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Parte
V – O Brasil e a ordem econômica mundial
Navegar é preciso
A
Europa Ocidental, atavicamente assombrada pelo medo
da guerra, começa a buscar hoje u7m projeto que
a coloque como uma força econômica e política
em ascensão. O berço das revoluções
comercial e industrial tenta sacudir-se de um sono letárgico
e escapar da decadência em que as guerras mundiais
o jogaram.
Sente-se
hoje no Velho Continente uma espécie de triunfo
antecipado diante da possibilidade muito próxima
de se abolirem as fronteiras comerciais. À meia-noite
do dia 31 de dezembro de 1992 estará definitivamente
formada a Comunidade Econômica Européia
(CEE), com um mercado consumidor de 324 milhões,
o maior do Ocidente. França, Alemanha Ocidental,
Bélgica, Dinamarca, Espanha, Grã-Bretanha,
Grécia, Holanda, Irlanda, Itália, Luxemburgo
e Portugal deverão constituir um bloco econômico
único, sem barreiras alfandegárias, na
pretensão nada modesta de adentrar o século
XXI como a principal força econômica do
mundo.
Por
que razão a Europa faria esse movimento de unificação
econômica? O professor René Mouriaux, pesquisador
do Centro de Estudos da Vida Política Francesa
Contemporânea, da Fundação Nacional
de Ciências Políticas de Paris, me dizia
em janeiro último que a razão principal
é de natureza política: o capitalismo
europeu ocidental estaria profundamente preocupado com
o crescimento da influência da URSS, sobretudo
com o advento da Perestroika.
Não
se trata assim de uma simples operação
comercial para organizar uma melhor circulação
de mercadorias entre os diversos países, embora
seja este o movimento concreto imediato. Mouriaux acredita
que pode haver, com tal iniciativa, a conseqüência
positiva de evitar a bipolarização entre
os EUA e a URSS. Insiste, no entanto, que a iniciativa
de formalizar a Comunidade Européia não
nasce como conseqüência direta das necessidades
da produção.
No
terreno estrito da produção, há,
no entanto, problemas a serem superados pelos ideólogos
da unificação já decidida. A maioria
dos países está preocupada com a ascendência
que possam vir a ter a Alemanha e a Itália, sobretudo
a primeira, nitidamente em vantagem nos terrenos industrial
e tecnológico. O estabelecimento de cotas de
produção para cada país obriga
cada um deles a reciclar-se economicamente, e isto já
acarretou alguns problemas.
Várias
siderúrgicas já foram fechadas na França,
principalmente na região de Lorena (no Leste)
e de Lille (no Norte). Mouriaux esclarece que o capital,
ao fechar tais siderúrgicas, mata dois coelhos
de uma só cajadada: satisfaz os interesses de
uma nova divisão internacional do trabalho e
diminui o potencial de luta da classe operária,
já que nessas regiões é elevado
o índice de sindicalização.
Mouriaux
teme ainda que as normas da futura Comunidade Econômica
Européia, sobretudo aquelas referentes à
legislação trabalhista, possam vir a entrar
em choque com as conquistas dos trabalhadores em vários
dos países que a integrarão. Neste momento,
no entanto, não há qualquer expectativa
de reações conjuntas da classe operária
européia que pudessem influir no rumo geral da
política da CEE.
Na
Espanha, em dezembro passado, a classe operária
promoveu uma greve geral vitoriosa contra a política
imposta por Felipe Gonzalez, hoje atento a uma política
saneadora/desenvolvimentista da Espanha, preocupado
com a grande política européia e desatento
às conseqüências sociais que oneram
os trabalhadores. Mas isso não significa que
o restante da classe operária reaja assim, nem
que alguma ação conjunta se esboce.
Se
a Itália apresenta um Partido Comunista forte
e moderno, e portanto uma classe operária mais
ativa, organizada e mobilizada, o mesmo não se
pode dizer de Portugal, onde há hoje um claro
predomínio da direita, com cavaco e Silva dando
as cartas, com o PS de Mário Soares enfraquecido
e com o Partido Comunista sem muita expressão
social. Na Inglaterra, Margareth Thatcher movimenta
as pedras como quer, contanto com apoio popular e jogando
cada vez mais para a direta.
A
França de Mitterand tem uma classe operária
dividida, devido sobretudo aos incessantes acordos e
rompimentos entre o PC e o Partido Socialista. Como
conseqüência disso, apenas 10% dos trabalhadores
são sindicalizados e metade destes tem entre
60 e 70 anos. Boa parte dos operários chegou
a votar em Le Pen, candidato da extrema-direita à
Presidência da República.
Em
Paris, especialmente, preparam-se de maneira febril
as comemorações do bicentenário
da Revolução Francesa, marco da destruição
das estruturas feudais, espécie de data inaugural
do capitalismo, mesmo que este já estivesse sido
impulsionado muito antes na velha Grã-Bretanha.
A
Espanha não só sediará as Olimpíadas
de 92 em Barcelona, como também a Exposição
Universal em Sevilha, que pretende comemorar os 500
anos de descobrimento da América. O que a velha
Europa talvez esteja percebendo, apesar das comemorações,
é que a sua idade de ouro já passou. Trata-se
agora de viabilizar um projeto de permita sua sobrevivência,
resgatando-a da condição de refém
da guerra armamentista.
O
equívoco é provavelmente fazer da Comunidade
Econômica Européia uma resposta política
à URSS exatamente no momento em que Mikhail Gorbatchev
dá lições ao mundo sobre a necessidade
de uma convivência pacífica, com exemplos
cada vez mais concretos. Espera-se que a luta dos povos
europeus leve ao fortalecimento da democracia e que
a emergência da CEE não seja apenas uma
decorrências das necessidades do grande capital,
porém um passo a mais no sentido da paz e da
justiça social.
Vasco
da Gama é uma lembrança longínqua
nas vagas do tempo. Robespierre, Danton e Marat passaram
à História como atores da luta pela Liberdade,
Igualdade e Fraternidade. Quem sabe a Europa possa recolher
agora, em tempos de paz, a ousadia dos navegadores e
os sonhos dos revolucionários de 1789 para assegurar
melhores condições de vida aos povos do
Continente. Parafraseando Fernando Pessoa, o Velho Continente
compreendeu que navegar é preciso, mas que sobretudo
viver também é preciso e para tanto é
necessário ir à luta. Os anos 90 falarão
dos resultados.
Tribuna da Bahia – 09.02.1989
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