou ter Alcebíades
reagido à polícia, com freqüência
ocupa as páginas policiais como comandante de
jagunços no ataque a posseiros na Chapa Diamantina.
Não
podemos cruzar os braços. Todos os setores da
sociedade civil comprometidos com os direitos humanos
devem reclamar a punição dos agressores
de Alcebíades e uma mudança radical nos
métodos de atuação da polícia.
A democracia no Brasil não será real se
as periferias onde habita a classe operária permanecerem
desrespeitadas.
É
certo que o problema da polícia é complexo,
envolvendo muito mais que medidas de emergência.
São urgentes mudanças de profundidade
nas estruturas políticas, econômicas, sociais
e culturais. Mas nenhum argumento justifica o imobilismo
diante de uma agressão dessa natureza. É
necessário que nos escandalizemos e nos revoltemos
face a este tipo de abuso contra as camadas populares.
É preciso que soframos junto com Alcebíades
a humilhação de apanhar da polícia
na frente dos filhos, ele que trabalhou a vida toda
para sustentá-los e que ostenta no corpo, no
coração e na coluna as marcas do trabalho,
somando-as agora às marcas da tortura.
É
preciso chorar com Carmosina, mãe, mulher, impotente,
suplicante, em prantos diante dos assassinos. Mas sobretudo
é preciso reagir. É fundamental que os
vereadores de Salvador se levantem, que imaginem a cidade
dirigida democraticamente. Dia virá que será
assim. A luta contra isso é pra já. Aos
deputados cabe cobrar do governador uma atitude sem
a qual ele se mostrará outra vez conivente com
os desmandos a polícia.
Do
Marotinho nasceu, em 1976, uma lição de
resistência. Quem sabe agora, de lá outra
vez surja com sangue a lição de que a
luta pelos direitos humanos continua e se concentra
hoje principalmente na defesa dos direitos das camadas
mais exploradas da população.
Jornal da Bahia – 07.01.1985
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