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VIII – Que socialismo?
A paz celestial
Quando
a República Popular da China foi proclamada,
no dia 1º de outubro de 1949, dava-se um dos maiores
passos da humanidade em direção ao socialismo.Com
os muito milhões de chineses incorporados ao
novo modo de produção, a balança
começava a pender favoravelmente aos que defendiam
o fim da exploração do homem pelo homem.
À ousadia bolchevique de 1917, com Lênin
à frente, às repúblicas socialistas
surgidas como decorrência da Segunda Guerra Mundial,
acrescentava-se a rebelião das massas camponesas
lideradas por Mão Tsé Tung, que libertavam
a China das seculares estruturas coloniais e semicoloniais.
Durante
muito tempo a China foi um modelo para muitos partidos
e militantes defensores do socialismo, suscitando às
vezes um fervor próximo da religiosidade. O recente
massacre da Praça da Paz Celestial vem provocar
uma séria reflexão sobre os rumos do socialismo,
especialmente em torno da relação que
se deve estabelecer entre socialismo e democracia, para
além da inevitável condenação
da atitude do governo chinês. Preferiu-se o atalho
da repressão, num típico raciocínio
stalinista, ao invés do caminho da negociação
e do diálogo, que viabiliza o jogo democrático.
Nos
anos recentes, temos assistido a um esforço constante
da China no sentido de reciclar-se economicamente, adotando
quase uma versão moderna da Nova Política
Econômica implementada por Lênin nos anos
20. Trata-se de uma tentativa de modernização
não só através da agilização
das estruturas econômicas do Estado como da maior
participação da iniciativa privada, movimento
observável em diversos graus em todo o mundo
socialista. Ao contrário do que pretendem versões
à direita e à esquerda, tal orientação
longe de enfraquecer o socialismo, tende a fortalecê-lo,
na medida em que lhe dá mais fôlego, aumentando
a produtividade e desenvolvendo as forças produtivas,
condições essenciais para que o novo modo
de produção continue deslanchando.
O
gigantesco país do dragão começou
a assimilar que não poderia continuar cultivando
o atraso e o isolamento. O fato de ter resolvido, através
de transformações estruturais profundas,
a fome e a miséria de mais de um bilhão
e pessoas não lhe dava necessariamente a certeza
de que a economia prosseguiria sua marcha ascendente.
Esse milagre, o maoísmo não conseguiu
produzir. Depois de ter avançado bastante em
relação às estruturas anteriores,
o governo chinês dava passos no sentido de reincorporar-se
à comunidade socialista. A recente recepção
a Gorbatchev é uma evidência desse esforço.
Sentia-se a necessidade de uma nova política
externa, visando sobretudo a superar o fosso tecnológico
que separava a China dos países socialistas e
capitalistas avançados.
O
massacre da Praça da Paz Celestial dá
mostras de que o stalinismo não é residual
na China. Embora sejam evidentes os sinais da existência
de forças comprometidas com um socialismo democrático,
predominaram mais uma vez os setores que preferem sempre
calar os opositores pela força a aceitar o difícil
caminho do diálogo e da negociação.
E aqui não é possível tergiversar:
é preciso protestar duramente contra tal postura
ao tempo em que se reconhece que só recentemente
o socialismo real vem tratando com profundidade a questão
democrática.
Rosa
Luxemburgo, nos anos 20, já polemizava com Lênin
sobre a questão das liberdades. Suas advertências
eram quase premonitórias. Razão para suas
preocupações viria a dar Stalin, que nem
de longe tinha a estatura do líder da revolução
bolchevique. Sufocou todas as liberdades e passou a
entender a democracia como regime que atendia as aspirações
dele próprio e de seus pares. Isso o levou a
assassinar milhares de opositores, incluindo alguns
revolucionários extraordinários. Entre
os comunistas, durante décadas e talvez até
hoje, a democracia era encarada como uma postulação
burguesa, não um valor essencial a ser defendido
pelos que propugnam o socialismo como solução
fundamental para os problemas da humanidade.
Não
por acaso, foi do PV italiano que vieram os primeiros
ventos modernizadores sobre o socialismo. Gramsci, mesmo
preso pelo fascismo, inovou a compreensão acerca
da revolução no Ocidente. Nesta parte
do mundo, ao invés da “guerra de movimento”
– a tomada do Palácio de Inverno como símbolo
– impunha-se a “guerra de posições”
no âmbito da própria sociedade civil, visando
à direção político-ideológica
e ao consenso dos setores majoritários da população
como condição de acesso ao poder de Estado.
E essa luta pela hegemonia pressupõe a democracia,
o embate de contrários e o respeito às
correntes diversas, já que a direção
se estabelecerá pela capacidade político-cultural
e não pela força.
A
Praça da Paz Celestial ocupada pelos tanques
é um triste símbolo de um modelo de socialismo
que vai sendo sepultado aos poucos. No resto do mundo
socialista cresce a consciência de que sem a democratização
das sociedades não há modo de produção
que tenha futuro, nem homens e mulheres felizes. Gorbatchev
o compreendeu e tem sido o grande arauto das indispensáveis
transformações no mundo da economia e
da política socialistas. Compreendeu não
só a necessidade de repensar o gigantismo do
aparelho estatal-burocrático, acicatando-o com
a participação controlada da iniciativa
privada, como também de abrir as portas a novas
formas de participação política,
onde se pressupõem naturalmente as divergências,
próprias e necessárias à democracia.
E que não podem ser resolvidas à bala.
Tribuna da Bahia – 13.06.1989
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