|
Parte
III - A PARTICIPAÇÃO POLÍTICA
O
suave sussurro do vento
O
Iº Encontro dos Povos Indígenas do Xingu,
em Altamira, que reuniu representantes de 24 tribos
de 12 nações indígenas e mais de
300 ecologistas, levantou no Brasil a ponta do véu
de uma gigantesca batalha, que no final deverá
resultar na convivência pacífica e harmônica
entre os progresso e o meio ambiente ou no apocalipse.
A luta ecológica envolve a sobrevivência
da humanidade, a longo prazo, e a qualidade da vida,
nos dias atuais.
Não
estaremos errados se dissermos que a luta pela preservação
do meio ambiente remonta a séculos, mas é
inegável que a força destrutiva do modo
de produção capitalista, com sua específica
noção de progresso, foi progressivamente
colocando a questão na ordem do dia, crescendo
em importância a partir do início dos anos
70, sobretudo a partir da Conferência das Nações
Unidas sobre o Ambiente celebrada em 1972 em Estocolmo,
com representantes de 109 países.
O
desenvolvimento da guerra fria levou as grandes potências
a desenvolverem arsenais atômicos capazes de destruir
a terra num simples apertar de botões, ao tempo
em que a simples existência das usinas nucleares
representa uma constante e terrível ameaça
ao meio ambiente e à vida humana. Sem desconhecer
o lado infinitamente mais destrutivo do capitalismo,
a questão ecológica passou a ser um problema
de toda a humanidade e não apenas do mundo capitalista.
Referindo-se
às condições da classe trabalhadora
na Inglaterra em meados do século passado, Engels
assinalava os efeitos destrutivos da expansão
industrial sobre o meio ambiente. No Capital, Marx lembrava
que “a transformação capitalista
do processo de produção é, ao mesmo
tempo, o martírio dos produtores” e que
“todo avanço da agricultura capitalista
é um avanço da arte não só
de roubar o trabalhador, mas também de roubar
o solo”, acrescentando que esse processo levaria
à ruína, a longo prazo, as fontes permanentes
da fertilidade da terra.
Provavelmente,
no entanto, nenhum deles seria capaz de prever a complexidade
que o problema adquiriria com o desenvolvimento das
forças produtivas. Atualmente é impossível
falar da dívida externa brasileira sem relaciona-la
ao meio ambiente, pois os países desenvolvidos,
por razões diversas, estão preocupados
especialmente com a Amazônia, palco de um dos
maiores crimes ecológicos da história
mundial. Nem contam a também criminosa destruição
da Mata Atlântica (como ocorre neste momento no
Sul da Bahia) e do Pantanal.
Diante
de uma fotografia em branco e preto da economia política
da ecologia no Brasil de hoje, ficaríamos assustados
ao constar que as maiores vítimas são
os trabalhadores. No campo, a destruição
da pequena propriedade dá lugar à grande
produção e à monocultura que empobrecem
o solo e só aumentam a produtividade à
base de agrotóxicos “que contaminam nossos
alimentos, a água e os milhões de bóias-frias
desempregados metade do ano”, conforme Carlos
Minc, deputado pelo PV do Rio de Janeiro, em artigo
recente.
Nas
grandes cidades, a profecia apocalíptica torna-se
diariamente realidade. Toda a população
sofre com os efeitos das indústrias poluentes,
que também agridem as outras formas de vida.
Quem não se lembra que há dez anos uma
descarga acidental de gás sulfuroso no Pólo
Petroquímico de Camaçari matou mais de
20 mil árvores dos arredores? Os trabalhadores,
para tomar de empréstimo a avaliação
de Minc, “desabam das encostas, naufragam nas
inundações, adoecem no lixo não-reciclado
e mas fétidas valas abertas da América
Latina”.
Não
é possível perseguir o sonho da libertação
dos trabalhadores pela via da democracia e do socialismo
sem perseguir simultaneamente os ideais da paz e de
um meio ambiente preservado para as gerações
presentes e futuras. E a ecologia não é
u7m desafio tão simples. O arquiteto Alberto
Hoisel lembrava que o buraco de Ozônio, o efeito
estufa e a nova poluição espacial promovida
pelos detritos em órbita são problemas
cuja solução está além da
capacidade tecnológica disponível na Terra.
Assim, será necessário um esforço
concentrado no sentido de conquistar os meios científicos
para o enfrentamento do problema.
Em
1885, o cacique norte-americano Seattle, da tribo Duwamish,
diante da proposta do governo dos EUA de comprar o território
da tribo, escreveu uma carta ao então presidente
Franklin Pearce que é um exemplo de uma relação
harmônica entre o homem e a natureza. “Como
podes comprar ou vender o céu. O calor da terra?
Tal idéia é-nos estranha. Se não
somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água,
como então podes comprá-los? Cada folha
reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada véu
de neblina na floresta escura, cada clareira e inseto
a zumbir são sagrados nas tradições
e na consciência do meu povo. A seiva que circula
nas árvores carrega consigo as recordações
do homem vermelho (...) Somos parte da Terra e ela é
parte de nós. As flores perfumadas são
nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia
são nossos irmãos. O rumorejar d´água
é a voz do meu pai. Os rios são nossos
irmãos; eles apagam nossa sede, transportam nossas
canoas e alimentam nossos filhos. Sabemos que o homem
branco não compreende o nosso modo de viver.
A terra não é sua irmã, mas sim
sua inimiga e, depois de conquistar ele vai embora.
Não há um sequer um lugar calmo nas cidades
do homem branco. O índio prefere o suave sussurro
do vento a sobrevoar a superfície de uma lagoa
e o cheiro do próprio vento, purificado por uma
chuva do meio-dia, ou recendendo a pinheiro”.
“O
ar é preciso para o homem vermelho. O homem branco
parece não perceber o ar que respira. Como um
moribundo em prolongada agonia, ele é insensível
ao ar fétido. Tudo quanto agride a terra agride
os filhos da terra. Não foi o homem que teceu
a trama da vida. Ele é meramente um fio dessa
trama. Tudo que ele fizer à terra, a si próprio
fará. Continua poluindo a tua cama e hás
de morrer uma noite, sufocado em teus próprios
dejetos”, sentencia Seattle, ressalvando sempre
que tais opiniões são decorrentes do fato
de ser ele “um selvagem que nada entende”.
Altamira
evidenciou que os indígenas continuam a compreender
a bela trama da vida e que o homem branco precisa beber
nas fontes primitivas e voltar a conviver pacificamente
com a natureza, sem a selvageria atual. Assim o branco
poderoso, ao pensar só no lucro, está
semeando a morte. Do fundo da terá catalã
ouvimos ainda o canto de Lorca e com ele cantamos “Verde
que te quero verde. Verde vento. Verde ramas”.
Pela vida.
Tribuna da Bahia – 28.02.1989
|