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Parte
IV - O LEILÃO DAS ESTATAIS
Rômulo
Almeida
Emília
falou baixinho: - Connell acreditava que muitas coisas
podiam acontecer no período de uma vida, mas
a gente tinha de forçá-las a acontecer.
Connell
Pearce é personagem de um conto de Joyce Carol
Oates – “O casamento sagrado”. Morto,
ficaram as lembranças de um poeta extraordinário
na mulher Emília, que não se cansava de
alegremente reverenciá-lo. Há homens assim,
que cuidam
De fazer com que muitas coisas aconteçam no período
de uma vida e que, ao desaparecerem, deixam-nos uma
sensação imensa de perda. A humanidade
fica mais pobre quando eles se vão.
São
homens singulares estes que conseguem imprimir o seu
ritmo a tudo que os rodeia. Homens capazes de compreender
o seu tempo e assimilar as circunstâncias. Usando
toda a capacidade volitiva que podem ter, quase que
plasmam os acontecimentos em derredor.
Rômulo
Almeida foi um desses homens. Às vezes, no exercício
de minhas atividades jornalísticas – e
quanto abusei da fonte que ele era – perguntava-lhe
se não pretendia escrever sobre a trajetória
extraordinária de sua existência. “Não
sou homem do passado, quero estar sempre pensando o
futuro”, respondia, a distinguir-se de tantos
quantos, na sua idade, sentam-se para escrever as memórias.
Preferia
continuar produzindo. Não cabe aqui traçar
seu perfil biográfico, até porque quase
tudo foi dito pela imprensa nestes últimos dias.
Mas talvez caiba lembrar, já que estamos na página
de economia, que Rômulo foi um arquiteto desse
Brasil dos últimos 40 anos. Presente na formulação
de idéias, presente na execução.
O país da substituição das importações
teve muito a ver com ele, e mesmo o posterior a 64.
No
segundo governo de Vargas (1950-54) foi Chefe da Assessoria
Econômica da Presidência da República,
mostrando-se um dos principais teóricos do nacionalismo
daquele período. Não por acaso, portanto,
um dos maiores responsáveis pelo monopólio
estatal do petróleo e conseqüentemente pela
criação da Petrobrás. No momento
em que as empresas estatais – e particularmente
a Petrobrás – andam tão ameaçadas,
é importante recordar isso.
Nesse
período tão fértil, Rômulo
Almeida e sua equipe – que reunia outros homens
singulares como Jesus Soares Pereira, Ignácio
Rangel, Ottolmy Struch, Alberto Guerreiro Ramos e Tomás
Pompeu – conseguiram viabilizar a Eletrobrás,
o Banco do Nordeste do Brasil e a Superintendência
de Desenvolvimento da Amazônia, além de
elaborar o roteiro de uma nova política de combate
à seca, o Plano Nacional de Eletrificação,
o Plano Nacional do Carvão e a Lei do seguro
Agrário.
Ali,
ficava evidente que ele havia compreendido a necessidade
de procurar um caminho próprio para o desenvolvimento
do Brasil. “Na análise concreta da situação
com concreta”, entre a tendência internacionalizante
e entreguista dos que vão provocar a morte de
Vargas e a posição do próprio Vargas,
mais nacionalista, ele optou por esta última,
dando-lhe consistência teórica e prática.
A
voragem internacionalista dos anos JK e o golpe de 1964
golpearam profundamente os sonhos de Rômulo. A
primeira lançava bases sólidas para o
modelo capitalista dependente que se afirmou entre nós.
O segundo terminava com as ilusões populistas,
golpeava a democracia e reafirmava a internacionalização
de nossa economia, de cuja subordinação
aos centros do capitalismo internacional ninguém
hoje duvida.
Nos
pós-64 e aqui dispensamos de falar da contribuição
que deu a organismos internacionais de desenvolvimento
e à OEA – Rômulo Almeida ainda contribuiu
decisivamente em vários projetos industriais,
dentre os quais o Centro Industrial de Aratu e o Pólo
Petroquímico de Camaçari, não sem
antes ter introduzido o planejamento no Estado da Bahia,
com a Criação da Comissão de Planejamento
Econômico, no governo Antônio Balbino.
Sua
capacidade técnica, no entanto, nunca se rendeu
às tentações circunstanciais. Bem
poderia ter sido ministro do autoritarismo, mas sempre
recusou qualquer cargo no período. Mais do que
isso, foi um dos construtores da resistência à
ditadura. Todos nos lembramos da odisséia que
foi sua campanha ao Senado em 1978, pelo MDB –
e ali ele evidenciava desprendimento, abnegação,
capacidade de sacrifício e consciência
democrática.
Em
1982, candidato a vice-governador pelo PMDB, com Roberto
Santos, demonstrava novamente seu espírito de
sacrifício. Em 1986, pôde experimentar
a alegria da vitória de Waldir Pires, que ele
tanto ajudou a construir. Dele, mais do que as extraordinárias
contribuições teóricas e práticas
ao desenvolvimento do país, ficam as constantes
observações sobre a natureza concentradora
da renda desse mesmo desenvolvimento, sua aguda consciência
social.
Mais
do que isso tudo, fica o exemplo extraordinário
de coerência, de observância a princípios
democráticos profundos. Num momento como este,
o país invadido pela desesperança e pela
descrença nos políticos, Rômulo
Almeida nos faz herdeiros da convicção
de que é preciso seguir adiante em busca de um
mundo novo pelo qual lutou até morrer.
Tribuna da Bahia – 30.11.1988
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